#3 Edição/cinema

Saudação a Eduardo Coutinho

Ainda ontem anunciaram tua morte, teu descanso. Eles
não souberam falar mais coisas mas teu corpo estava
pálido no centro da sala,
teu corpo estava caído solitário no centro da sala e
ninguém soube falar mais nada. Ainda ontem
anunciaram tua partida, tua glória. Eles não puderam
cantar teus cantos, eles não puderam assistir às lutas.
Ainda ontem anunciaram tua morte e só pude olhar
para a baía como quem fita o universo.

Você, que nunca desconfiou do meu nome, que nunca
soube das minhas feições, que nunca se sentou ao meu lado
na mesa. Você, que andava pelos pátios, que pedia
um café, que fumava tantos cigarros. Eu poderia esbarrar
no teu corpo que parecia tão frágil, te pedir desculpas
e ainda dizer: é teu nome Eduardo Coutinho?

Eu, que te fitava como quem olha o oceano, que
te contemplava como aos deuses, que te anunciava
o gênio, que te celebrava o encanto. Eu, que
covardemente nunca soube o que falar, que
te olhava passar pelo átrio com o jornal debaixo
do braço. Eu, que nunca te fiz perguntas, eu, que
nunca te apertei a mão, eu, que nunca te senti
o cheiro, hoje te guardo na memória.

Ah, então é isso: homem das memórias! Será que César
saberia te confortar? Entoar qualquer frase discreta, qualquer
sussurro que chegasse aos teus ouvidos. Será que
César saberia o que dizer nesses instantes de
tempestades? Controlar tua sede, examinar tuas
feridas, vestir teu corpo frio.

Poderíamos pensar assim: você e tua voz rouca
(eu, que nunca te fiz perguntas,
eu, que nunca te apertei a mão, já te ouvi tantas
e tantas vezes!) caminhariam pelo
Largo de São Francisco ou pela Rua Jardim
Botânico, e, como se fosse acaso, eu
te diria: mestre! Como se fosse
acaso eu andaria a passos curtos,
precisos, ao teu lado pra te dizer: mestre!
Não que fosse necessário,
não que minha fala contaminasse
os arredores e, de certa maneira,
fizesse algum tipo de justiça. Seria
forma de completar a dádiva, de
devolver um pedaço de alma. Eu
ainda te perguntaria: é teu nome Eduardo Coutinho?

Você e aquela rispidez sensata, a
desromantização sensível, quem vai saber
como era teu espírito? Teus medos internos,
você terá algum? Ainda ontem anunciaram
tua morte e eu, completo
desconhecido, anônimo de rosto
e de fala, desses que você tanto
narrava, me permiti desabar em
pranto, me permiti contemplar
passivamente as edificações da cidade
e quase reparar nos impossíveis
limiares da memória.

Se ainda na próxima semana, com
teu cigarro na mão, com teu jornal debaixo
do braço, você aparecer no Largo de São
Francisco número 1, se ainda na próxima
semana você sentar num dos bancos
presos ao chão, com o café pronto
para ser revolvido, eu me sentarei ao
teu lado e direi: é teu nome Eduardo Coutinho?
 

J. Reis, fevereiro 2014

 

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