#3 Edição/literatura

Curou

Curou.  Principalmente na batata.  É, mais ou menos.  Tem dado umas fisgadas mas por enquanto tá tudo bem.  Não, não.  Isso.  Só fui uma vez só.  Nada de incrível.  É.  Mas foi tranqüilo, o hospital que demorou um pouco, mas de resto foi tranqüilo, o doutor, é, o nome dele era Ignácio José.  Ele veio dando uns tapas pra ver se tinha fraturado, coisa de louco.  É, é sim.  Mas eu não liguei não, tava sozinha, não sei o que ele podia fazer comigo, dei até umas olhadas pra ele, meu telefone, pedi pra me ligar, não ligou, mas tudo bem, qualquer dia desses ele vem.  Aí eu coloquei um negócio meio duro e pronto.  Acabou.  Agora curou totalmente.  Não sei.  Eu não posso contar doutor, não posso.  É, prometi pro Crozinho.  É o Pedro.  É.  Não posso contar.  Ontem choveu bastante lá no meu quarto, não consegui assistir televisão, e eu ainda tive que ficar deitada, é, minha perna não deixava, até agora eu to assim, o pessoal tá sendo legal comigo, na fila pra comida eles deixam eu passar.  É que eu já to velha agora.  Mas eu já fui rica.  Todo mundo me deixava passar.  Que isso, doutor, to velha sim!  Não, não, tenho sessenta.  Quem disse pro senhor que eu tenho vinte e cinco?  Ah, eu entendi, o senhor quis me elogiar.  Fui.  Meu marido era poderoso, só que eu tinha um caso com o sócio dele, clichê, não?,  e ele sabia, sabia sim, e me batia, só que eu não podia perder o glamour, é, essa perna foi por causa dele , cheguei tarde em ca
sa, fui de fininho, mas sabia que ia apanhar, deitei na cama, e acho que ele ainda estava acordado me esperando, mas o olho estava fechado,  então eu não sabia, ele deixou eu adormecer e levantou, e me bateu, não tive tempo de reagir, mas foi assim, aí eu acabei com esse negócio da perna e tive que ir sozinha pro hospital.   Isso.  É, mas tudo bem, agora tá tudo bem.   O ruim é que agora eu não sou mais rica, não posso mais pagar as coisas, e o pessoal me dá lugar na fila porque eu sou velha.  Sou velha sim, doutor, sou sim.   Já namorei o presidente.  É sério, doutor, eu sei que você tá prendendo o riso.  Nossa, essas cortinas são bonitas, você pode pedir pra colocarem uma igual lá no meu quarto? É, só que eu quero azul.  Não gosto muito de branco, um azul bem forte,  bem forte.  Aqui tá bem decorado, eu já fui decoradora, uma das mais famosas do Brasil, aliás, foi quando eu namorei o presidente.  É.  Mais ou menos isso.  A gente se conheceu jovem, da mesma rua, isso, eu tive uma vida meio pobre, mas nós dois éramos amigos, minha mãe gostava muito dele, nunca teve muita comida lá em casa, não, mas sempre que ele vinha minha mãe arranjava um jeito de dar fartura pro menino.  Ele já era mais rico, a casa dele era a maior do meu bairro.  Meu pai era caseiro.  Claro, claro, doutor. O mundo é bem melhor quando a meninice toma conta dos olhos.  A gente se apaixonou, foi o único homem da minha vida, é que eu sou muito religiosa, sabe?, acho que deus coloca um homem só na nossa vida,  a gente é que tem obrigação de saber quem é, não é verdade? Mas então, a gente se apaixonou, ainda meninos, ele me mandava flores, escrevia bilhetinhos e tudo o mais, o pai dele também gostava de mim.  É, gostava.  Mas gostava mais da minha mãe.  Não sei por quê.  Bem, ele me deu estudo, tudo isso, e a gente tinha jurado casar, só que aí o pai dele mandou o menino lá pra europa estudar.  E eu segui minha vida, é.  Não, ia à igreja todo dia, era a beatinha, ri não doutor, é verdade, fui quase uma santa, estudei, estudei, não tinha cabeça pra nada, só pro meu amor que estava longe, aí me tornei decoradora, isso.  Quando o menino voltou já era conceituada, ele entrou pra política, depois de um tempo, quando estava de candidato pra presidente, me procurou de volta, com um pretexto pra eu decorar a casa dele, aí a gente voltou a namorar, ele foi eleito e me pediu em casamento.  Foi lindo e tal, a gente foi morar em outra cidade, todo mundo queria falar comigo.  Então teve uma noite que nós saímos pra jantar, coisa difícil pra um presidente, mas só nós dois, faltavam uns dois meses pro nosso casamento, nós comemos massa, bebemos vinho, foi tão bom, aí na saída ele não estava muito bem, mas insistiu em ir pra casa de carro, aí o senhor já sabe, em uma curva ele perdeu o controle e bateu, o air bag falhou, mas o meu foi tudo bem, ele morreu, e comigo só aconteceu esse negócio chato na perna.  A ambulância chegou e me levou pro hospital, não lembro de muita coisa, mas fui muito bem atendida, várias pessoas chegaram depois pra ver como eu estava, é claro que eu sinto saudade, doutor, claro que eu sinto,  até hoje eu lembro o nome do doutor que me atendeu, Ignácio José, foi muito atencioso, me tocou com delicadeza, foi muito bom pra mim, até hoje ele me liga pra saber como eu estou.  É.  Minha história é triste.  Mas a perna tá ficando melhor, hoje eu já consegui me levantar um pouco, apesar de fisgar um pouquinho, está tudo perfeito.   O meu dia foi bom, doutor, tomei banho de sol, o céu abriu rapidinho depois da chuva de ontem, é, fiquei impressionada, o que deus não faz?, eu estou com saudade do meu filho,  há um tempo ele não vem me visitar, ele trabalha muito, doutor, se formou engenheiro,  e virou professor, professor de faculdade, ser professor é tão bonito,  ele disse que escolheu isso por causa da mãe, eu também fui professora, só que do primário.  Os meus alunos eram lindos, cada um mais inteligente que o outro, dediquei minha vida a isso.  Meu marido foi embora por falta de atenção, me deixou com Luizinho, menino bom, deve ter sido por isso que virou professor, viveu tanto tempo só comigo.  Mas então, um dia ele chegou assim pra mim, mãe, eu quero construir prédios, então eu disse, seja engenheiro meu filho, mas ele olhou pra baixo, mas mãe, eu quero ser professor como você, aquilo me deixou muito emocionada, doutor, muito emocionada, então eu disse a ele pra ensinar as pessoas como construir prédios, Luizinho, coitado, era muito novo, não tinha pensado nessa possibilidade, e se maravilhou com a idéia, então ele sempre falava que eu era a melhor mãe do mundo e tinha ensinado tudo o que ele sabia, é, eu trabalhei muito pra dar o que eu não tive pra ele, muito mesmo, e consegui.  Ele passou pra melhor faculdade daqui, se deu bem, fez mestrado, doutorado, foi pra fora, ficou lá tempo, e eu aqui sozinha, é doutor, mas ele sempre me manda postal, carta e até vem me visitar, ele trabalha muito.  Da última vez que ele veio aqui me ver foi uma alegria só, estava acompanhando de um médico, Ignácio José, e eu corri pra abraçá-lo, mas eu tropecei num buraco e machuquei feio a perna, esse médico cuidou de mim na hora, foi bem rápido, me levou pro hospital, meu filho estava do meu lado, segurando minha mão, e eu fiquei feliz, apesar de sentir uma dor muito aguda na perna, mas tudo bem, desde então eu não vi  mais Luisinho,  e nem o doutor Ignácio José, mas eu já estou acostumada.  Vivo aqui sozinha.  Eu gosto muito de música.  Quero, um pouquinho, por favor, adoçante, dez gotas, isso, tá bom, tá bom, obrigada.  Ai.  Queimei minha língua, tá muito quente.   Eu fazia café e colocava na garrafa com açúcar, mas tive aquela diabetes que dá em velho, isso, e tive que controlar a minha alimentação.  Então, o senhor gosta de música, doutor?  É, né?  Todo mundo gosta. Deve ser divino, esses troços de terra e mar que pegam o ouvido da gente.   Meu pai colocava sempre antes de dormir.   Lembro disso até hoje.  Peguei essa mania, só durmo quando escuto música clássica, por isso que o pessoal daqui fala mal de mim.  Sempre fui apegada a essas coisas.  Arte é minha essência.  Isso.  Meu pai era empresário, dono de mídia grande, ele acreditava no meu potencial, me mandou pra fora, fui estudar música, fiquei vinte anos lá.  Experiência muito boa.  O legal é que meu pai pensava que eu era ingênua e virgem, então me deixou ficar lá o tempo necessário.  Quando estava me matriculando, um rapaz me olhou e já veio conversar comigo, era bonito, cantor, eu dei até umas olhadas pra ele, a gente ficou ali mesmo, na escada de incêndio.  É.  Esse foi o primeiro.  Eu aproveitei minha vida.  Mas tem conseqüência, eu não encontrei um amor até hoje, e nem mesmo um marido, eu sempre quis ter filho, mas acho que isso fica pra próxima vida, se ela existir, doutor, é o que dizem essas pessoas, e é no que eu acredito, mas só tem como saber quando você morre.  Ainda bem que eu to perto disso.  Me manda calar a boca não, doutor, o senhor fica falando que eu sou nova ainda só pra me chatear!  Bom, cantei em bares, fui crescendo, e comecei a cantar e tocar com muitos grandes, voltei pra cá como uma estrela da música popular, era chamada a qualquer roda de intelectuais, todos queriam saber o meu segredo, o que fazia, como eu me preparava pros shows, se eu tinha alguma crença, o que eu passava pra minha pele ficar desse jeito, tudo isso.  Era bom.  Eu gostava de ser o centro das atenções.  Depois eu comecei a fazer um espetáculo grande, pra não-sei-quantas-pessoas, aclamado pela crítica, por todos, me animei, essa coisa de fama é difícil, comecei a beber demais, tratar todo mundo mal, aí teve um dia que eu entrei bêbada no palco e caí, por isso eu tive esse negócio na perna.  É.  Isso, doutor.  Todo mundo ficou assustado, mas o atendimento foi ali mesmo, o doutor Ignácio José me atendeu, ele era meu médico particular desde criança, só confiava nele.  Pois é.  Durante os primeiros meses o pessoal me apoiou, ficavam na janela do hospital, com mensagens, um monte de coisa bacana, mas as pessoas começaram a desaparecer aos poucos, e eu fiquei sozinha no hospital.   Essa cadeira é boa, doutor, é macia, é couro de quê?  De nada? Ah, que estranho, eu gosto desse tecido, ele é bom, me faz relaxar, eu queria ter aquela cadeira que massageia, sabe qual é?,  uma vez eu usei no shopping, o senhor devia comprar uma pra cá.   Aposto que foi sua mulher que arrumou essa sala, está muito limpa.   O Pedro ia gostar de ver isso aqui, o que?, não, não, doutor, aí o senhor pergunta a ele.  Pedro gosta de limpeza, ele é meio paranóico com isso ás vezes, muito estranho, muito mesmo, mas eu gosto dele, ele sempre me tratou muito bem, foi muito legal comigo quando cheguei aqui, é, pois é.  Nós viramos amigos, grandes amigos pra falar a verdade.  Eu já o conhecia antes.  Na época da faculdade nós namoramos.  É.  O que é o destino, doutor, eu fiz, fiz sim, pública, é, o senhor pensava o quê?, fiz direito, é, sou juíza aposentada.  Fui obrigada a me aposentar, na verdade, invalidez.  É um conto muito triste,   entrei pra juíza nova,  e tentei fazer com honestidade o trabalho, mas é difícil, muito difícil, o Crozinho me apoiou pra caramba, falou que essa era a minha carreira, e tudo o mais,  só que logo depois eu acordei na cama sem ele, e o danado nunca mais deu notícia.  Pois bem, eu tentava seguir meu trabalho de acordo com meus princípios, o pessoal queria me dar dinheiro, nunca aceitei, eu rezava todo dia pra deus me dar forças, deus ou quem quer que seja, pois é, isso, não, não,  nunca aceitei. Levei até onde não dava, desviei de todas as tralhas nesse mundo, mas tem uma hora que as pernas bambeiam e essas coisas pesam mais e mais.  Foi difícil.  Sempre andei com segurança, carro blindado, todo o esquema necessário pra nada me acontecer.  Mas teve um dia que tudo isso falhou.  Eu estava voltando do julgamento, o cara era ladrão, descarado, condenei, claro, mas o bicho tinha muito dinheiro, parece que ele mandou o negócio e tal, só sei que tava saindo do fórum e tomei tiro, não sei quantos, só sei que tomei, é, aí fiquei com esse negócio na perna, eles arranjaram uma desculpa pra eu me aposentar, que eu estava com distúrbio, porque ficaram constrangidos de falar que eu estava aleijada, é, isso.  Aí eu to com esse negócio na perna até hoje, doutor, é difícil.  E eu encontrei com o danado do Crozinho quando me aposentaram, aqui nesse troço, é, meio estranho, né doutor?   O moço da faxina gosta de mim, fala sempre que eu sou muito simpática, Lúcio, acho que sim, eu o chamo de Lucinho, é, ele tem três filhas, isso, Andressa, Taís e Carolina.  Um dia desses, conversando com ele, lembrei que uma vez conheci a filha dele, é, numa boate, ela era o show da noite, isso, striper, eu também fui, mas gostava mais de ser puta, é, sem pudor nenhum.  Eu não gostava de me exibir, mas mesmo assim fazia uns showzinhos de vez em quando, é, ganhei muito dinheiro assim, dei pra muita gente grande, os ricos querem isso, doutor, querem uma piranha que dê tudo aquilo necessário.   São porcos depravados, é nojento, mas eu gostava dessa vida, eu gostava da imundice, nesse mundo eu era de todo mundo.  Desde que me pagassem. Eu não era barata não doutor, puta de luxo, era assim que me chamavam.  Mas quando se fica velha os clientes vão embora.  Comecei com quatorze anos, eu quis mesmo, nunca fui pobre não, gostava dessa depravação. Ainda gosto, mas não tenho cliente.  Tem certos abutres que só gostam de carne fresca. Toda semana pagava uma quantia prum cara lá que me protegia.  Mas quando a grana não deu, ele me expulsou da área que eu trabalhava.  Isso.  Aí eu já não fui mais puta de luxo, e dava pra qualquer um, era só pagar.  Me picava todo dia.  É.  Maconha só uma vez.  Cocaína duas ou três.   Então, um belo dia acordei no hospital com essa perna.  Até hoje só lembro o nome do doutor que me atendeu, Ignácio José, é, foi estranho, porque primeiro eu estava no público, era uma merda, doutor, uma merda, quantos dias?, no público fiquei uns dois, isso.   Depois que o doutor descobriu minha família me mandaram pra um particular, e foi o mesmo doutor, Ignácio José, eu tive de tudo nesse lugar, fiquei um tempo, depois fui mandada pra cá, ninguém mais vem me visitar, esqueceram, mas não tem problema.  Esquecimento é coisa que dá e passa.  A saudade vai explodir no coração, e eles vão vir, vão vir me ver.  E eu não ficarei mais sozinha, é. Nunca mais.  Vou levar o Pedro Crozinho junto comigo, bem juntinho.  Pra gente poder aproveitar todo o resto dessa vida.  É. Eu arranjo um emprego doutor, fujo desse mundo, é isso que eu quero.  Vou alcançar a paz.  Quando eu estiver perto do sol eu te aviso doutor.  O vento não leva ninguém, o que leva é o chão.  Ah, doutor, o senhor me perdoe, mas não sei pra que te pagam, nunca vi, médico não falar quase nada, pelo amor de Deus, me falaram que eu vinha fazer exame e não fiz porra nenhuma.  Meu pai é juiz, vou ligar pra ele, doutor, vou te processar, médio de merda, minha família tem nome, eu vou te seguir até o inferno, seu filho da puta, é isso mesmo.  Ninguém mais vai querer vir no doutor Ignácio José.  Seu canalha, nunca mais venho aqui, eu sou rica, entendeu?  Deixa só tirarem essa camisa de mim.  Eu acabo com você.  Acabo com sua vida. Não! Manda esses caras tirarem a mão de mim, seus filhos da puta, vão todos a merda, esse doutorzinho fodido, sai daí, seu canalha, o senhor vai ver, vou ligar pro meu pai, tira essa camisa de mim, porra!,  tira!, agora!, não, se você colocarem esse negócio em mim vão pagar caro!  Liga pro meu pai, por favor, fala que esse Ignácio José não fez nada, que ele está roubando dinheiro da nossa família, anda, anda, porra! Não.  Isso eu vou falar pra todo mundo! Pra todo mundo! Não coloca isso em mim. Não coloca.  Por favor.   Por favor. Pai!

João Curamonge, fevereiro 2014

 

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