poesia

Árvore

Árvore

por Manoel de Barros

 

Um passarinho pediu a meu irmão para ser a sua árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu e de lua mais do que na escola.
No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhe ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus.
Seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor
o azul.
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poesia

Poema

Poema

por Orides Fontela

 

Saber de cor o silêncio
diamante e/ou espelho
o silêncio além
do branco.

Saber seu peso
seu signo
‒ habitar sua estrela
impiedosa.

Saber seu centro: vazio
esplendor além
da vida
e vida além
da memória.

Saber de cor o silêncio

‒ e profaná-lo, dissolvê-lo
⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀⠀em palavras. Continue reading »

poesia

Cidade prevista

Cidade Prevista

por Carlos Drummond de Andrade

 

Guardei-me para a epopéia
que jamais escreverei.
Poetas de Minas Gerais
e bardos do Alto do Araguaia,
vagos cantores tupis,
recolhei meu pobre acervo,
alongai meu sentimento.
O que eu escrevi não conta.
O que desejei é tudo.
Retomai minhas palavras,
meus bens, minha inquietação,
fazei o canto ardoroso,
cheio de antigo mistério
mas límpido e resplendente.
Cantai esse verso puro,
que se ouvirá no Amazonas,
na choça do sertanejo
e no subúrbio carioca,
no mato, na vila X,
no colégio, na vila oficina,
território de homens livres
que será nosso país
e será pátria de todos. Continue reading »

poesia

Os acontecimentos e os dizeres

Os acontecimentos e os dizeres

por Adélia Prado

 

Quem está vivo diz:
hoje às três horas padre Libério
dá a bênção na Vila Vicentina.
Ou assim: coisa boa é um banho.
Ou ainda: casamento é coisa muito fina.
Eu achei tanta graça quando aprendi a dar nós,
fiquei cheia de poder.
Entendi depois o que queria dizer:
“Toda convicção é apostólica”,
fiquei cheia de espanto.

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poesia / USINA impressa

A propósito dos últimos acontecimentos

A propósito dos últimos acontecimentos

Por Leonardo Marona

 
aqui estamos nós, os cercados, mais uma vez.
somos outra vez os sionistas dos anos trinta.
somos outra vez o rapaz de vermelho linchado.
somos outra vez a quenga que deve morrer.
somos outra vez o veneno dos dentes podres
de velhos eunucos e suas mulheres cocainômanas.
somos outra vez os curdos no topo da montanha.
somos outra vez a execução do nariz de palhaço.
somos outra vez a gangrena violácea do apuro.
somos outra vez a tremedeira do ser em pânico.
somos outra vez o caminho dos beligerantes. Continue reading »

poesia

Alguns poemas

Alguns poemas

Por Gabriela Perigo

 

sem internet na cidade capital do sol. com chuva. há dias. organizar os pensamentos questão de v1d4 ou morte. sob risco. apalpar as urgências, mesmo criá-las novas e de novo. a cabeça debaixo d`água numa piscina azul que reluta aceitar a condição de bacia e transborda. as bordas. mais de 1 minuto debaixo dágua tentativa e erro. submersão abrutalhada respiração feita do parto escute – o som é iletrável – puxe o ar com força e susto-agora. impressão de nascer de novo sob o contorno de outras águas. Continue reading »

poesia / USINA impressa

epígrafe

epígrafe

Por Gabriel Gorini

 

quem de ferro fere o fogo quem
de quase fura o corpo qual
carícia em tempo firme
qual malícia escapa à
sorte seremos nós guerreiros
do apocalipse seremos
nós milícias do fim do
mundo seremos nós pagãos
adictos organismos febris
espíritos abandonados
seremos nós visão do amanhã
predispostos ao ocaso Continue reading »

poesia

Nós Dois Cantando Sidney Magal Na Feira De São Cristóvão

Nós Dois Cantando Sidney Magal Na Feira De São Cristóvão

Por Valeska Torres

 

Para Fernando

estação da Penha
desemboco perdida na linha de fuga, percebo
-como se percebem os furos de tatuí na areia de grumari –
o grão de purpurina no fim do carnaval
são quatro por dois isso que inflama o meu peito
não chupo a espinha do peixe,
não como mocotó Continue reading »

literatura / poesia

pequena história mental nº42

pequena história mental nº42

por Antonio Rodrigues

 

meu segredo é não reclamar de nada
é seguir a vida
como a vida é
os outros que me perdoem, as mulas que me
abençoem
são nossas as nossas dores
eu que não sei dizer
se aquilo que vi se aquilo que sei
não sei mais
o que dizer se aquilo que não vi nem
sei pode ter pode ser o privilégio de
mim
aqui onde se faz onde se paga mas não sei
quanto a alguns quanto a muitos
eu não sei aqui se faz aqui se paga
eu não sei aqui se faz aqui se paga
eu não sei

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dois poemas de Matheus Mendes
poesia

dois poemas de Matheus Mendes

Queima Nacional

por Matheus Mendes

 

Canta a Deusa às Musas invertidas
A cólera de Lethes, a moderna filha:
Museográfica flama, ars do passado,
Da ruína da história, um esquecimento
Da Memória. Musa chorada sob fina chuva
Em pira melancólica que fabrica a imagem
Nua de um edifício sedimentado pelo barro
Movente da chama. Se chamado o Verbo, a Ira
De Ares, mártir das mínimas e simplórias
Tragédias humanas. Mítica ode que Luzia
Em final silencioso os estalidos consumidos
À cova rasa desse segundo genocídio,
A convivência com o passado (um estampido)

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Breve história da cri-(a)-ção do Mundo – por Priscila Alba
pensamento / poesia

Breve história da cri-(a)-ção do Mundo – por Priscila Alba

Breve história da cri-(a)-ção do Mundo

por Priscila Alba

 
Nada-menino, uma vez era. Nada, na medida em que passava e engrandecia, sentiu-se sozinho, quis conversar. Quis conversar, mas percebeu que ele, Nada, sozinho estava. Indagou:

– Por quê esta solidão?

Nada pensou e, ao pensar, concluiu:

– Se me chamo Nada e me sinto sozinho, procuro alguém e não acho… Creio que, outro Nada, não deve haver. Continue reading »