#29 Edição/literatura

O que nos encosta na alma

7 ANOS

Talvez eu ainda seja aquela menina que corria pelo quintal, que falava sozinha e sonhava com um futuro tranquilo, que cantava pela casa enquanto andava descalça pelo corredor. A mesma que pulava da cama e ia direto para o seu portal da fantasia: o chão de terra batida, junto das galinhas e patos, cachorros e pés de figo. Sua maior alegria era tratar dos patinhos, dar-lhes ração e as verduras que o pai trazia do mercado. O pai foi quem lhe ensinou a amar os bichos e as plantas, e era quem zelava pelo lugar. Lá, havia também um pequeno lago, que só ela enxergava grande, perto de um limoeiro, também pequeno, que ela sonhava subir e construir uma casa da árvore. Esse seria seu novo esconderijo, pois o atual estava ameaçado pelos ouvidos e olhos curiosos de sua mãe, que ficava escondida atrás do portão improvisado com madeiras velhas, que separava o quintal da menina do resto do mundo. Esse era o paraíso, o refúgio da tímida criança de ontem que nunca soube crescer.

Ainda hoje escuto os passos, sinto o cheiro da terra, me lembro das infinitas conversas com os animais e, principalmente, de como era bom pertencer à um outro mundo. O dos inocentes e puros de coração.

CÁRCERE

Pra ela era sempre escuro, escuro lá dentro.

Sentia formigar as pontas dos dedos das mãos e dos pés, tamanho o frio. Era tudo o que conseguia realmente sentir e toda a frieza se espalhava pelos cantos e enchia seus olhos com lágrimas que secavam antes de chegar ao final do rosto sem expressão de alegria ou mínimo contentamento por ainda estar viva.

Enxergava tudo como um simples borrão a sua frente, não era mais possível encarar a realidade, mesmo que quisesse. Não da forma como um dia desejara.

Tudo era acre e intolerável e isso a distanciava ainda mais do lado de fora. Custava conseguir entender o que lhe falavam, os gestos desajeitados de carinho e as inúmeras tentativas frustradas de comunicação vindas das pessoas ao redor, os mais íntimos e ainda confiantes de que nada grave seria. Era apenas uma fase, diziam.

Uma fase. Uma dor. Uma falta de controle. Uma escassez ou excesso do sentir.
Não sabia. Não queria saber.

Assim como suas lágrimas, era incapaz de chegar ao final das coisas. Um aguardado desfecho que se mostrava a ela guardado por um monstro de incontáveis cabeças. Impossível era o que dizia a si mesma quando conseguia sofridamente pronunciar algumas poucas palavras em voz alta. O que era impossível, afinal?

Lá de dentro, a resposta era longa e definitiva:
Emitir sons que fizessem sentido, respirar com alívio, sentir prazer em acordar, pensar sem desespero, saborear os alimentos, comemorar de fato mais um ano de vida, animar-se com a farra dos netos, sair do lugar cativo do sofá, protagonizar a própria vida.

Era impossível viver, exercer sua liberdade. Seu cárcere era também sua alma.

SOBRE PINGOS DE CHUVA

Pacientemente caminhando sob a chuva fina de final de mês de fevereiro, se entregava ao sabor do chiclete que mascava devagar.

Era tudo tão cinza, tão cinza naquela manhã. Cor de sombreado, como o passado que a cercava quase sempre nos becos do bairro em que, inevitavelmente, passava e passaria enquanto estivesse morando por ali.

Aumentaram. Cada vez mais grossos e fortes, os pingos agora lavavam seu cabelo e escorriam pelo rosto. Um terrível branco na cabeça e a sensação de espera que permanecia intacta na pele.

Essa chuva cessaria? Parariam de cair sobre ela algumas das muitas provas de que alguém existe lá em cima e tudo vê? Então viria o sol?

Seu espírito ainda tinha sede. Gotas cada vez mais grossas eram necessárias. Quando criança, tinha o hábito de bebê-las freneticamente como um viajante no deserto. Agradecia de braços abertos e girava e girava…

A mãe a despertava da comunhão entre céu e inocência com os gritos nervosos, demasiadamente protetora.

Abria os olhos como se acordasse de um sonho bom. Era essa a melhor lembrança da chuva que habitava sua mente tão repleta de sonhos engavetados e vontades reprimidas.

Ainda se sentia uma criança, ainda gostava de beber água da chuva. Ainda podia girar e girar, ver cair e se molhar por dentro.

Era capaz de fazer tudo outra vez. Era capaz de confessar-se à água que caía sagrada do céu para molhar seu corpo quase sempre tão febril.

Sabia que poderia deixar escorrer o passado junto às gotas cada vez mais poderosas.

Lavaria, deixaria cicatrizar. Bastava os braços abertos de novo e o coração de menina voltaria a bater. Tudo correria com o líquido para os ralos e se perderia para sempre.

Finalmente se sentiu em paz, deixou-se então se levar com o pensamento somente no barulho da água e, fechando os olhos, girou e girou. Despertou-se com o profundo silêncio de sua alma. Tudo estava limpo. Meninas de oito anos não pecam.

TRANSIENTE

As rodas giravam e a cidade sorrindo pra ela que com os cabelos soltos e cacheados a voar, sorria de volta.

Os carros passavam depressa aumentando o vento que já existia. Ela estava onde deveria estar. Era o lugar reservado a ela.

Da praia era possível vê-la passar e as mesmas rodas giravam quase que como soltas, alegres, levemente ruidosas.

Não havia preocupação em sua cabeça que fosse capaz de tirar a sua paz. A tranquilidade como brisa batendo no rosto, a sensação de liberdade.

Iria à padaria, voltaria com os pães frescos e cheirosos na cestinha fazendo levantar o pescoço do cãozinho deitado na calçada.

Pedalava. Encantava-se com a criança a correr pelo meio fio. Sorria ainda mais.

Mostrava também os dentes à senhorinha que passava com sacolas de supermercado, ouvia o barulho das ondas, sentia o cheiro do suco da fruta e a força do sol em sua pele.

Pedalava, mas não contava com a moto, a buzina e os gritos. O branco na mente e a perda dos sentidos.

Agora era o sangue escorrendo pelos cachos e manchando o asfalto. Asfalto pintado da mesma cor de sangue. Marcado, sinalizado, permitindo o acesso dos livres, mas sem pena dos distraídos.

O QUE NOS ENCOSTA NA ALMA

Não se trata de uma crítica, isso é apenas uma espécie de carinho. Um carinho torto, eu sei, mas talvez também seja uma forma de fazer você despertar desse coma. Uma maneira de fazer com que você perceba que não há nada mais triste que vê-la chorar. Abro devagar a porta do quarto, sempre separando você do resto do mundo, e vejo, enxergo o que não quero aceitar. O olhar que nada contempla, que nada vê de poesia. Estagna, escurece. Permanece imóvel e quase que indecifrável não fosse pela tristeza que transmite. E amanheço recolhendo as partes minúsculas do próprio coração que deixei cair ao ver você aí parada. Deixar que alguém parta o seu coração é uma espécie de morte, acredito. Bem sei o que se sente quando nos vemos de mãos atadas. Sem saber como e por onde começar. E comecei, sem perceber, catando cacos, juntando lixo. Pedaços do que não quiseram.

Sinto lhe dizer, e isso não vai fazer você levantar, mas as pessoas estão pobres. Sim, estão cada vez mais pobres, minha querida. Há uma imensa dificuldade de enxergar e sentir o que encosta lá na alma, lá dentro onde é fundo e bonito demais pra entrar quando se está triste. Triste e pobre de amor. As pessoas tendem a não se deixar tocar por quase nada. Limitam-se às relações superficiais, ao que parece bonito para uma plateia cibernética que criamos todos os dias. É triste, é vazio, é um masoquismo disfarçado de combate. E pensar que seria essa a tão falada evolução humana de séculos atrás. Um ser que se mostra arredio ao toque singelo das coisas mais simples pode ser considerado evoluído. Quem disse isso a você? Alguém algum dia teria visto tudo isso? A derrota de tanta gente que nasceu pra vencer.

Eu acredito em você, pequena. Consigo entender o que você não diz. Vou abrir a janela agora, deixar a brisa fresca lá de fora entrar. Talvez ela te acaricie os cabelos, talvez ela te faça bem. O bem que eu lhe desejo e peço que encoste em tua alma e permaneça.

CANÇÃO DA ESPERA

O esperar tem o som de um violino. Uma doce e envolvente melodia do não saber evitar olhar pela janela esperando aquela pedrinha tocar o vidro.

Ele veio! era tudo o que eu queria dizer em alto e bom tom, mas a trilha sonora dos últimos dias se resume ao silêncio de fora e o barulho aqui dentro. O compasso do relógio marca as entediantes noites quando fecho os ouvidos em desilusão. Meu coração desafina e o meu canto procura as tuas notas. É quando, já quase desistindo, ouço o sereno passar de dedos pelas cordas.

O que não vem de tua boca sai pelas mãos e se espalha melodicamente no ar que respiro hoje. E assim será até a música acabar. Até que se quebrem as cordas do instrumento que tanto me fascina, até que se deixe de ouvir, que seja impossível tocar qualquer nota.

Até que fiquemos surdos para o amor.

CORPO

Estou aos pulos. Acordei num sobressalto do sonho que me absorveu e, de olhos bem abertos, direcionados ao último facho de luz presente no quarto. Me persegue o cheiro de suor e o sussurro ao pé do ouvido. Acordei e agora vejo as sobras, o olhar, o toque, mãos e pés e o prazer. Sinto como se agora estivessem a se entrelaçar. Tudo está em mim. É minha a lembrança e, por ser toda minha, guardo. Quase enlouqueço, me reviro na cama vazia, sonho. E agora, de olhos fechados, contemplo o corpo latejante e vivo. O corpo que não quer esperar, que sabe bem o que quer e se mantém em chamas como quem luta contra o frio.

Já não disponho de armaduras. O prazer se faz de guia e sublime conselheiro na irremediável doença que só traz o bem neste encontro de bocas e peles. Se há cura, desse mal não padeço, me deixo absorver e sentir a língua. Meu desejo agora é livre de fato, não me permito deixar de sentir ou calar os arrepios.

Abro os braços como quem acolhe. Os membros inferiores também abertos se elevam e me agarro aos lençóis. Nesse momento, tudo é meu e o centro do mundo encontra-se entre minhas pernas.

Camila Bertelli, junho 2016.

 

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