#5 Edição/literatura

Da leveza das âncoras

Às vezes o acaso parece me pregar uma peça. Parece puxar a minha saia e me exibir despudorado. Parece me tropeçar e me deixar estendido igual roupa velha. O acaso às vezes me faz parecer ridículo. Uma profunda deselegância, inerte à qualquer resposta minha.
– à merda as tuas vontades. Sob minha presença de nada vale teu coração fraco, e muito menos a cabeça oca.
O acaso certamente tomaria forma para me dizer isto, e das duas uma, ou apareceria como amor ou como merda de pombo, aliviada na minha cabeça. Há anos que meus cabelos cheiram a orvalho e madrugada.
Parece-me, contudo, permitido reviver o passado. Nada é passado se torno a revivê-lo nas minhas memórias. O tempo de um velho nunca é linear, pois há sempre o que se lembrar. As formas de expressão da vida, mais do que da morte, são ilimitadas. Não é a este momento puntiforme da morte que se reduz a minha humanidade. É a vida que me estende a existência. Entendam-me como processo, eternidade impossibilitada de reducionismo. Da mesma forma não me prendam a esta tola quantificação da morte! De que me importa a idade? Não vivo por anos, vivemos por estes momentos ridiculamente curtos e incompreensíveis na hora em que ocorrem. Me afastem das carapaças de exoesqueletos, da composição dos ossos e dos anéis de árvores. Independente do vigor do meu corpo sou massa caótica de vida.
A forma como sou efêmero dentro de minha própria existência é a minha forma própria de poesia. Sempre fui aliciado pelo desabafo de viver, ainda que fosse tolo. É uma poesia ofegante este viver. Independente da rigidez do meu sexo, mas às vezes com ele é mais pura, pois o amor pode acontecer de todas as formas, quantas vezes forem necessárias.
Ficção e realidade é uma coisa só. A memória pela qual lhe conto meu descompasso de senilidade não mais distingue as minhas experiências das daqueles que amo. À esse eco de solidão que deve se fazer no crânio certamente não se seguem as batidas do coração. Pois sou verme e o meu tempo é o da saudade.

Não há por onde começar. Fez-se luz, e quando o verbo da ação atravessou o vale eu morri. Enquanto eu atravessava, talvez de calça jeans, mas minha lembrança é de descalço, as sombras dos prédios, uma mão subitamente me arrancou de qualquer reflexão que eu fizesse.
“Qual é a cor?”, uma voz esverdeada, pouco madura me perguntava. A cor do quê?, a cor do sangue que escorre pelas minhas pernas. Não havia sangue e não havia como eu lhe contar aquilo. O som preso na minha garganta. O som. Ainda que eu andasse pelo vale. Ainda que as sombras dos prédios passassem a me imolar não havia como dizer.

Subitamente me vejo na praia. O tempo é estranho. A memória parece envelhecida. Era tarde: o céu violeta e o reflexo verde de um sol alaranjado, já gasto. A voz também verde me fala: que lindo pôr do sol. E ele nem se esforça, eu penso. Faltam flores, agora eu falo, faltam flores no teu vestido. Flores…, sua voz é mais contemplativa do que questionadora. Não voltei a falar. Você enfiou os pés na areia e virou o rosto para mim. O rosto, mas nunca a outra face. Senti o cheiro do seu suor, cheiro indissociável do seu gosto, gosto do corpo, aroma corporalizado. Não te desejei, mas senti saudade de estar exausto ao teu lado.
A voz parecia sofrida, mas um tanto viva: e o nome, é cedo para pensar? Quis inundar o mar, desmembrá-lo com uma sinfonia catatônica. Antônia, eu te disse. A entonação foi fraca. Antônia, você repetiu, como se Antônia já a muito fosse uma lembrança. Antônia podia bem ser uma paleta de cores já secas. Parecíamos embebidos pela maresia. Segurar a sua mão foi o último suspiro que eu poderia dar.
Mais uma vez estou descalço. O vento me incomoda, a pressão me dificulta a respiração, o que é bom, pois me faz virar o rosto a todo momento, como se negasse e me esquivasse do que não me faz parte. O tempo é vazio, é uma lembrança que pode ser inserida em qualquer momento. Como um filtro usado de café ela não me serve, mas o aroma me prende à uma existência rápida. Do que eu viraria o rosto? E porque fora bom virá-lo? Além de minha, de quem mais é essa lembrança? E qual o seu gosto?
Não haveria problema se abençoados fossem o cordeiro e o pasto e o caminho que se há de seguir. Nunca cordeiro algum sobreviverá às vias e às cruzes que nos cercam. Temi cada cruzamento, sobrecarregado pelo peso de uma história escrita à sangue e milagres, histórias que não eram minhas e que não se abriam para mim. Quem dera saber antes que o caminho nunca está pronto, mesmo que me logrem todos os ladrilhos. Hei de abraçar o acaso e ser o pastor que não quer ovelhas, mas sim fazer parte de um rebanho de pastos. Enfiar a mão e amar a terra.
Por hora tenho meus sapatos gastos. A poeira é tóxica. Tudo aquilo que se toca morre, e tudo é tocado, tudo é sentido. Todas as coisas são distúrbios num plano em que nada é ordenado. Mesmo numa orquestra não se pode prever a umidade que envelhece a corda, sábia e cansada de seu som, havendo de mudá-la.
Não era para ser. Antônia não era para ser.
Na minha casa o silêncio na vinha dos móveis. A tensão pesava tanto que as lágrimas irrompiam já quase sem o sal. Mar, quase rio. Aqui os motivos me são embaralhados. Antônia nunca fora. Penso que deixou de ser no momento em que o mar se inundara com meu desespero. O grito que não saiu era ela. Ela nunca nasceu e eu ali morri.
O caminho pela primeira vez havia parado. Me senti fechado, afogado no meio de um mar vermelho, sem ter terminado de atravessá-lo. O mar desceu e eu, contrafluxo, me vi navegando. Antônia podia ser a âncora que nos faltava. Mas tão logo fora soprada, tão logo eu fui novamente remetido à sombra de todos os prédios em que não pude entrar.
Parece que tudo aquilo que morre, morre sozinho, e o que volta a nascer é apenas lírio, conjunto de violetas e brancos e azuis acima de qualquer verde. É areia, provisória e milenar. Da lama eu sou a chuva que cai.
Este é o meu sangue, você me disse. Antônia fora o sangue e o sexo e o futuro encardidos e impressos nos batons que usamos. Se o teu sangue um dia me encostou foi lavado na chuva que fomos. Meu aroma só foi permitido em nosso quarto, sozinhos, longe das histórias, dos olhos, do santo decomposto.
Pelo vale eu navegava qual espírito sobre as águas. Se Antônia morrera ou nunca fora eu não sei, mas o caminho tornava a se fechar, cimentando meus pés ao chão. As folhas se tocarem é o de menos. São as raízes. As raízes. Navegar por entre todas as raízes e ser enfim visto. Entro em outros prédios e minhas portas estão abertas, desapropriadas. Espero andar sentindo o chão, envolvido pelo acaso. Assim de repente. Habitar o caminho e o pasto mais do que a chegada e o cordeiro, mesmo que à deriva em alto mar.

 

Ricardo Braga, abril 2014

 

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