#16 Edição/literatura/poesia

Corpo em ruínas: a convulsão p(r)o(f)ética da palavra

Como adverte o próprio título/subtítulo, Corpo de Festim – Antropoemas, responde à necessidade de instaurar um olhar antropológico sobre a realidade humana, tanto em sua dimensão social quanto psicológica. Transcendendo a condição de mergulho catártico, os poemas de Alexandre Guarniei, a priori, sinalizam uma preocupação não apenas estética. Fundamentalmente, há uma projeção ética nesta escritura inquieta, tanto no seu desdobramento crítico-filosófico, quanto no diálogo que realiza com diversos autores, como se nota a partir da nomeação dos três capítulos que dividem a obra, numa clara referência à simbiótica relação com outras obras e o flerte conceitual com linguagens e referenciais artísticos.

Nessa nova experiência (con)textual, que remonta à experimentação de Casa das Máquinas, porém assimilando novas temáticas, Guarnieri constroi um minucioso arsenal semântico e metafórico, com sutilezas e recursos estilísticos para dissecar o corpo do poema e dele escandir as vísceras expostas do homem e a intimidade da palavra como instrumento de insurgência. Nesse tempo em que subsiste a ausência generalizada de uma consciência lírica no campo literário, essa arquitetura verbal esquarteja todo o processo criativo para fragmentá-lo, numa perfeita analogia aos processos de reconhecimento de um organismo em decomposição, na tentativa de recolher indícios de uma essência ou de uma natureza perdidas, para recuperar-lhe toda força e potência comunicativas.

A palavra-busturi, caleidoscópica e polifônica, alinhavada por um extremo rigor formal, sem contudo esvair-se por um falso hermetismo, vai desvelando nos interstícios desses universos absconsos – do ser e da arte – as fendas onde seja possível instalar a bomba detonadora que implodirá o edifício dessa máquina caótica e atormentada pelos seus próprios limites e algemas. O poema ressurge como a fênix mitológica para impor-se como (re)ação catalisadora num ambiente em que tudo parece claustrofóbico ou perdido.

Essa percepção alegórica, porém real, que o poeta tem do tempo, da vida, da morte, da afetividade perdida e dos engodos da era e da sociedade ditas civilizadas, porém afetadas pelos fetiches do mercado e massificação, constitui-se verdadeiramente numa atitude intelectual que busca no clarão multifacetado e desconcertante de cada poema a sua própria redenção, retirando-lhe as amarras dos dogmas e as algemas classificatórias. Desde a capa, extravazando seu apelo imagético, com um Houdini encenando a ritualização de uma libertação de correntes, Corpo de Festim é a metáfora desse permanente esforço, ou duelo, do indivíduo com suas origens e identidade, busca frenética para livrar-se dos minotauros nos labirintos da contemporaneidade.

Com uma visão heterodoxa que repercute um acento barroco, pela utilização de expressões de cunho científico que o aproxima das projeções sombrias de um Augusto dos Anjos; ou a expansão onírica e surreal que se familiariza com o simbolismo de um Mallarmé; e ainda, percorrendo a dor e a náusea da vigilância e punição reveberadas no veto de um Foucault, Guarnieri desmantela a dicção tradicional da poética vigente e empoeirada, não para (re)negá-la, senão para ratificar-lhe o sentido de resistência e sua relevância como espaço para subverter a ordem e organizar uma possível nova utopia. Pois é o que nos assegura a lucidez de seu percurso criativo, uma contundente resposta às nossas inquietações, como se a(s)cendesse a chama de uma nova sensibilidade, capaz de emular, entorpecer e fecundar a razão do poema.

Como em Herberto Helder, para quem “o poema faz-se contra o tempo e a carne”, em Guarnieri essa mesma “carne, que cada corte desonra”, ao sofrer a incisão e o vasculhar de sua lente reparadora, ressurge em espasmos e contorções num corpo cuja retórica perseverante e versátil celebra uma nova e apocalíptica palavra capaz de calar o festim dos vermes que tentam rapiná-lo. Pois se “o que sangra é tinta tipográfica”, e não apenas a criatura, é com aquele sangue negro que o poeta desafia e se rebela, para escrever e metabolizar “sem segredo e nenhum delírio” esse inventário-libelo e deixar a marca das verdades que nunca cicatrizam.
 

Ronaldo Cagiano, março 2015

 

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