
Dois poemas
Canta a Deusa às Musas invertidas
A cólera de Lethes, a moderna filha:
Museográfica flama, ars do passado,
Da ruína da história, um esquecimento
Da Memória.

Canta a Deusa às Musas invertidas
A cólera de Lethes, a moderna filha:
Museográfica flama, ars do passado,
Da ruína da história, um esquecimento
Da Memória.

Nada-menino, uma vez era. Nada, na medida em que passava e engrandecia, sentiu-se sozinho, quis conversar. Quis conversar, mas percebeu que ele, Nada, sozinho estava. Indagou:
– Por quê esta solidão?
Nada pensou e, ao pensar, concluiu:
– Se me chamo Nada e me sinto sozinho, procuro alguém e não acho… Creio que, outro Nada, não deve haver.

o silêncio é uma estrada e a distância cavada pelo vazio é intransponível
cada passo dado é um desvio entre frases suspensas,
traçado de fuga aberto em picadas na longa vertigem erguida pelo nada dito

pois das incertezas
teremos feito mar
e de nossos braços
jangada
uma embarcação torta
e delicada

só falaria deles em frente a todos que pudessem ouvir
pra minha sorte senhorzinho era mudo
quisesse ouvi-lo teria de olhá-lo
quisesse olhá-lo acabei por desejar surdez
mas senhorzinho enxergava que era uma beleza

o sossego do meu pai
quando, nas manhãs de
chuva ou de sol, separa
as sementes enquanto,
sentado no rio, observa
o fluir rasteiro e redondo
das águas, a voz serena
e ruidosa da água.

há sinais no sol — convulso — além da conta
na lua
tão perigosamente próxima
alucinado mar em ondas
gigantes
terra que geme e se contorce
…

Corpos onde a cidade se repete:
(depois
de derramar antigas bocas sobre outra água):
quase
elidem alguns órgãos alarmados
— em meio às ferragens —
no
casulo do calendário?
…
em meio de cipós de algodão
e feixes solares
cai nu –
no mar onde o barco
bêbado jamais navegou…