literatura

o segredo da voz – conto de Vítor Kawakami

o segredo da voz

conto de Vítor Kawakami

o primeiro canto que eu me lembro de ter parado para escutar foi o da cigarra. toco de gente pelada, à beira do poção onde nós meninos virávamos peixes sedentos em meio à algazarra. eu devia ter uns três anos ainda, mas tenho bem presente em meu corpo aquele som riscando os ouvidos: sim, com meu corpo todo que me lembro daquele momento, pois o zunido me atravessava por inteiro, e assim tive minha primeira vibração, minha ressonância inicial. a partir de então, percebi que alguns sons me punham como que em transe. mãe me obrigava a levar o almoço para vovô que trabalhava rio acima. eu ia sempre excitado, pois sabia que ao chegar à lavra, caso desse sorte, podia ouvir a jangada secando água. êxtase ao meio-dia. tom fundamental. Continue reading »

literatura

Os Santinhos da João Afonso – conto de Alice Nin

Os Santinhos da João Afonso

conto de Alice Nin
 
Coloco os pés na luz e os olhos no chão da rua. Assim bem cedo, ou mais tarde, às vezes apressada, ando olhando para baixo, para frente, e para os lados. Antes que acabe essa minha pequena rua de paralelepípedo percebo que o chão está cheio de pequeninos pedaços de papel. Alguns bem pisoteados outros intocados. São santinhos, imagens estáticas me olham e forram não só o chão, como o vidro dos carros e os fundos das caixas de correspondência. Nunca tem dois santinhos diferentes no mesmo dia, quando é dia de nossa senhora, é dia de nossa senhora. Não é aconselhável confundir os santos Continue reading »

literatura

a quarta estação

a quarta estação

por Irene Baltazar

 

eram ferozes, feras ferozes, que vinham sentiam o piscar dos olhos, as pálpebras dobrando, arrefecendo. nisso que saíram, aos poucos, casais de muitos tipos, os dentes sobrando pra fora, a boca mordida pra dentro, lábios carnudos. vultos ou sombras, aquilo que se espiava, o mudo o mudo barulho que se ouvia

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literatura / poesia

pequena história mental nº42

pequena história mental nº42

por Antonio Rodrigues

 

meu segredo é não reclamar de nada
é seguir a vida
como a vida é
os outros que me perdoem, as mulas que me
abençoem
são nossas as nossas dores
eu que não sei dizer
se aquilo que vi se aquilo que sei
não sei mais
o que dizer se aquilo que não vi nem
sei pode ter pode ser o privilégio de
mim
aqui onde se faz onde se paga mas não sei
quanto a alguns quanto a muitos
eu não sei aqui se faz aqui se paga
eu não sei aqui se faz aqui se paga
eu não sei

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literatura / pensamento / poesia

Haroldo de Campos – O sequestro do Barroco

Todo o respeito por vossas opiniões! Mas pequenas ações divergentes valem mais! (Nietzsche)   O PARADOXO BORGIANO E/OU PESSOANO (pp. 10-11) Estamos, pois, diante de um verdadeiro paradoxo borgiano, já que à “questão da origem” se soma a da identidade ou pseudoidentidade de um autor “patronímico”. Um dos maiores poetas brasileiros anteriores à Modernidade, aquele … Continue reading »

Maria Luisa Bombal – Excertos
instantâneos / literatura

Maria Luisa Bombal – Excertos

Autora chilena nascida em 1910, Maria Luisa Bombal é uma das poucas autoras latino-americana a conseguir prestigio fora do círculo da sua língua nativa. Grande amiga de Jorge Lus Borges, seus romances, sempre curtos, evocam uma atmosfera onírica e fantástica. Suas narrativas tratam da feminilidade, da submissão ao homem, o casamento deprimente – situação que … Continue reading »

A revanche do sagrado: entrevista com Edimilson de Almeida Pereira
#26 Edição / entrevista / literatura / poesia / USINA impressa

A revanche do sagrado: entrevista com Edimilson de Almeida Pereira

“Esse dilema do processo de criação é uma outra maneira de ressaltarmos a tensão ‘enraizerrante’, que confere à experiência poética a possibilidade de dizer-nos que aquilo que nos fixa no tempo e no espaço, na vida pessoal e coletiva só o faz porque se move e se transfigura continuamente.” Continue reading »