#6 Edição/literatura

Lar

Em terra firme e feitas as mudanças, demoraram semanas para organizar a mobília, tirar a poeira do novo apartamento. Passavam os dias cantando canções tristes e pensando na morte, serenamente. O pôr-do-sol sobre a baia lhes recordavam os mil e um lugares que haviam visitado a bordo do “Alaúde” e das noites de amor que lhes haviam marcado a carne e a alma sob o efeito pendular do oceano, que ia contando as horas da vida até o dado momento. Depois de cinquenta anos de mar, o chão do continente estranhava um tanto. Era como se o pêndulo não batesse mais e as horas não passassem.

Haviam escolhido a casa na baia. A ideia de se distanciar do mar por dezenas de quilômetros lhes assustava, seria como fugir de casa. “Nada além de um horizonte nos serve”, diziam um ao outro. Os dias que se passavam eram agora contados pelas marés que dançavam com a lua como num jogo de sedução. Mas, em terra, o tempo não corria, e os anos que se seguiam não esculpiam rugas às já existentes em seus rostos curtidos e queimados de sol. Assim se seguiram as marés, e à exceção das cadeiras de balanço que eram postas em direção ao mar, a poeira se acumulava em todos os ângulos do apartamento. O movimento das cadeiras, apesar de não admitirem um ao outro, era uma tentativa frustrada de voltar às águas que lhes serviram de moradia por tanto tempo.

E quando, nas sucessivas badaladas do sino da igreja, as teias de aranha já haviam encoberto a vista da janela, de súbito, se entenderam. Mas nada foi dito.  Desceram as escadas do edifício e caminharam apressadamente pelas ruas de paralelepípedo. Só não correram para se assegurar de que não iriam cair, pois um tombo a essa idade poderia ser fatal. Sabiam que não podiam contar com a força do outro para se levantar.

Sob a luz da alvorada, quando os navios pesqueiros já haviam zarpado na escuridão da madrugada, despiram-se sob o cais e saltaram na água ainda gelada. Lá ficaram a boiar. Não é sabido o fim levou o senhor e a senhora, mas fato é que já podiam sentir a dança das ondas e o tempo voltava a passar. Em breve estariam em casa.

 

Thiago M. Lessa, maio 2014

 

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