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Sonetos

abril, 2026

Soneto nº1

Ferro, te quero assim: dourado e vário
reflexo da terra, mineral. Fosso fosco,
fixo e absorto – o contrário do oco:
outro. Toscotorto, passível. Nexo árido,

esparso. Contido? Natural e unívoco:
ferro, lavra bruta. Axioma precário
da lida, pergunta. Núcleo utilitário
da poeira enxuta, lucro. O barroco

duro, a palavra cinza. Ferro: o bélico
e o cósmico da labuta, material
nulo, idioma abundante. Colérico

ferro: arcaico, espesso. Celestial
desfecho. Metamorfoseado no mérito:
fundamento – estrutura. Aço, metal.

Soneto nº2

Crepitava o escuro entre as folhas
rasteiras do pântano etéreo, dinâmico.
E da trilha escorria um frasco de bolhas
incômodo, que explodia (silêncio cômico)
e voltava ao fogo minguante, fogueira
fria – madeira que estalava mas não
aquecia. Um alguém escutou pela beira
e o céu pareceu um rompante: o trovão
histérico, imaturo. A luz, o frêmito –
o mundo era algo de novo, soturno.
O lampejo distante: susto. O ingênito
pânico. O calor irrompeu do noturno,
labareda escaldante. Mas orgulhoso,
o ladrão de centelha correu. Curioso.

 

Soneto nº3

Preso no peso: próprio, ileso – vórtice
frio no espaço teso, vazio. Órgão
disperso no tácito brio. Pulmão: cálice
moldável ao assobio, tino. Pressão.
Condição volátil, indício. Início
primevo da revolução: temperatura,
corpo em rotação. Espírito propício,
marasmo indefeso do vício. Cura?
Atmosfera, esfera invisível – gás
sobre gás no horizonte possível. Ar
preenchido. Borda. Ciso. Moldura às
avessas do ritmo. Vento, um vulto sônico:
discreto, violento – trato histriônico
do tempo. Vírus que sopra sendo: sonhar.

 

Soneto nº4

Acaso a noite terminasse insípida,
e no estupor da onda arrebentasse
a areia, e no surgir do raso – uma
caveira: só crânio e cinzas – espuma
lívida, pó poeira. E se faltasse
a sílaba na fímbria móvel, dívida
eterna e passageira: a foice tímida,

a maré cheia. E se o timbre, eufórico
volúvel, no uníssono geométrico
das vozes, até repetisse, lacônico,
o mote: ria, caveira, ria – vícios,
ossos do ofício, os risos da vida
inteira, último e primeiro indício –
única das brincadeiras. Sem saída.

 

Soneto nº5 (quase livre)
Para Carlos Drummond de Andrade

Era um vestido de domingo,
sem tecido, só vazio, que se vestia
só vestindo mas, num gesto, retraía.
Fulana punha as mãos por baixo

ou enfiava os pés por cima –
e quanto mais se arrumava,
mais Fulana se despia. Era um
vestido tão raro, de uma costura

tão fina.. Fulana chorava e chorava,
queria ver o que não via – o bordado
das mangas, o decote, a bainha. Fulana

queria ver só o que já conhecia:
o vestido, o domingo, o forro de renda fina –
e Fulana repetia, mas não é assim a vida.

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