#29 Edição/cinema

Os 10 mandamentos de Werner Herzog

Publicado na edição de dezembro de 2012 da revista argentina Haciendo Cine, “Os 10 mandamentos de Werner Herzog” foram extraídos de uma masterclass que o diretor alemão deu no Rio de Janeiro, em novembro do mesmo ano.

 


 

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1. Não estudarás cinema

Os estudos sobre cinema, por desgraça, são uma doença. Se mantenham longe deles. Saiam daí o mais rápido possível. Essa forma acadêmica, puramente cerebral, intelectual, de ver os filmes… A Academia é o inimigo. A Academia acabará com todos os seus instintos vitais. Assim, tenham muito, muito cuidado. Já sabem a que me refiro: a essa conversa fiada insossa, acadêmica, sobre as imagens pós-estruturalistas, sobre o pós-modernismo, sobre a projeção sistemática de um fotograma, e o que constitui filosoficamente um fotograma… Agarrem suas coisas e corram o mais rápido que puderem.

2. Serás astuto e intuitivo

É preciso desenvolver certo grau de astúcia. Isso não se aprende em uma escola de cinema; se aprende na vida. Meu conselho é que viajem a pé. Porque o mundo se revela àqueles que viajam a pé; o mundo se faz entender. E viajar a pé quatro meses vale mais que quatro anos em uma escola de cinema. É a minha firme opinião, ainda que nunca tenha ido a uma escola de cinema.

Não há técnicas quando se trata da intuição. Não nasci com intuição; eu a fui adquirindo. Eu a fui adquirindo ao experimentar pura vida, a vida em seu estado mais cru. Ao caminhar a pé. Ao cruzar o Saara. Ao estar preso na África uma vez ou duas. Tem a ver com certas coisas fundamentais, elementares, que é preciso experimentar na vida. Ninguém as pode ensinar. E é claro, tem a ver com a poesia. Tem a ver com certo sentido da poesia. É preciso tê-la dentro, de alguma maneira, mas ler ajuda. Não deixo de dizer aos jovens diretores que eles precisam ler. Meu postulado, minha demanda, é apenas que leiam: leiam, leiam, leiam, leiam, leiam, leiam, leiam, leiam; se não lerem, nunca serão diretores.

3. Não suportarás o cinema-vérité

Me lembro que em Amsterdam, ou em Rotterdam, estive com vários documentaristas em uma mesa de debate. Todos os palestrantes falavam do cinema-verité, e que devíamos ser apenas uma mosca na parede. E não pude suportar mais, agarrei o microfone e disse: “Não, não devemos ser uma mosca na parede, não vamos ser a câmera de segurança de um banco. Temos que ser a vespa que pica”. Houve um grande alvoroço, todos começaram a murmurar contra mim. E voltei a agarrar o microfone e gritei – e olha que eram uns 400 –: “Feliz ano novo, perdedores!”.

No mundo do cinema seguem circulando as ideias do chamado cinema-verité, a ideia de que os acontecimentos constituem a verdade. Não, não é assim. Os acontecimentos são acontecimentos, mas não nos iluminam. Os acontecimentos são para os contadores. Tenho irritado muito as pessoas do cinema-verité dizendo que eles trabalham com a verdade dos contadores. Se fosse assim, o livro mais importante seria a lista telefônica de Manhattan, com 4 milhões de números, todos eles factualmente corretos. Mas isso não nos ilumina. Se os prendessem em uma cela, e essa fosse a única literatura disponível, se suicidariam. O cinema-verité é, essencialmente, uma resposta dos anos sessenta. Mas hoje, com todas essas realidades virtuais que emergiram tão rápido, o cinema e os cineastas têm que buscar novas respostas. Tento articular um “êxtase da verdade”; algo que nos ilumine, algo que vá mais além de nossa concepção corrente, normal, do mundo real. Para alcançar esse tipo de verdade (e uso o termo “verdade” com cuidado, porque nem sequer os matemáticos ou os filósofos podem nos dizer o que é a verdade), trato de encontrar um modo de acessar o mundo real que os ilumine, que faça com que ao sair do cinema saiam mais enriquecidos. Algo que não se esqueça facilmente.

4. Não consentirás com filmagens impuras

Com respeito aos limites éticos, evidente que sempre deveriam existir, em cada um de nós. Não sei quais são seus limites éticos. Mas você deve encontrá-los, tem que estabelecê-los. Por exemplo, em O Homem Urso, havia um vídeo do momento em que Timothy Threadwell e sua noiva foram comidos por um urso. A imprensa sabia disso, e se espalhou que havia uma fita de seis minutos. Entretanto, não há imagem, porque o ataque foi tão inesperado que a jovem deixou a câmera cair sem tirar a tampa, por isso só existe o áudio. O produtor, o distribuidor e a rede de televisão me disseram que eu tinha que fazer referência a isso, porque todo o mundo queria saber o que havia nessa fita. E eu lhes disse: “Sim, farei referência a isso, mas não sei se irei difundir”. Minha forma de fazer referência a isso foi me filmar de costas, olhando para a mulher que havia vivido com Threadwell, e que havia criado uma fundação com ele. Eu pus os fones de ouvido e ela podia ler no meu rosto quão terrível era o que eu estava escutando. E começou a chorar, porque viu o horror no meu rosto. Mas o meu rosto não se vê. Eu tirei os fones de ouvido e disse a ela: “Deveria destrui-la”. Não o fiz, mas estava tão chocado que disse algo muito, muito estúpido. De fato, ela guardou em um cofre de um banco. Os produtores – e todo mundo – me perguntaram o que havia na fita, e eu disse que isso não ia estar no meu filme. Era muito horrível. Existe um limite ético. E esse limite é a dignidade e a privacidade da morte de um ser humano. Se me pagassem cinco milhões de dólares para filmar uma execução, eu diria que não.

5. Santificarás tua loucura

Posso chegar muito longe para encontrar algo que nos ilumine. Há um desejo de estilização. Sou diretor, conto histórias, e vocês também deveriam fazê-lo. Nunca temam fazer loucuras. Essas são as coisas que o público recorda para sempre.

6. Não escreverás roteiros de ferro nem usarás storyboards

Eu gosto de escrever meus próprios roteiros; houve uma ou duas vezes em que não fiz isso. Escrevo o roteiro só quando vejo o filme completo. É como se o visse aqui, na tela. Escrevo o que se vê, o que se fala, como é a música, como são as paisagens. Nunca perco tempo, se não vejo o filme claramente o suficiente, não escrevo o roteiro. E quando já está suficientemente claro, escrevo em uma semana; às vezes menos. Escrevi Aguirre… em dois dias e meio, num ônibus. Estava com meu time de futebol, e todos estavam bêbados; o goleiro vomitou em cima da minha máquina de escrever, mas continuei escrevendo. Faço questão de trabalhar rápido, mas uma vez que escrevi o roteiro, normalmente leva bastante tempo até conseguir financiamento (…). E não toco mais nele, não volto a olhá-lo. Não quero que se esgote. O que faço nas filmagens é lê-lo normalmente de manhã, quando vou filmar. Leio a sequência. Em geral, conheço a história, sei em grande parte o que acontece, mas improviso. Acredito que o storyboard é um instrumento para os covardes. Não confiam na sua própria imaginação; não tem confiança o suficiente para lidar com uma situação. Nunca sei em quantas tomadas vou cortar uma sequência. Não tenho ideia.

O roteiro tem vida própria. E a filmagem, a fotografia, têm suas próprias regras. Só quando se filma em estúdio, a portas adentro, onde tudo está absolutamente organizado e sob controle, é possível seguir o roteiro ao pé da letra. Mas eu deixo a porta aberta, deixo as janelas abertas para que possa entrar qualquer coisa que me seja fascinante e que possa vir a ser parte do que estou fazendo. E graças a isso que os filmes têm mais vida.

7. Honrarás o som, a edição e a música

Às vezes, quando estou no cinema, nem sequer tenho que olhar a tela: apenas ouvindo o que acontece, em 60 segundos sei se o diretor é bom, ou muito ruim. Assim, por favor, levem a sério o som. (…) Graças ao som, um filme se torna muito, muito melhor. A textura muitas vezes vem do som. E dá pra fazer com muita facilidade: não custa muito dinheiro, não custa muito esforço, mas têm de prestar atenção e entender o mundo como se fossem cegos e só pudessem confiar no que escutam. Façam de conta que são cegos e comecem a escutar.

Vejo o material com o editor uma única vez. E enquanto olhamos, vamos parando, e escrevo à mão num diário de bordo, como os viajantes e marinheiros. E descrevo o que vai acontecendo. (…) Em minha descrição, quando alguma coisa é extraordinária, coloco um ponto de exclamação. Em casos específicos, muito especiais, coloco dois. E quando às vezes tenho um material que não sei como posso merecer, que parece um presente de Deus, ponho três. E digo ao editor: “Não importa o que você pensa: se esse material não entrar no filme, haverá vivido em vão”. E ele entende na hora. Logo, quando edito, trabalho muito, muito rápido.

8. Seguirás sua visão e não temerás

Tento ser um bom soldado do cinema. Um bom soldado tem o sentido do dever. Seu dever é seguir sua visão. Deve seguir sua visão. Se estão convencidos de sua visão, se veem algo no horizonte que ninguém mais vê, e querem compartilhar para que passe a fazer parte do sonho coletivo de todos, então têm um motivo para não ter medo. Não tenho medo de nada; essa palavra não está no meu dicionário.

9. Não chorarás no set

Não está permitido ter emoções demais; a pessoa tem que cumprir seu dever, tem que fazer o que tem que fazer. Não se chora no raio da câmera. Ninguém chora. Se alguém chorar, tem que ser o público; nunca o ator, nem o diretor, nem ninguém que está no set. Assim, delego minhas emoções aos espectadores.

10. Estarás preparado para o inesperado

Vocês têm que estar preparados para o inesperado. Isso só se consegue com experiência de vida. Talvez os religiosos tenham certa fortaleza, porque podem recorrer a um poder que está por trás e por cima deles: Deus. Mas como não sou religioso, nada tenho. Não há consolo, não há ninguém, e dinheiro nunca resolve nenhum problema. O que resolve os grandes problemas é a fé. A fé move montanhas; não o dinheiro. Tem que se pensar no impensável quando começa um filme. Pensem em tudo que possa sair mal. Em geral, quando se está fazendo um filme, tudo se sai mal. Estejam preparados.

Tradução USINA, julho 2016

 

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