#3 Edição

Cabra Marcado para Morrer: uma contextualização

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Cabra Marcado Para Morrer foi originalmente concebido, no início dos anos 60, como um filme de ficção. Finalizado apenas em 1984, é o primeiro documentário de Eduardo Coutinho. Hoje admirado por seus filmes e suas grandes contribuições na forma de fazer documentários, o cineasta era ligado, também nos anos 60, ao CPC (Centro Popular de Cultura) da UNE – em contato constante com integrantes do Cinema Novo, como seu amigo Leon Hirszman. Nessa época, Coutinho chegou a realizar três filmes de ficção – dois deles como diretor substituto. Contudo, nenhum destes trabalhos o mobilizou de verdade. Enfrentando dificuldades pela falta de dinheiro, ele acabou aceitando um emprego no programa Globo Repórter, da Rede Globo. Apesar da época e da emissora, os integrantes do Globo Repórter (entre eles Walter Lima Jr. e João Batista de Andrade), tinham uma certa liberdade de criação. Isso se deu por uma série de razões, mas, talvez, o principal motivo seja o fato de que a equipe não precisava trabalhar na sede da emissora – o que dificultava um maior controle externo sobre a produção. Os anos no Globo Repórter  foram muito importantes para Coutinho, lá ele pôde realizar seus primeiros trabalhos e ganhar experiência na linguagem documental.

Dentre suas primeiras experiências cinematográficas, Cabra Marcado Para Morrer foi a que Coutinho mais depositou energia.  A ideia era fazer uma ficção baseada em acontecimentos reais: o assassinato de João Pedro Teixeira, líder da Liga Camponesa de Sapé. O filme foi um projeto do CPC, que após sua primeira produção, Cinco Vezes Favela (1962), se desentendeu com a maioria dos cineastas do Cinema Novo (numa discussão de forma e conteúdo: enquanto para o CPC a posição ideológica era mais importante, para os engajados no projeto do Cinema Novo a preocupação estética era fundamental). Após o embate, ficou decidido que o próximo filme produzido pelo CPC seria feito por Coutinho. Contudo, Cabra Marcado Para Morrer teve suas filmagens interrompidas e a maior parte do material já produzido destruída com o golpe militar de 1964.

A idéia do filme surgiu numa viagem feita por integrantes do CPC, na qual Coutinho presenciou o enterro de João Teixeira e conversou pela primeira vez com sua mulher, Elizabeth Teixeira. Escrito o roteiro, a vontade era filmar na Paraíba, na mesma cidade de Sapé utilizando os camponeses envolvidos na história como atores, inclusive a viúva de João Pedro interpretando a si própria. Mas devido a fortes conflitos na região a locação foi remanejada para o Engenho Galiléia, em Vitória de Santo Antão – Pernambuco.

Apesar de não ser a localização original das Ligas lideradas por João Teixeira, o Engenho Galiléia era o maior símbolo das conquistas do movimento camponês. Ainda na década de 50, os camponeses da região se organizaram para lutar por melhores condições de vida. Alguns anos depois, aquela pequena sociedade se transformou nas Ligas Camponesas, uma associação com o claro objetivo de promover a reforma agrária. O exemplo da Galiléia inspirou diversas outras áreas rurais a se organizarem em torno desta causa comum. O segundo núcleo mais importante das Ligas foi o de Sapé, fundada por João Teixeira. Em 1962, quando Coutinho viajava pela região, o Engenho da Galiléia já havia sido desapropriado e as terras divididas. Esta desapropriação, acontecimento sem precedentes numa sociedade coronelista, teve repercussão em todo o país. As Ligas Camponesas estavam no centro do debate nacional.

Dentre todos os envolvidos nas filmagens, Elizabeth Teixeira era a única que tinha relação direta com os acontecimentos. Todos os outros personagens foram encenados por camponeses da Galiléia. Com apenas 40% do roteiro filmado, as gravações foram interrompidas pela Ditadura Militar. Um filme sobre um líder que lutava pela reforma agrária, com muitos camponeses atuando, sendo produzido pela UNE, com recursos do governo e filmado no estado governado por Miguel Arraes, era algo inaceitável para os militares. O exército invadiu o Engenho, os materiais da filmagem foram aprendidos, e alguns membros da equipe que não conseguiram fugir foram presos. O que sobrou foram partes dos negativos, que já tinham sido enviados para o laboratório no Rio de Janeiro. Todo este contexto é apresentado por Coutinho no que se tornou o documentário Cabra Marcado Para Morrer, de 1984.

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No final dos anos 70, com a Lei da Anistia e a abertura política se iniciando, Coutinho procurou as pessoas que participaram da gravação na década de 1960 para descobrir o que havia acontecido com elas. A insistência de Coutinho em terminar o projeto, iniciado 20 anos antes e interrompido bruscamente, prova a sua importância na própria história de vida do diretor. Agora, contudo, não era mais uma ficção carregada de ideologia e militância, mas sim um documentário, um filme sobre a história e sobre as pessoas.

Já aqui Coutinho começa a demonstrar características que marcariam sua carreira – e que seriam desenvolvidas ao longo dos anos. Poucos de seus filmes carregam esta relação com o passado, mas algo fundamental em todos eles é o depoimento das pessoas e suas vidas, seus sentimentos e opiniões, constituindo verdadeiros personagens que Coutinho, com verdadeira maestria, consegue ao mesmo tempo guiar e dar liberdade. Porém, a característica mais forte de “Cabra” tem relação com a história do cinema e a preocupação de não tratar o filme como um registro de uma única e verdadeira realidade.

A grande característica e inovação de Coutinho é a interação entre os dois lados da câmera, a construção através do processo de filmagem. Avesso a roteiros, o cineasta acredita que o filme se constrói no momento em que a câmera está ali, não para documentar uma realidade pronta, mas para filmar uma realidade sendo produzida junto com ela. É por isso que Coutinho faz questão de aparecer. Não só ele, o diretor, como parte da equipe, mas também a câmera, o microfone e outros instrumentos utilizados nas gravações. Em “Cabra”, vemos constantemente o técnico de som e Coutinho, que também passa a ser um personagem do filme. Portanto, a dicotomia realidade/ficção é constantemente superada por um princípio que privilegia as diferentes narrativa. Assim, a memória também pode ser invenção – e isso não significa que seja mentira.

Cabra Marcado Para Morrer conta a história do que seria a não-terminada ficção de 1964 e das pessoas que participaram dela. Coutinho consegue reencontrar estes personagens e exibe para os próprios as cenas inacabadas do antigo filme. Um outro personagem central apesar de implícito ao longo do filme não foi uma pessoa específica, mas sim toda a conjuntura política da época. O regime militar exerceu enorme influência sobre a vida dos retratados. A Elizabeth, por exemplo, até o encontro com Coutinho vivia clandestinamente com o pseudônimo de Marta sem poder acompanhar o crescimento da maioria dos seus filhos.

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O filme segue resgatando tais histórias, como a de João Mariano, intérprete do líder assassinado João Pedro Teixeira, mas que, apesar disso, repudia qualquer ligação com revoluções. Também de João Virgínio, que sofreu fortes torturas após ser preso pelos militares. Através de situações e opiniões diversas, Coutinho constrói seu filme com os diversos discursos e interpretações dos entrevistados.  O cineasta acaba o filme narrando a dificuldade de Elizabeth em encontrar seus outros filhos (até 1984 ela só tinha se reencontrado com 3, dos 11) e de João Virgínio, que morreu antes do filme ser finalizado.

O contexto internacional, bem como a conjuntura interna brasileira, encontram um aporte significativo neste filme.  Não só pelo evento que deu origem à idéia (a morte do líder João Teixeira), mas porque evidencia a importância que a situação assume nas diversas narrativas dos entrevistados.

A Ditadura Militar incidiu diretamente sobre o corpo, a vida e a memória destas pessoas – que, por sua vez, foram personagens ativos nesta conjuntura. Cabra Marcado Para Morrer não se alia ao discurso maniqueísta ou ao idealizador do passado. Os indivíduos passam a ser personalidades.

Além disso, ajuda a pensar nas conseqüências que o golpe de 1964 teve na vida das classes mais pobres. E, principalmente, nas classes mais pobres que eram organizadas. Os mortos da luta armada, em sua maioria letrados e de classe média, são muito lembrados. Mas a memória de diversos trabalhadores às vezes é negligenciada. Elizabeth teve que trocar de nome e ir para uma cidade de 3 000 habitantes – onde dava aulas particulares. Ela só cursou até o 2º ano do ensino primário. Os exilados políticos foram, em sua maioria, para lugares centrais do pensamento ocidental. Paris foi, talvez, o principal destino. Muitos exilados fizeram cursos, freqüentaram faculdades nos países que os abrigavam.  Não se trata de tirar o horror de toda essa situação. O exílio e a perseguição política são inaceitáveis em qualquer situação e/ou classe. Porém, é importante notar a assimetria dos percursos.

Eduardo Coutinho foi uma das principais referências cinematográficas do país. Reinventou o modo de fazer documentários.  Sem idealizações, o filme é tratado com a diversidade de discursos e a necessidade de mostrar que aquilo é um processo, uma construção recíproca – e não um conceito apriorístico e/ou reificado da verdade e da memória.

 

Estela Freire, fevereiro 2014

 

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