***
O poema é um exercício de concentração, a concentração que existe em uma espera. A concentração se dá na medida em que o poema se liberta, e talvez essa seja a sua tensão primordial – originária. Áspera é uma condição da espera, ao mesmo tempo uma qualidade. Assim, essa espera não é qualquer espera – é uma espera textural. O cenário do desespero – como Cristo no Deserto, como um soldado no descampado nos instantes anteriores ao confronto. Uma espera que machuca e que imprime na paisagem sua densidade, sua gravidade. As letras não vão se perdendo, ou sendo abandonadas: vão se condensando no próprio signo, que mantém o
sentido interior do primeiro verso – que se repete e se repete na dispersão e contração, em variações que se adensam. As variações no tempo são uma mesma frase que muda mas continua a mesma, até que em um determinado momento o seu sentido aparente se transforma, mantendo o seu sentido interior.
A frase “Áspera era a espera” já é uma contração, uma “densificação” de “A espera era a espera”, uma tautologia fenomenológica que poderia ecoar as palavras do grande louco Heráclito de Éfeso: “Se não se espera, não se encontra o inesperado, sendo sem caminho de encontro nem vias de acesso”. O sentido espacial da espera é a suspensão parada, digamos, um quadrado que, conforme se movimenta, aparece em outras formas, como que se expandindo e contraindo na concentração. O penúltimo é um círculo e um triângulo, que se mantém numa concentração na última parte: A’R. Um círculo/quadrado/triângulo – as formas geométricas básicas – circular em seu sentido de movimento, triangular em sua composição numérica, e quadrangular em sua natureza espacial. No movimento de expansão e contração, o poema se concentra até se libertar pela paciência da espera – a respiração. A aspereza da experiência vai sendo transformada pelo movimento de respiração na espera, rumo à quietude. Uma travessia (Baldo atravessando o rio de canoa com o menino Diadorim) que muda conforme as camadas vão se adensando. Essa densidade da concentração é a conquista da liberdade.








