#16 Edição/poesia

O diálogo afetivo na poesia contemporânea

Um carinho entre “Cortejo” de Pedro Lago e “Experiência do calor” de Pedro Rocha.

“Quando um poeta em potencial descobre (ou é descoberto por) a dialética da influência, descobre a poesia como sendo ao mesmo tempo interna e externa a si mesmo, inicia um processo que só acabará quando não mais tiver poesia dentro de si (…). Influência poética no sentido – espantoso, agônico, prazeroso – de outros poetas, sentida nas profundezas do quase perfeito solipsista, o poeta potencialmente forte.”

“Pois por que os homens escrevem poemas? Para reunir tudo que resta (…)”

Harold Bloom

Minha primeira experiência com os poetas e editores do selo Lábia Gentil foi através das leituras organizadas pela Oficina Experimental de Poesia sobre/com os livros que ora me debruço a construir uma crítica. O primeiro contato artístico foi com o objeto, o livro, e em um segundo momento tivemos a oportunidade de entrevistar os dois poetas, o que nos possibilitou prestigiar suas performances e ouvir o que cada um deles tinha para dizer a respeito de suas obras – estórias, processos criativos, nomes envolvidos. Fizemos as leituras de forma coletiva, discutimos a poética, declamamos poemas e, por fim, conversamos com os autores. Ouvir Pedro Rocha e Pedro Lago era ouvir duas vozes distintas que falavam sobre cores, pessoas e acontecimentos (como a morte de Ericson Pires) que se entrecruzavam. Algo se insinuava como uma rede poderosa de afetos entremeados por situações coletivas e individuais de perda, de alegria e de dor. “A vida é o que acontece entre um gozo e outro”, nos disse (e escreveu) Pedro Lago. E Pedro Rocha escreveu (e disse): “Poesia é essencialmente voz de gente”. Os diálogos entre o poema, como realização subjetiva que abriga outros sentidos desdobráveis mas não-materializados, e as personas ficcionalizadas pelo “eu que fala” inserem o leitor nesta rede, ou teia de afetos. O afeto é tecelão e unidade mínima desta Poesia que fala do Outro, dos outros e da relação destes com este eu. Como crítica e leitora, uma vez nesta rede, não pude pensar em resenhar um Pedro sem o outro. Em se tratando dos dois livros em questão, também me pareceu fundamental falar do poeta-amigo Ericson Pires.

Pedro Rocha, carioca, nasceu em 1976 e já está no caminho poético há quase duas décadas. Suas linhas de força são a palavra falada, vivida e, por outro lado, a espacialidade e grafia do poema no espaço branco da página. Publicou Escrita de Galo (Sec XXI, 2002), Onze (Azougue, 2002), Chão Inquieto (7Letras, 2010) e A experiência do Calor – Jardim só Flor (Cartonera Caraatapa, 2012), poema-mote do livro A experiência do calor, que aqui investigamos.

Pedro Lago, carioca, nasceu em 1981. Poeta e editor, publicou os livros de poemas Corpo Aberto (Ibis Libris, 2010); Saci (Cartonera Caraatapa, 2013) e Cortejo (Lábia Gentil, 2014). Faz parte de uma geração de poetas no Rio de Janeiro que usa a palavra escrita e a palavra falada como suporte de trabalho e linguagem. É editor do selo de poesia Lábia Gentil, ao lado do poeta Pedro Rocha e da editora Anna Dantes. Pedro também explora os poemas em vídeo como suporte.

OS BEATS, O AFETO E ERICSON PIRES

Em uma entrevista sobre a música “Porque era ela, porque era eu”, Chico Buarque cita Montaigne, ensaísta francês, para explicar o título e fazer referência à consciência (progressiva, como veremos) da admiração pelo outro que gera identificação. Por que consciência progressiva? Em um primeiro momento, Montaigne escreve que gostava do amigo “porque era ele”. Anos depois, percebe que a reação química de afeto também depende de si na formulação, que ele assim descreve: “porque era ele, porque era eu”. Essa diferença na proposição do ensaísta – diferença de 15 anos –foi um intervalo de 5 meses na minha experiência pessoal entre a leitura de “Experiência do Calor” (e encontro com Pedro Rocha), em junho de 2014, e a leitura de “O cortejo”(e encontro com Pedro Lago), em novembro. Depois de participar desses dois processos pude encaixar os fatos e vislumbrar um na fala do outro, não como complementos ou sintonias gêmeas, e sim como duas vozes interligadas.

Quando enfim conheci Pedro Lago, cruzar essas duas experiências me remeteu à geração Beatnik americana da década de 50. Esta geração marcou a literatura americana com suas vivências urbanas e viagens em cenários alternativos e marginalizados, subvertendo parte da tradição moral através das drogas, do amor livre e do estilo de vida nômade e anarquista. Embora soturna e decadente, com muitas menções ao suicídio e à melancolia, há certo encantamento beat pela via do afeto, encantamento esse que inspirou um número considerável de filmes que prestam homenagem a estes escritores que se desdobraram em personagens. A descoberta do mundo (remetendo a um termo clariciano, ou drummondiano, que passa por uma experiência existencial e, em ambos casos, literária) para esses jovens é alimentada primordialmente pelos laços que os unem, pela confiança e cumplicidade depositadas nas figuras que comungam, principalmente na literatura dos conhecidos Allen Ginsberg, autor de Howl, e Jack Kerouac, autor de On the Road. Neal Cassady, amigo dos dois poetas citados, tem como obra mais importante suas cartas; no entanto, Cassady é literatura viva na poesia e na prosa, respectivamente, dos autores mencionados. Outros nomes dessa geração se encontram nas estórias e viagens que ficaram registradas em livros, como Lawrence Ferlinghetti, que publicou muitos dos beats, e William Borroughs, autor de The Naked Lunch. A maioria deles acreditava na força da poesia performática, do ritmo mental, das frases em movimento, e na liberdade poética de expressão através de qualquer tipo de imagem e recurso literário. A convivência era uma das suas prerrogativas, hábito que afetava substancialmente a literatura do Outro, e por isso passavam longas noites debatendo e trocando ideias porque acreditavam nessa conexão como ferramenta de trabalho.

Volto ao Rio de Janeiro. Quando li Experiência do calor, fiquei fascinada pela voz que podia ouvir declamando e exclamando a alegria compartilhada na praia de Ipanema:

Quando eu tinha dezesseis
e vendia salada de fruta no posto 9
dentro de uma metade de abacaxi,
o Guilherme Zarvos me fez um desafio

(…)

E o Serginho, que comia essa areia
e o Fabiano e o paulista
e o Guiga e o Leo e a Carol Parrot
e a Carol Moura e o Michel e a Tracy
e a Leca o Tamur o Alexandre Monstro
o Momo o Mike o Montanha o Dado o Cabelo
o Beto e mesmo o Ericson que não estava
(ROCHA, 2014, p. 14)

E essa alegria compartilhada também divide espaço com a dor, também vivenciada em grupo. A perda de grandes amigos (Ericson Pires e Margot Marnada) perpassa muitos poemas, como Na Rodésia 34, Margot Marnada, ou é silêncio entre os seus na “casa do Dani” no poema Experiência do Calor – Jardim Só Flor:

Que coisa estranha
sem você, na casa do Dani
dia 20/2/2012.

Estávamos todos ali,
Eu, Amora, Gabi, Pedro Lago,
Fabrício, Ralph, Daniel, Vitor,
Miguel, Leca, Omar
testando a tua ausência.
(Ibidem, p. 53)

Como na poesia beat, se entrevê uma força passional na poesia de Pedro Rocha: uma força vermelha que se reflete em poemas vindos do calor vulcânico do centro da terra. Um calor humanamente insuportável, mas de uma beleza lírica possível. Com ilustrações de Cabelo – o projeto de edição é uma criação em parceria entre poeta e artista plástico – o poema quase-homônimo (A experiência do calor – Jardim só Flor) ao livro é uma longa e bela homenagem póstuma a Ericson Pires, poeta com nome de celular, “soldado coração”, dono das ruas. Ericson Siqueira Pires, nascido na Lapa, em 1971, era um corpo em constante movimento pela cidade. Poeta, performer, ator, músico, produtor e agitador cultural, foi um dos fundadores do CEP 20.000, ao lado de Guilherme Zarvos e Ricardo Chacal e lançou os livros de poesia Cinema de garganta (Azougue, 2002) e Pele tecido (7 Letras, 2010). O poema-homenagem, que experimenta estruturas e ritmos diferentes entre si, é uma via-crúcis contemporânea que tenta jorrar em poema a morte, a dor, a perda, o luto e a relação com o corpo destituído de vida do amigo. Corpo esse que não consegue abandonar o próprio calor, chama da vida:

Não sei por que,
Quando o caixão se abriu
na capela do Catumbi
e entramos quase juntos
eu e o Julhinho,
e pus a mão na sua testa
e era quente!
Não sei porque você
guardou essa radiação!
(ROCHA, 2014, p. 70)

Seguindo as marcas afetivas dos poemas acima, no livro de Pedro Rocha tudo parece apontar para a construção de uma cartografia de afetos na cidade do Rio de Janeiro (e seus itinerários poéticos por São Paulo e outras paragens do Brasil). Os nomes citados, as avenidas, as datas precisas e o nome de Ericson Pires, que brilha como o Neal da geração beatnik, abre o livro através de seus aforismos poéticos (“O amor brilha”/”Somos sempre nós”/ “O Tecelão segue”). A morte de Ericson, assim como a morte de Neal Cassady (que virou mote cinematográfico em Versos de um crime), abriu uma fenda nas vias poético-afetivas não só de Pedro Rocha, bem como em toda uma geração de poetas contemporâneos. Sua morte vermelha na serigrafia de Experiência do Calor funciona de forma icônica para as duas forças sempre unidas dialeticamente: amor e morte, Eros e Thánatos. Dessa forma, a mesma morte abre o Cortejo de Pedro Lago, dedicado a Ericson Pires:

Sem título

As ligações vitais expressas poeticamente são cortadas pelo fio da morte, mas não desaparecem na lírica. Elas também figuram nos últimos poemas de Cortejo: são quatro elegias, dentre as quais uma dedicada ao poeta-do-agora – e este epíteto remete à epigráfe de Ericson Pires para o poema Deslumbramentos deste mesmo livro: “o corpo é a última e única estância do agora” – e uma para o seu pai, Pedro Proença de Lacerda Lago. A escritura desses poemas nos conduzem a reler a epígrafe de Harold Bloom – os homens escrevem poemas para reunir tudo o que resta. Talvez ir um pouco além: os homens escrevem poemas para reunir e eternizar, em um heroísmo nunca realizável, tudo o que resta:

Mesmo que a memória seja escassa,
A palavra permanece, o líquido evapora,
O corpo apodrece, esconde-se na areia,
No concreto lapidado com letras de bronze,
Mas a palavra, esta sim, sempre permanece.
(Ibidem, p. 81)

Ao desbravar esse mapa dos afetos, podemos vislumbrar a morte de Pedro Proença também em Pedro Rocha, no poema dedicado à dor do amigo e colega de trabalho. A dor assume nessa poética um potencial violento e tempestuoso de lirismo, assinalado na permanência verbal através dos nomes:

O que quero dizer, aos pedaços;
É que continuo chorando
Contigo, Pedro.

Que eu te entendo
Todo momento
E que por muito menos
Essa história também é minha.
(ROCHA, 2014, p 36)

A conversa poético-afetiva entre Pedro Lago e Pedro Rocha se dá também no nível editorial dos livros, que seguem a proposta de unir poesia e artes plásticas como criação coletiva. Vemos que o diálogo entre poetas, que fulgura na literatura universal não só em poemas, bem como em cartas, depoimentos, entrevistas e outros enredos biográficos, não é inédito; porém, na poética dos dois autores apresentados vira um traço de linguagem e recurso expressivo, denunciando a transitoriedade da vida e dos momentos através da fixação, no caso do livro de Pedro Rocha, em palavras e nomes e datas precisas.

As relações orgânicas entre os poetas não param em Pedro Rocha – Ericson Pires – Pedro Lago. É possível explorar e verificar o impacto lírico da morte de Ericson em outros autores, como na obra do cartunista e poeta Andre Dahmer, cujo nome é citado na longa lista de nomes “entre a gente que/ainda não/entendeu/ o que é isso” (isto é, a morte de Ericson, ibidem, p. 71) também presta sua homenagem no livro Alma anagrama de lama, cujo título foi retirado do poema dedicado ao soldado das ruas:

GAVETA

sábado carregamos
o poeta que morreu
de tanto viver

daqui do chão
ficou difícil encontrar
um céu para ericson pires

lugar de deus que não castiga
de festa que nunca termina
de foda que não acaba

puta merda caralho
sujando a cama
minha alma anagrama de lama
(DAHMER, endereço virtual)

Vemos, portanto, que essa cartografia de afetos é muito maior do que se pode imaginar, e tem o tamanho das descobertas do mundo: são tão imensuráveis quanto as redes de afeto. Por fim, vale dizer que a poesia, ontem, hoje e sempre, ainda é um ato de transgressão; uma tentativa de eternidade para com os homens já mortos, para com os que vivem mas aceitam sua morte, e para com aqueles que ainda nascerão. Poesia, segundo Sergio Cohn em uma compilação informal feita pelo Facebook no dia 10 de dezembro de 2014, (ainda) é “a fala do infalável” (Goethe), “lo impossible hecho possible” (Garcia Lorca), “a linguagem em estado de crise” (Leminski). Ficamos com o convite solar de Rocha:

um dia ainda te levo
comigo um dia ainda
te livro do limo um
dia ainda comigo te
levo um dia ainda
longe te trago perto
e fará um dia lindo
(ROCHA, 2002, p. 19)

 

Carolina Turboli, março 2015

 

…………………….

2 pensamentos sobre “O diálogo afetivo na poesia contemporânea

  1. Carolina, ótimo texto. Me lembrei ainda da canção que o Dahmer fez com o Rodrigo Amarante, chamada cometa, que é em homenagem ao Ericson. E acho bonito que um pequeno ensaio sirva pra isso, pra falar do encontro e da falta, mais do que dos poemas e da linguagem. Nesse caso acho que o Bloom foi adequado, pela sobrevivência do espectro do Ericson nesses quatro caras. E em muitos outros, sei que Guilherme Zarvos e o próprio Pedro Lago organizam um livro sobre o Ericson, entrevistando a turma toda. Em conversa o Guilherme me disse: “Eu queria algo meio quadrinhos, o Ericson voando pela cidade, com super poderes, mas o editor não gostou”

  2. Poesia contemporânea ou bosta?? Pq a poesia do Andre Dhamer parece uma poesia de uma criança de 5 anos depressiva e tabagista.

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