Tia Tê
tem uma pele preta perfeita
e os olhos fundos
de ressonância schumann
que ditam a frequência
e o ritmo dos dias
ouvi dizer certa vez
de um belorizontino
que no nordiminas
há ressonâncias
capazes de provocar
interferências
nos aviões
pensei nos olhos
de nuvem funda
de Tia Tê
se eles também sofriam
algum tipo de interferência
quando em aviões
perguntei a Tia Tê
se podíamos andar de avião
agora não
perguntei se ela
poderia me ensinar
a nadar no rio
Tia Tê
para de costurar
para me dizer
que não tinha rio
em Montes Claros
não desses
que dá pra nadar
tem o córrego Vieira
ela disse
pra não pular
pois quem pula
pode morrer
Tia Tê
tem as sobrancelhas
pretas e grossas de canoa boa
segurando os olhos
porosos da queda
inevitável dos dias
Tia Tê falava pouco
brincava muito
de esconde-esconde
de boneca de pano
Tia Tê fez uma asa de fada
de papelão, TNT e paêtes
rosas e azuis
assim eu tinha
o meu próprio avião
nas costas
eu gostava de ser
a professora
mas às vezes brigávamos
pois eu insistia
em escrever o
3 ao contrário
e o beijaflortudojunto
veja bem Tia,
o três precisa ser ao contrário
senão vão confundir
ele com o B
como é que se diz
1,2,B?
veja bem Tia,
não tem por que
usar o hífen,
se ele beija a flor
tem de ser tudo junto
Tia Tê era paciente
logo eu aprendi
que a gramática
não obedece
a evidente lógica das coisas
mesmo assim
Tia Tê disse
que faria
uma canoa de papel
para nadar
entre as pedras de São Tomé
no Quintal
perguntei
se a água
não ia desmanchar
os barcos
ela disse
que mesmo dissolvidos
dá pra canoar
a canoagem como esporte olímpico
nasce na Groenlândia
como o beijo dos esquimós,
essa esgrima de narizes
capaz de demolir iglus
a canoagem de papel,
por sua vez,
inaugurámos ali,
aos meus seis anos
aos trinta e dois dela
para manejar
uma canoa de papel
construímos um dia
de giz de cera verde caba-cana
um tempo de cola quente
que não tenha medo
de construir canoas
apesar das dissoluções
para dobrar o papel
na forma exata de uma canoa
portávamos apenas as mãos
e o palpite da etnomatemática
a única régua
para atravessar o recém -inaugurado
rio das formigas
chegar à margem
sob o suor do dia
regar o cabelo-de-anjo
dar de comer às galinhas
a aragem
a degradação das goiabas pisoteadas
nada mais são
que a mão
a prolongar-se
eu gostaria
de fazer uma canoa
onde fosse possível
guardar uma coleção de mãos
proteger a superfície dos dedos
contra o feitiço de enrugamento
que nasce da varinha
de água porosa
saindo da mangueira verde
que começa a ruir
Tê corta a parte ferida
continua a regar
peço para que ela deixe
a água acumular nos cantos
entre as pedras
para que os barcos tenham
um rio para atravessar
uma canoa de papel
tem mistérios
que apenas as formigas
decifram
e se as formigas
se desatentassem ao propósito
de embarcações
chegassem ao outro lado
sem levar o pedaço
de doce de amendoim
que tão arduamente carregaram,
por tanto tempo?
as canoas de papel são então
uma epígrafe das formigas
onde é melhor ser
o papel-madeira mofada
do que ao tocar a viagem
esquecer-se da carga
tornar-se água.