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O fabuloso Quinquagenário de Lucy Almeida

junho, 2024

Prólogo

Lucy Almeida estremeceu de frio e acordou. Sentiu a garganta arranhar e reparou no ar condicionado ligado, mas estava ainda bêbada e não lhe ocorreu desligá-lo. Sentiu a coberta tesa quando tentou puxá-la para se cobrir, e notou que Alfredo Lopes se havia dela apossado, como de costume. Quase esquecera que ele estava lá, mas um ronco molhado esvaziou sua mente de toda sonolência restante. Abriu os olhos e piscou algumas vezes, focalizando seu reflexo no espelho do teto. Sentiu a cabeça rodar e fechou os olhos de novo. Sentiu como se caísse, primeiro devagar e depois rápido. Abriu os olhos outra vez e uma náusea horrível contraiu seu estômago. Com um pulo desajeitado saiu da cama e correu para o banheiro, ajoelhou-se diante do vaso sanitário e esperou. O enjoo passou, mas Lucy Almeida permaneceu ali, achando graça. Alguns minutos depois se sentiu um pouco indigna, e levantou-se com altivez, evitando o espelho.

Seu olhar foi atraído pela banheira de hidromassagem, que brilhava refletindo a luz azulada que entrava pela janela. Era uma imagem bonita, daquelas impossíveis de fotografar. Imaginou algum artista, Basquiat talvez, deitado ali, espumando com uma agulha no braço. Bons tempos os anos oitenta, pensou, uma pena que tenha matado tanta gente bacana. Sentou-se na beirada da banheira e apanhou uma das garrafinhas de plástico pousadas ao seu lado. Xampu e condicionador, dois-em-um. Inspecionou a outra: eau de toilette. Agarrou a terceira com impaciência, e encontrou o que buscava. Estendeu o braço em direção às torneiras e girou a primeira com facilidade. Uma corrente forte de água despencou dentro da banheira.

Lucy Almeida se levantou, foi até o frigobar, abriu a porta, apanhou a garrafa de espumante, voltou ao banheiro, e a deixou sobre a pia. Foi ao quarto e, sem olhar para Alfredo Lopes, recolheu o maço de cigarros que deixara sobre a mesa de canto. Alegrou-se com sinceridade quando viu que estava ainda fechado, dentro do plástico. Voltou para o banheiro e tomou consciência de que estava ainda completamente vestida. Despiu-se, então, observando o movimento rápido da água, que já enchera a banheira quase por completo. Fechou a primeira torneira e girou a segunda com dificuldade, fazendo arrotar as entranhas hidráulicas da engenhoca lúdica. Destampou a garrafinha de plástico e despejou seu conteúdo viscoso, que de imediato começou a borbulhar nas águas agitadas. Quase ao mesmo tempo, um poste de luz na rua, que estivera apagado, acendeu de repente, inundando o banheiro com uma luz amarelada que refletiu nas bolhas e a emocionou. Lucy Almeida segurou com firmeza a garrafa de espumante e entrou com cuidado na banheira. Deitou-se, uma onda de prazer se espalhando por seu corpo quinquagenário, enfim massageado pelos jatos de água quente. Deu um pequeno gole, as bolhas vazando e escorrendo pelo seu queixo e por entre os seios. Abandonou a garrafa no chão e se esticou, buscando o maço de cigarros, que desembrulhou e abriu. Pescou um e o enfiou na boca. Lucy Almeida viu poesia em toda esta cena, e disse, enquanto acendia o isqueiro, meio para si mesma, meio para o mundo inteiro:

– Cinquenta anos. Não é todo dia, não é?

A madrugada

Lucy Almeida esqueceu onde estava por um breve instante. Observou com profunda atenção uma gota de água pesada descer de uma só vez, do alto do vidro até embaixo. Seu rosto estava colado na janela do carro, e sua respiração quente a embaçava na altura da boca. Tomou consciência do quão terrível estava seu hálito, e sofreu por não ter uma escova de dentes. Outra gota capturou sua atenção, descendo com muito esforço, lentamente.

– Você podia ter ido.
– Você não me chamou.
– Podia ter ido mesmo assim. Fazer uma surpresa.

O carro parou, mas Lucy Almeida não se moveu. Sabia que Alfredo Lopes jamais a deixaria abrir uma porta, e aguardou. Depois deste dia cheio de emoções, alegrou-se com sinceridade quando sentiu a porta abrindo e viu Alfredo do lado de fora, um pouco torto, um sorrisinho de canto de boca, um guarda-chuva imaginário. Desceu do carro e, aos tropeços, correu da chuva até debaixo da marquise. Estava confortável nesta cena, o dia não havia sido tão ruim assim, afinal.

– Espera rapidinho, vou comprar um cigarro.

Lucy Almeida tomou um pouco mais de chuva para atravessar a rua, e comprou um maço de cigarros na lanchonete, retornando em menos de um minuto para a entrada do Hotel Alameda. Pensou que deveriam ter pedido ao motorista que entrasse na garagem; era impróprio para uma senhora de cinquenta anos entrar em um motel assim, à esta hora, bêbada, e à pé. Alfredo Lopes já havia entrado, contudo, e nada pôde fazer além de segui-lo.

A recepcionista sexagenária ergueu a cabeça, mantendo o olhar para baixo, fixo no baralho de cartas de plástico, distribuídas com esmero sobre sua escrivaninha.

– Um apartamento simples, por favor.- A voz de Alfredo Lopes estava mole.
– Apartamento simples, não! Dessa vez eu quero hidromassagem.

A recepcionista abaixou a cabeça novamente, sem nunca desviar o olhar das cartas. Lucy Almeida pensou nas galinhas que conseguem manter a cabeça imóvel, e achou graça.

– Hidromassagem, Lucy? Quantos anos você tem?
– É meu aniversário, me deixa.
– E os canos?
– Que canos?
– Os canos da hidromassagem, Lucy. Acha que dá para limpar dentro dos canos?

A recepcionista hesitou no meio de uma jogada, como se por um instante fosse sucumbir ao dever do ofício e defender a higiene de seu estabelecimento. Olhou de soslaio para o relógio na parede, e retomou o seu jogo sem dizer nada.

– A água que sai do cano é nova.
– Claro que não, Lucy, a hidromassagem pega a água da banheira e joga de volta pra dentro. É um liquidificador. Este lugar está aqui desde sabe-se Deus quando. Décadas de porra direto na sua cara.
– Não posso mais engravidar. E se engravidar boto você para assumir.
– E se pegar doença me bota para assumir também?
– Não enche o saco e pede logo.
– Eu não vou entrar naquele negócio.
– Então não entra.

A recepcionista, teimosamente muda, entregou a Alfredo Lopes uma chave grande. Subiram as escadas e, diante da porta pesada do quarto que lhes fora designado, Lucy Almeida perguntou com malícia:

– Sabe o que eu estava pensando?
– Não faço mais isso.
– Mas é meu aniversário.
– Tem mais de dez anos que eu parei.
– Nem uma vez?
– Sacanagem você me pedir isso, depois de tudo.
– Desculpa, você tem razão.

Lucy Almeida buscou os braços de Alfredo Lopes, que se desvencilhou e empurrou a porta, indo até o banheiro sem olhar para trás. Abriu a torneira, jogou água no rosto e esfregou os olhos com força.

– Casa comigo, Lucy. Eu não sou perfeito, sei que te sacaneei algumas vezes. Mas você me sacaneou também. Podemos ser felizes
– Esse papo de novo?
– Estou falando sério. Casa comigo. Vamos envelhecer juntos.
– Você ficou quinze anos sem falar comigo, Alfredo.
– Isso foi há séculos, Lucy. Você vai se lembrar disso para sempre? Foi você que me deu um fora. Preferiu aquele babaca.
– O John me levou para morar nos Estados Unidos.
– E te abandonou depois. Eu não sou rico e não posso te dar o que você merece. Mas eu sempre quis.
– Você só fala isso quando está bêbado.
– Você só me encontra para beber. Para você sou só farra, mas eu te amo.

Lucy Almeida estendeu a mão e encontrou o membro de Alfredo Lopes. Estava flácido, demandaria paciência, mas ela estava bem-humorada e disposta a se esforçar. Acariciou seu amante lentamente, com afeto, enquanto se deitavam. Depois de alguns minutos, começou movimentos mais enérgicos, o desejo esquentando suas bochechas. Sentiu um discreto endurecimento, que logo desapareceu. Sentira o pulso de Alfredo, e a ternura tomou conta de seu coração. Lembrou de quando se haviam conhecido, tantas décadas atrás.

– Eu caso.

Um ronco gutural e úmido a arrancou de seus devaneios. Alfredo Lopes adormecera, e Lucy Almeida, cuidadosamente equilibrada entre irritação e benevolência, virou para o lado e adormeceu quase no mesmo instante.

A noite

Lucy Almeida parou, vasculhou a bolsa e sacou um diminuto espelho arredondado. Mirou-se, primeiro o cabelo escuro na altura dos ombros, tingido com mechas elegantes; depois os olhos coloridos com sombras dramáticas e linhas negras; as maçãs do rosto, vivas e rosadas; por fim, seus grandes lábios vermelho-rubi, foscos e carnudos, claramente eróticos. Constatou que a chuva não havia estragado sua produção e se sentiu pronta, segura e feliz. Devolveu o espelho para a bolsa e apanhou o maço de cigarros, no qual restava apenas uma meia dúzia.

– Boa noite, eu tenho uma reserva.- Disse, acendendo um cigarro.

A moça achou graça, mas, jovem, ainda temia os clientes.

– Deixa eu olhar aqui, rapidinho.- Não havia necessidade de fazer reserva, nem lembrava onde ficava a lista, mas mexeu em uns papéis por alguns segundos e, por fim, encontrou um nome solitário. – Aqui está. Reserva em nome de Lucy Almeida?
Lucy Almeida. Não Lucy. É em francês.
– Desculpe, dona Lucy, escrito assim não dá para saber.

Deve ter um QI de alça de balde, pensou Lucy Almeida, jogando o cigarro aceso no chão. A mocinha a conduziu em silêncio até o salão quase vazio. Lá estavam algumas mesas alinhadas, prontas para a expectativa de vinte convidados e seus acompanhantes, apenas os mais importantes e selecionados, apenas os íntimos, os amigos próximos, os confidentes, um ou outro amante pouco ciumento; mas sem colegas antigos de trabalho ou de faculdade, essa gente terrível, os inimigos. Queria apenas ter uma noite relaxada, cheia de tolices e memórias, com muito vinho de qualidade intermediária, informalidade, improviso e espontaneidade.

– Eu estou um pouco atrasada, já chegaram muitas pessoas?
– Não chegou ninguém ainda não, senhora.
– Lucy!
– Um alívio profundo esquentou as vísceras de Lucy Almeida, que por alguns segundos haviam gelado com o medo da solidão.
– Rô, minha querida!

Rosângela Lembreuger se agigantou diante de si, o rosto severamente curtido por décadas de praia e ócio, os dedos calejados pela ginástica e pelo lesbianismo, o visual bastante destoante de quem delegou a imagem para empresas cujos produtos revende, a companheira muito mais jovem. As duas abriram sorrisos honestos.

– Só assim para te encontrar, Lucy! Por onde você anda?
– Eu passei um tempo nos Estados Unidos!
– Disso eu sei! Você já voltou há bastante tempo, não? A gente chegou a se encontrar algumas vezes.
– Eu voltei para lá,- mentiu- tive que resolver umas pendências.
– Nossa, ainda aquele cara? Não voltaram não, né?
– Não, jamais, aquele filho da puta. Mas já gastei o dinheiro que tirei dele, fui lá atrás de mais.

As duas gargalharam gostosamente.

– E com toda a razão, você abandonou tudo para ir embora com ele.
– E você? Está morando aqui de novo?
– Que nada, não suporto essa violência, esse barulho, só vim mesmo porque a minha mãe está doente…
– Poxa, Rô, o que houve?
– Velhice, coitada. Está com problema de parafuso há alguns anos e agora é o corpo que está dando problema.
– Envelhecer é pior do que morrer, Rô. Infelizmente, essa é a verdade.

Rosângela Lembreuger sentiu um gosto ruim na boca. Com aquelas palavras, de uma só vez, Lucy Almeida perdeu o ar doce de lembrança juvenil. Lembrou-se de sua perfídia incompetente, de seus escândalos humilhantes, de sua postura patética de aristocrata decadente, de seus preconceitos, de suas cenas, de suas mágoas; enfim, lembrou-se de tudo aquilo que a fazia lembrar-se de si. Naturalmente, desgostou-se, e Lucy Almeida voltou a ser alguém a ser evitado no futuro.

– Vamos lá fora fumar um cigarro? Com essa chuva o pessoal atrasou.
– Você combinou alguma coisa aqui?
– Sim, hoje é meu aniversário.
– Uau! Que maravilha! Que coincidência! E está comemorando aqui? – O desdém foi evidente, Rosângela Lembreuger sequer tentou camuflá-lo.
– Sim, sim, eu venho aqui desde a época da faculdade. Queria uma coisa bem pequena e íntima, só para os próximos.
– E como assim eu não sou próxima? Não me chamou por quê?

A tarde

Lucy Almeida tropeçou em um buraco da calçada e quase caiu. Recompôs-se, jogou o cigarro aceso no chão e entrou no salão, ainda a tempo de fugir da chuva que começava de repente a cair. Rosa não precisou se virar para saber quem entrava, porque reconhecia seus clientes pelo barulho dos passos. Inspirou fundo e se virou, sorridente, com os braços abertos:

– Feliz aniversário, dona Lucy!
– Muito obrigada, Maria!
– Hoje é o grande dia!
– Sim! Grande mesmo!
– Cinquenta anos! Não é todo dia…
– É verdade, estou muito ansiosa.
– Onde vai ser o baile?
– Baile nada, vou fazer uma comemoração pequena, só uns cinquenta convidados para combinar com a data.
– E que data! Merece uma arrumação caprichada!
– Merece mesmo! Inclusive deveria ter vindo mais cedo, almocei com mamãe que ficou reclamando do meu cabelo…
– Mãe é mãe, dona Lucy! Com vinte anos ou cinquenta. Mas me diga, no que está pensando?

Lucy Almeida sentou confortavelmente na poltrona de couro falso do salão e se olhou no espelho. É verdade, a mãe estava certa, já se havia ido o tempo quando podia sair sem nada fazer no rosto, sem esconder um tanto a morte para poupar a si e aos jovens. Tagarelou um tanto, apontou imagens em revistas, trocou fofocas sobre a gente que trabalha na rua, contou vantagens sobre quando morou nos Estados Unidos e, por fim, falou longamente sobre a festa para a qual convidara cinquenta pessoas. Discorreu sobre o quanto adorava aquele lugar aonde ia desde a juventude, palco privilegiado da melhor época de sua vida, onde celebrou vitórias e compensou derrotas. Aprendera naquelas mesas a não dar importância aos centavos, a não buscar partilhas exatas em contas impossíveis, pois hoje em dia fazia apenas divisões simplificadas, preferindo até mesmo pagar um pouco a mais do que se vergar diante da mesquinharia humana. Sentiu-se um mulher simples, mas honrada e sólida.

– Chamei até amigos antigos do colégio que não vejo há trinta anos. Incrível essa coisa de internet, né?
– E a senhora está gostando da Maria?
– Que Maria?
– A minha prima.
– Sim, claro… Gostei muito, sim, a faxina dela é muito boa. A comida pode melhorar, mas está quebrando um galho.

Um pouco incomodada ao perceber que não sabia o nome da prima de Rosa, apanhou o livro que havia metido dentro da bolsa e o abriu em uma página qualquer:

A história concreta se movimenta às margens do rio do tempo, na pequena e quase irrelevante escala do corpo humano e de sua vida trágica e esperançosa. Não reis ou rainhas; não os deuses e civilizações; não o tectonismo, e nem os abismos. Mas o espírito que, carne, deixa rastros do maravilhoso nas areias finas deitadas às margens do rio do tempo. Costumes que passarão de uma época que passará, formas por vezes melancólicas e cínicas diante de sua finitude, mas também pistas que nos comovem- a obstinação e a luta, a teimosia fanática que esculpe e sustenta a memória com sangue, com suor, com labor. A sabedoria se multiplica diante do mistério que congrega nossa comunidade forjada pela guerra; é elo que, contemplado honestamente, estimula a perplexidade e pacifica a angústia. Não por dar sentido à morte, esforço possível porém ingrato, mas por fortalecer a memória daquelas histórias que se redesenham às margens do rio do tempo. Afinal, arde no pavio das velas o mesmo princípio burlesco do núcleo das estrelas.

– O que você está lendo, Lucy?
– É um francês que estudei na faculdade, outro dia lembrei dele e quis dar uma olhada. Mas fica muito difícil, porque as traduções são sempre ruins. Mas só encontrei esta tradução, fazer o quê? Você gosta dos autores franceses, Maria?

Rosa pensou o quão detestável era aquela mulher. Calçou uma expressão servil, enquanto fazia força para lembrar-se de, no futuro, arrumar uma desculpa qualquer para não atendê-la, delegando-a a outra funcionária.

– Não conheço, dona Lucy. Parece difícil.
– Que nada, são só palavras difíceis para dizer platitudes. Quando era nova, achava fascinante, mas, para te dizer a verdade, agora eu acho muito brega. Só estava dando uma chance. Mas, realmente, sem uma formação, não dá para perceber o quão raso é isso tudo. Ainda bem que fugi para os Estados Unidos e pude ver como o mundo, de fato, é. Se tivesse ficado aqui, ia morrer achando que essas coisas têm importância. Isso é coisa de
brasileiro elitista, serve só para a pequena-burguesia se achar melhor que o povo. Não se preocupe com essas bobagens, o tempo passa. De que adianta ler tanto, se na velhice terminamos esquecendo tudo? O que importa é o caráter e a experiência de vida. Agora, com cinquenta anos, eu sei disso.

O almoço

– Oi, mamãe. Você chegou há muito tempo?
– Não se preocupe comigo. Trouxe uma lembrança para você.

Lucy Almeida se inclinou e beijou a têmpora de Adelaide Amaral, que lhe entregou uma embalagem vistosa de papel laranja.

– Obrigada, mamãe, não precisava.- Disse, sentando na cadeira oposta e pousando a embalagem sobre a mesa miúda de pedra, sem abri-la.
– Você já pediu?- Ainda não, mas acho que vou pedir o mesmo de sempre.
Lucy Almeida buscou o maço de cigarros em sua bolsa, e com alguma preocupação viu que já estava quase pela metade. Puxou um e, à boca, acendeu depois de alguns segundos procurando o isqueiro. A mãe examinava o cardápio e disse, sem levantar os olhos:

– Pensei que tinha parado.
– Eu parei.

Um certo silêncio forçou maiores explicações:

– Este é o último maço, quando acabar não compro mais.

Lucy Almeida esperou algum comentário sarcástico de Adelaide, que seguiu examinando o cardápio como se indisposta a oferecer energia àquela conversa. Pousou sua mirada sobre os olhos esticados e brilhantes da mãe, seguramente fruto de paixões clandestinas, apagadas da árvore genealógica da família. Eram muito sedutores os olhos de Adelaide, que se mantivera interessante até idades avançadas. Dando conta de que eram
observados, os olhos se ergueram e fitaram Lucy Almeida com simpatia:

– Você não vai ao salão?
– Vou depois do almoço.
– Faça um favor a si mesma.
– Nossa, normalmente você espera um pouco antes de começar.
– Não custa nada se arrumar no seu aniversário para encontrar sua mãe. Já não basta o vexame de ter uma filha de cinquenta anos?
– Não tenho vergonha do meu cabelo branco, mamãe. Tenho orgulho. Requer muita competência para chegar aos cinquenta anos.
– Imagine a competência que passar dos setenta requer. E você nunca me viu grisalha.
– Você não vai me abalar hoje, mamãe. Eu estou feliz de verdade, não estou nem um pouco preocupada com o que pensam de mim. E, além disso, pode até ser mau envelhecer, mas a alternativa é pior.
– Envelhecer é pior do que morrer, Lucy. Sonha-se; arrisco a dizer até mesmo que se deve sonhar, divagar e especular. É nosso instinto e motor da história. Mas esta é a realidade: envelhecer é pior do que morrer, e tampouco ela, a realidade, pode ou deve ser ignorada. Qualquer um que assevere diferente está em êxtase e lhe rendo pena, porque o êxtase é maravilhoso, mas por definição finda; e se não finda é loucura, o que, pensando
bem, talvez seja boa alternativa à velhice e à morte.

Lucy Almeida se surpreendeu com a eloquência de sua mãe. Mais nova, lembrava-se bem, tais arroubos eram mais frequentes. Adelaide Amaral era talentosa na arte de pescar frases fortes de escritores malditos e parafraseá-las com sintaxes sofisticadas. No princípio era um ofício sincero, fruto de inclinações estéticas mal
resolvidas em uma juventude de modestas privações. Com o tempo, entretanto, passou a guardar sua poesia com suspense apenas para o princípio do último terço dos dinner parties ou petits rendez-vous, a fim de marcar a memória dos inimigos com admiração e inveja. Hoje, velha, desinteressada, pois segura de que tudo de relevante já sabia; cínica com o acúmulo da introspecção e das lembranças, profundamente triste e às vezes raivosa, faziam bons anos que não a ouvia falar deste modo.

– Obrigada pelas palavras ternas. Lembram-me da minha infância.- Disse, enfatizando a ênclise.
– Desculpe, Lucy. Estou movida. Não é sua culpa. Comemorei meus cinquenta anos enterrando o Artur enquanto você se divertia com o John.

Lucy Almeida sentiu até algum respeito pela capacidade da mãe de ser tão sucinta, tão sintética, tão econômica e eficiente em suas mágoas e ressentimentos.

– O que não foi tão mal, convenhamos.

Os olhos de Adelaide se tornaram leitosos, e Lucy Almeida ficou satisfeita, pois também sabia ser eficiente.

– Foi muito mal, e você sabe.
– Só depois. Ali, na hora, você ficou muito satisfeita.

Adelaide enrijeceu, e Lucy Almeida viu que havia ido além do que gostaria. Não estava ainda irritada, pois estava honestamente de bom humor. Apenas troçava, mas não estava disposta a criar uma cena. Podia ver os pensamentos se desenrolando pelas orelhas de sua mãe afora.- Deixe disso, mamãe. Desculpe, veja, não quero te magoar, não quis dizer isso, é claro que não foi bom e foi difícil, estou apenas fazendo graça, estou feliz, veja, é meu aniversário, por favor mãezinha, não fique brava. Eu te amo, vamos passar essa tarde juntas? Quer ir ao salão comigo?

Epílogo

Lucy Almeida estava quase despertando quando o telefone tocou. O barulho invadiu seu sono com estardalhaço, arrancando-a do final de um sonho. Esforçou-se para lembrar, mas as imagens escaparam. Por alguns momentos não entendeu o que estava acontecendo, uma sensação liminal, quase mística, por todo o seu corpo anestesiado. Dedilhou os lençóis, sentindo o tecido macio. Devagar sua memória acendeu, sua identidade se restabeleceu, e lembrou que hoje era seu tão aguardado aniversário de cinquenta anos. Sentiu uma alegria sincera e um certo orgulho, mas o barulho estridente continuava a chicotear seus ouvidos. Com um movimento ríspido, agarrou o telefone e o puxou para si com demasiada brutalidade, fazendo a base despencar no chão e, com isso, sair da tomada. Lucy Almeida respirou fundo e espantou a irritação. Com eficiência, virou-se de lado, estendeu a mão em direção ao fio do telefone, e o reconectou. Resolvido o problema, e satisfeita por já estarem ligando tão cedo para dar os parabéns, sentiu esperança e fez apostas secretas sobre quem seria. Esperou por alguns minutos, virada de lado, os olhos ainda semicerrados, até que sentiu os músculos cansados e abaixou o braço. Esperou mais alguns minutos e, quando o silêncio se tornou um tanto opressivo, recolheu a mão e se deitou de costas, encarando o teto.

Quando ficou claro que quem quer que a tivesse telefonado não queria incomodar e esperaria algum tempo para telefonar outra vez, Lucy Almeida se alegrou com todo o cuidado que recebia de seus entes queridos. Seu corpo estremeceu com uma ansiedade elétrica e animada. Contraiu os músculos e saltou da cama de uma só vez, inspirando fundo algumas vezes. Saltitou até o banheiro, onde escovou os dentes e lavou o rosto. Encarou-se com vigor, a pele fresca, os olhos brilhantes e esticados, os cabelos cinzentos que tanto apreciava, signos de uma vida fabulosa. Demorou-se contemplando a boca de lábios finos, motivo de inseguranças, mas que hoje lhe parecia soberba, com um viço todo especial. Espalhou um tanto de eau de toilette sobre as porções interiores de seus punhos, e cruzou a porta rumo à sala. Apanhou o maço de cigarros, que estava ao lado da bolsa sobre a mesa de centro, ainda lacrado dentro da embalagem plástica. Sentiu-se muito aliviada, porque prometera para si mesma que pararia de fumar quando fizesse cinquenta anos, e aquele maço, que comprara no dia anterior, seria o último, pelo resto de sua vida. Olhou ao seu redor e, nada encontrando de incomum, caminhou até a janela. Agarrou a cortina e a puxou para o lado com um movimento dramático, pronta para se apresentar para o dia, pronta para ser vista e celebrada. Viver requer competência. Requer coragem. Requer doçura. Olhou para baixo e viu alguns pedestres que passavam debaixo de sua janela. Lucy Almeida viu poesia em toda esta cena, no sol intenso que esquentava seu rosto, na imensidão azul do céu sem nuvens, e disse, meio para si mesma, meio para o mundo inteiro:

– Hoje é um grande dia.

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