Guilherme Zarvos é poeta. De uma família tradicional, nasceu em São Paulo em 1957 – mas mora no Rio de Janeiro desde os dois anos de idade. Ao lado de nomes como Chacal, é fundador do CEP 20.000.
ainda não conto nada formaturva derrete meu pé o transforma em troféu vai colocar na estante de quem meu filho? acho que do papai muito mais que do vôvô mamãe. vovô não se acentua vôvô. e como você sabe mãe? porque mãe é mãe meu filho. ah que coisa obscura o teto sereno hora da poesia
Em terra firme e feitas as mudanças, demoraram semanas para organizar a mobília, tirar a poeira do novo apartamento. Passavam os dias cantando canções tristes e pensando na morte, serenamente.
Às vezes o acaso parece me pregar uma peça. Parece puxar a minha saia e me exibir despudorado. Parece me tropeçar e me deixar estendido igual roupa velha. O acaso às vezes me faz parecer ridículo. Uma profunda deselegância, inerte à qualquer resposta minha.
As Babas do Diabo é um conto de Julio Cortázar, um dos mais influentes escritores argentinos. Original e inovador, Cortázar se notabilizou por experimentar novas formas narrativas em suas obras.
EU VEJO coisas piores, eu vejo coisas sem dono, eu vejo o que tudo que há, eu vejo o que não há de ser, e eu vejo o que não há de se pensar, logo, por águas baixas eu já andei, e por cima de morro eu corri, e pelas estradas velhas os carros passaram por mim, e eu olhei pelo retrovisor e vi o meu rosto suado sofrendo com o calor, e toda a atmosfera que me rodeava estava de parada, e esteve sempre assim.
Curou. Principalmente na batata. É, mais ou menos. Tem dado umas fisgadas mas por enquanto tá tudo bem. Não, não. Isso. Só fui uma vez só. Nada de incrível. É. Mas foi tranqüilo, o hospital que demorou um pouco, mas de resto foi tranqüilo, o doutor, é, o nome dele era Ignácio José. Ele veio dando uns tapas pra ver se tinha fraturado, coisa de louco.
Já vi coisa pior, briga de gente não é nada. Vi coisa pior de lá de onde vim e lá em minha casa mesmo. Tinha dias que tinha até vidro quebrado embaixo de porta (e furava o pé, sim senhor!). Sangue e tudo mais pingando por aqui e lá. Depois vinha esfregão e rodo para lavar tudo e a casa ficava quieta de novo, como num passarinho só a piar na copa da árvore que chegava pela janela. E eram nessas horas que tudo ficava mais que calmo que ela vinha a correr para brincar de briga de novo. Mas que diabos! eu sempre acorria de ter esses desejos por ela e me enfurnava embaixo dos lençóis. Mas lá vinha ela com vidro e copo na mão, queria brincar, e queria a mim também, “mas que brincadeira é essa, minha querida?”. Tem que ter gana para brincar com aquela mulher (tem que ter amor também, mas isso já é outro negócio)..
Conto do escritor carioca ganhador do Prêmio Sesc de Literatura de 2013. João Paulo Vereza mora em São Paulo e trabalha como redator publicitário. Seus contos, de histórias leves, carregam quase sempre um tom irônico.