Everywhere is war¹
– Volto para Lisboa – disse ele, tragando o cigarro com nervosismo. No primeiro momento, não acreditei. Logo depois, porém, pensei que isso era uma reação totalmente individual e normal — fugir diante de uma ameaça. Uma resposta fisiológica do corpo. Fiquei me perguntando por que eu não tinha esse impulso. Até que ponto estou acostumada, física e psicologicamente, ao perigo. Será que isso significa que eu não o reconheço? Que o menosprezo? Ou talvez seja apenas uma adaptação ao ambiente em que vivo?
Em 2022, a quinze minutos da casa da minha mãe, começou a invasão em grande escala da Ucrânia. Os sons que escuto são de aviões militares e helicópteros. Algumas vezes já me acordaram de madrugada e naquela escuridão e silêncio total, soam ainda mais claros e aterrorizantes. Durante o dia, na estrada A4, eu frequentemente passava por carretas carregando tanques, filas de veículos militares ou vans marcadas com a cruz vermelha.
No dia dez de setembro, acordei e li uma mensagem SMS que até hoje não apaguei: Atenção! Em razão da operação de neutralização de objetos que violaram a fronteira da RP², informe às autoridades sobre drones ou locais de queda. Mantenha a calma.
De manhã, nos reunimos à mesa e trocamos mensagens. Eu, meu marido brasileiro, minha irmã, o companheiro português dela, a filha deles e minha mãe. Discutimos por muito tempo o que tinha acontecido, rolando as notícias no celular. Quando N. repetiu novamente que iria voltar, eu congelei — mas não por causa do que tinha ouvido. Não estava julgando nada. Fiquei ali, meio paralisada, por quase uma hora. A situação do ataque dos drones russos tinha me deixado realmente nervosa. Ou melhor, o fato de que eu teria que reorganizar toda a minha vida e pensar na logística de fuga. E, sinceramente, eu não queria. Não tinha força. E me sentia furiosa porque alguém de fora estava roubando a minha tranquilidade.
Eu, meu marido, minha mãe, minha avó, a irmã da minha avó, a prima delas, dois carros. Antes de tudo, eu precisaria ajudá-las a arrumar as coisas mais importantes. Preparar documentos e remédios. Quando mais tarde tentei explicar tudo isso ao N., minha avó se intrometeu e disse que ela não precisava fugir, que já era velha e que aguentaria. Não consigo acreditar no que estou ouvindo. Estamos mesmo nessa situação?
– Você não tem medo? – perguntei ao meu marido. W. olhou para mim e, como sempre, aliviou a tensão com uma piada – Sou do Rio de Janeiro. Só quando começarem a cair bombas aqui eu vou achar que está na hora de evacuar. Eu ri. Mas mais nervosamente — e até me repreendi mentalmente por isso, porque não era uma forma de minimizar uma situação trágica? Ecoaram na minha cabeça frases típicas de filmes poloneses: Calma como na guerra³, e outras. Lembrei também das conversas com meu avô. – As guerras sempre foram e sempre serão – ele dizia. Isso sempre gerava discussões acaloradas entre nós. Eu o acusava de normalizar a violência e de não enxergar outras formas de resolver conflitos.

O riso em momentos difíceis e fazer piada da própria tragédia é parte tanto da mentalidade polonesa quanto da brasileira. Mas preciso especificar: polonesa e brasileira do Rio de Janeiro — cidade onde moro há seis ou sete anos. Foi lá que ouvi tiros pela primeira vez na vida. Madrugada. Um som seco. Aquele som que, depois que você ouve uma vez, nunca mais confunde com outra coisa. Ele fica gravado para sempre. Eu também já tinha visto um tanque entrando numa comunidade, passando ao lado de mães carregando sacolas de compras. As comunidades ficam nos morros do Rio. Quando começa uma “operação”, os comerciantes abaixam imediatamente as portas, as ruelas-labirinto ficam desertas. Olha-se para além da esquina com medo, sem saber o que vai aparecer: polícia armada? Um morador armado? Um jogo de vida e morte no mundo real. Comparação horrível.
– Talvez tenha sido um “parar”, e não um “congelar”? – pergunta B., olhando para mim atentamente. Analiso meu comportamento e conto a ela os detalhes. O congelamento, na verdade, senti só nas pernas. Na realidade, eu apenas fiquei em silêncio e observava. B., como psicoterapeuta Gestalt, explicar para mim, usando o exemplo dos animais, as reações que acontecem no organismo no momento do encontro com um agressor (ou seja, um estressor). O antílope ameaçado pelo ataque de um leão avalia suas forças. Ele pode fugir, lutar ou paralisar. São reações adaptativas evolutivas inatas. O organismo do antílope prepara seu corpo para a reação de “lutar ou fugir” e, para isso, libera adrenalina e noradrenalina, que aceleram os batimentos cardíacos, aumentam a pressão arterial, elevam a frequência respiratória, tensionam os músculos. No entanto, se o antílope avalia que não tem chance de fuga nem de luta, ele é capaz de entrar em estado de congelamento. Isso significa que suas funções vitais desaceleram a ponto de parecer morto. O leão não come carniça, então se afasta do animal, e o antílope “ressuscita”. Primeiro, ele se sacode, liberando a tensão acumulada no corpo, e depois foge.
B. sacode o corpo inteiro para enfatizar ainda mais a importância desse momento de “sacudir-se”, de expelir o estresse. Em seguida, acrescenta que hoje as pessoas raramente “se sacodem” do tensionamento, tanto no sentido literal quanto no figurado. E isso faz com que o ciclo da reação ao estresse não seja concluído. Após o desaparecimento da ameaça, os hormônios do estresse deveriam diminuir e nosso organismo deveria voltar ao estado de equilíbrio, mas isso só acontece quando ele recebe o sinal: estou seguro.
– O que acontece quando esse sinal não chega? – pergunta B. Viver em ameaça ou estresse crônico faz com que o organismo permaneça em constante ativação, incapaz de desacelerar, liberando cada vez mais cortisol, o chamado hormônio do estresse. – Isso pode gerar problemas de saúde – diz B., e imagino que é assim que funciona viver ao lado de uma guerra, de um conflito armado ou de qualquer outra forma de violência sobre a qual não temos controle. A ameaça constante é permanecer em estado de sobrevivência com o alarme ligado o tempo todo e isso é terrivelmente exaustivo para o corpo. Pode acontecer também o contrário, o organismo se desliga do que acontece ao redor e de si mesmo (paralisa).
A forma mais extrema de estresse é justamente o estresse provocado por um evento traumático, como por exemplo a guerra, ou quando uma situação difícil, que ultrapassa nossos recursos psicológicos e emocionais, dura muito tempo (trauma crônico). Como consequência do trauma, ocorrem mudanças fisiológicas no organismo — aumento da atividade dos hormônios do estresse. Em pessoas traumatizadas, a concentração desses hormônios permanece elevada por muito mais tempo, tem mais dificuldade de voltar ao normal e aumenta muito mais rapidamente em reação até a estímulos leves. A concentração constantemente alta dos hormônios do estresse causa problemas de memória, de concentração, irritabilidade, dificuldades para dormir, etc.
As reações mencionadas diante da ameaça (luta, fuga, congelamento) intensificam-se em nós, naturalmente, quando aquilo que vivenciamos não é apenas estressante, mas traumático. Nesse caso, a reação escolhida pelo organismo geralmente se fixa em nós como um padrão rígido e dominante de funcionamento. A luta e a fuga são reações que ainda permitem agir, gastar energia, trazem movimento e dão uma sensação de agência e controle. O oposto claro delas é a última reação, o congelamento, e essa parece ser a mais difícil para o organismo. Ela ocorre quando o cérebro decide que somos lentos demais para lutar ou fugir. Então, a melhor chance de sobrevivência é permanecer congelado até que o perigo passe ou alguém nos ajude. O congelamento, enquanto reação adaptativa, às vezes provoca um desligamento muito profundo do corpo, das emoções e dos pensamentos (é assim que acontece como consequência de uma experiência traumática). Nesses estados, é difícil dizer onde dói ou se dói, o que se sente, o que realmente se pensa. O corpo muitas vezes fica comprimido, encolhido e funcionando em modo permanente de sobrevivência. Pode acompanhar isso, por exemplo, o reflexo de apertar os dentes ou cerrar os punhos para conseguir se levantar e seguir adiante.
As emoções que podem descrever o congelamento são, por exemplo: torpor, inércia, desconexão, paralisia, peso, indiferença, anestesia, etc. É como se a pessoa estivesse ao lado de si mesma. Tudo isso para não entrar em contato com aquilo que dói ou assusta, porque isso é além das forças. Mesmo que a mente aprenda a ignorar os sinais da parte emocional do cérebro, os alarmes continuam chegando, e os hormônios do estresse continuam circulando no sangue. É verdade que sentimentos pesados podem ser abafados ou bloqueados com álcool, remédios ou outras substâncias, mas o corpo registra tudo meticulosamente. B. chama a atenção para o fato de que nosso sistema nervoso, em situação de tensão, aciona instintivamente os modos de reação que praticou por anos, aqueles para os quais tinha recursos e que eram possíveis no ambiente em que vivíamos. Adaptamo-nos, portanto, da melhor forma que conseguimos à situação difícil. Muitos desses padrões rígidos de reação, inclusive o congelamento profundo, puderam ser observados não só nas histórias das pessoas que vivenciaram traumas de guerra, mas também em seus descendentes.
B. pega o livro Ecos. Filhos de prisioneiros dos campos de concentração alemães⁴ (tradução própria), de Maria Buko. No posfácio, a psicóloga Katarzyna Schier escreve o quanto somos uma sociedade traumatizada. Os pais não elaboraram os traumas da guerra, muitas vezes silenciavam sobre ela, sobre o que viveram, tentando desse modo esquecer o sofrimento, livrar-se das lembranças, desligar-se da dor, congelá-la dentro de si — e, ao mesmo tempo, revivê-la internamente. Isso desviava a atenção deles da vida presente; não conseguiam lidar com o cotidiano nem com a criação dos filhos, porque não conseguiam estar presentes, vivos, nessa vida. A ausência dessas gerações vinha do fato de não quererem falar, sentir, relembrar — e, com isso, guardavam dentro de si tudo o que tinham vivido, em uma espécie de “cápsula”. O que esconderam ali não desaparecia, não diminuía, apenas governava suas vidas a partir desse lugar. Traumas não acolhidos os puxavam constantemente de volta ao passado, e eles permaneciam presos lá.
Na terapia Gestalt, diz-se que situações inacabadas do passado, acompanhadas de emoções que não foram expressas, vividas nem liberadas, perturbam nossa consciência voltada para o presente e nosso contato autêntico com o Outro⁵. É possível perceber isso nas histórias contadas no livro de Maria Buko. Os pais das crianças marcadas pela dor da guerra lidaram com ela congelando-a e trancando-a dentro de si. Naquele tempo, nas condições e com os recursos psicológicos e emocionais que possuíam, cuidar dessas feridas talvez fosse impossível. Isso, porém, não muda o fato de que as consequências dos traumas não elaborados dos avós e dos pais influenciam as gerações seguintes. – Eu, você, – diz B. – somos praticamente a primeira geração que pode olhar para esses traumas e enfrentá-los.
Ouço-a com atenção e penso em quanto tempo dura o curar das feridas depois de uma guerra. Quando falamos da Segunda Guerra Mundial, nos inclinamos conscientemente sobre aquilo que aconteceu oitenta anos atrás. Em silêncio me pergunto se existe algum curso intensivo, porque a guerra está logo ali na Ucrânia, Israel ataca Gaza, Irã, os EUA ameaçam a Venezuela. Daqui a uma semana volto para o Rio de Janeiro. Lá não se usa a palavra “guerra”; diz-se operação, conflito, acerto de contas. Não é preciso morar nos morros das favelas para pensar em estratégias de deslocamento seguro pela cidade. Dizem que o Rio não é para amadores. Será que isso significa que eu “me encontro” lá porque meus ancestrais me equiparam para lidar com o perigo? Não sei, me perco nisso. Alguém poderia perguntar para que pensar em Gaza, Irã ou outro lugar distante. No nosso mundo hoje “encolhido” pela internet e pelas viagens, temos amigos, conhecidos ou família fora do país em que nascemos.
No fim, B. lembra um provérbio árabe: o que você enterrar no seu jardim crescerá no jardim do seu filho (segundo Granjon). Concordamos que talvez quem desenterre seja somente a neta ou neto. A mãe de B. mora ainda mais perto da fronteira com a Ucrânia do que a minha. Pergunto, no entanto, sobre a irmã dela, que vive em Jerusalém com o marido e a filha. Escrevo para A., perguntando se ela gostaria de compartilhar comigo o que sente morando na Palestina, ao lado da Faixa de Gaza. Recebo algumas mensagens de voz. Abro e fecho o WhatsApp várias vezes até finalmente decidir ouvi-las.
A voz de A. é suave, algumas frases ficam suspensas, ouço pausas, um silêncio onde a voz paira. Sinto a dificuldade dela em descrever a complexa situação do Estado Palestino. Ela começa devagar, talvez ainda pensando como escolher as palavras. Primeiro fala da tristeza, que recentemente tomou o lugar do luto. Quando pergunto como é viver perto de uma guerra, ela responde que imediatamente acendeu uma luz vermelha para ela quanto à palavra “guerra”. No contexto da Palestina e da Faixa de Gaza, fala-se de uma ocupação que dura cerca de oitenta anos, e também de apartheid, discriminação, colonialismo de assentamento.
Existem muitos termos e, na verdade, há debates sobre como exatamente nomear a crueldade do sistema em que vivem. Gaza é indescritível: há dois anos vive, provavelmente, um dos genocídios mais documentados da história mundial. Em Jerusalém, onde eu moro, a violência é com maior frequência simbólica. Claro, existe também violência direta, mas sobretudo há inúmeras restrições muito distantes dos padrões democráticos. Acredita-se que o Estado de Israel respeite esses padrões — e de fato respeita, mas somente em relação àqueles cidadãos que podem provar que são judeus ou que vêm da Europa.
A. volta ao que sente. Enumera tristeza, raiva e frustração. Outra vez ouço o silêncio. Depois de um momento, fala também de uma enorme gratidão por estar segura, por ter um lar feliz, uma família amorosa palestina e polonesa.
E eu sei, afinal, que a Polônia também está hoje ao lado de uma guerra, agressão e ocupação. Tento me conter diante de simplificações e comparações, porque não é sobre isso. Essas guerras e “guerrinhas” — claro que uma multidão de pessoas sofrerá com elas — dói em mim porque vejo nelas a manifestação de um desenvolvimento mais profundo e trágico para o qual a humanidade foi conduzida. Refiro-me à cultura europeia e ocidental construída sobre uma teoria profundamente racista, a de que há melhores e “melhorzinhos”. Isso é o que mais me dói, e tenho dentro de mim uma grande incompreensão. Sempre que tento entender o que está acontecendo aqui, como é possível viver aqui, o que querem os palestinos, por que eles não “desistem”?
A. novamente deixa a voz suspensa. Então, diz:
Eles poderiam desistir. Mas como se desiste da própria vida? Isso não é uma simples mudança, emigração ou viagem. Ali, ocorre uma limpeza étnica em tempo real. E viver ao lado disso é — ou foi, até certo ponto, como me parecia — devastador. Neste momento, há mais uma fé tranquila de que tudo isso precisa ter algum sentido. Afinal, esse enorme sofrimento que foi infligido e que nós infligimos, como mundo — porque traímos a Palestina enquanto mundo. Morando entre palestinos, entendo perfeitamente a frustração deles, porque eu mesma me sinto decepcionada pelo próprio governo — e, na verdade, por todos os governos. Mas há também uma linda onda de solidariedade, que dá força a muitas pessoas. Ela me fortalece profundamente e traz momentos de luz e clareza. Penso então que alguém vê esse sofrimento. Ser visto é uma das experiências humanas mais desejadas.
Na última mensagem, A. fala sobre um sentimento de dor imensa. Ela não interrompe frases, não deixa o silêncio que me inquieta. Fala devagar e com firmeza:
Moro com a minha família a cinquenta quilômetros do lugar onde ocorre uma limpeza étnica. Parece que todos os possíveis crimes contra a humanidade codificados no direito internacional estão sendo testados aqui — infelizmente, em pessoas vivas. Isso é motivo de uma dor impossível de explicar, que todos nós sentimos. Acho que as palavras estão começando a perder a capacidade de conter tudo isso. Tenho vontade de fugir para grandes metáforas, para causas profundas, para as raízes do porquê isso acontece e do que realmente está acontecendo. E isso continua me tirando o sono. É tudo muito esmagador, sufocante.
Ouço o cansaço na voz dela. A frase seguinte ela diz como se estivesse enfiando palavras — miçangas — num fio invisível.
Às vezes penso que, na Palestina, a melhor forma de cuidar de si mesma é fumar cigarros ou narguilé. Inspirar e expirar algo regularmente, algo que envenena seu corpo, ainda é menos nocivo, entre aspas, do que se confrontar cruamente — sem nenhuma substância tóxica — com a realidade.
Essa é a última mensagem gravada por A. Na Polônia são 9h04; na Palestina, 10h04.
N. não foi embora. Apesar de ter havido outra noite em que ele acordou com o som de aviões e saiu correndo sozinho para a rua para ver o que estava acontecendo. Em casa todos dormiam. De manhã, como sempre, nos encontramos para o café e N. nos contou sobre o medo que não o deixou voltar a dormir. Ele ficou de vigília. N. monta seu livro sentado à mesa da casa da minha mãe, não muito longe da fronteira com a Ucrânia. Seu foto-livro autoral é composto por fotos feitas durante sua residência artística em Donetsk, Kiev, Simferopol e na Crimeia. Vejo a capa com o título “Mar negro”, “Morze czarne”. Digo a ele que esse título me faz lembrar os solos pretos da Ucrânia, e as linhas onduladas e violetas me fazem pensar na paisagem ucraniana já longe de Lviv, na direção de Kamianets-Podilskyi. O cotidiano dos moradores em 2011 e 2012 visto pelos olhos de N., fotógrafo português. Penso nas praias pedregosas do Mar Negro, um pouco parecidas com as de Portugal.
Em outubro, conheço em Lisboa um casal amigo de N. e da minha irmã, que fugiu de Donetsk passando por Kiev até chegar a Lisboa. Sentamos em um antigo bairro de operários portugueses e olhamos para os prédios renovados. E. conta sobre sua estadia na Colômbia. Conversou com um colega sobre vídeos que viu na internet. Eles a assustaram e chocaram profundamente. Jovens colonos israelenses batendo com cassetetes em palestinos mais velhos. F., nascido e morador da Colômbia, escuta atentamente e comenta que talvez esteja mais acostumado a imagens de violência. O silêncio entre mim e E. é cortante, olhamos uma para a outra. Finalmente, nosso silêncio é interrompido pelo som de uma mensagem. É do marido de A. Uma voz firme começa a falar em inglês. Lamento imediatamente não saber árabe. Existem nuances que expressamos muito melhor em nossa língua materna.
Ele começa respondendo à pergunta que enviei: Como é viver em Jerusalém quando em Gaza ocorre um genocídio?
Primeiro, eu diria que, sabe, a distância — perto ou longe — acho que para mim não faz tanta diferença. Pelas redes sociais e pela TV ao vivo vemos tudo todos os dias. Então, estando nos EUA, na China ou em Jerusalém, você pode ver o que está acontecendo. O que torna tudo mais difícil e um pouco frustrante é o fato de que você não pode fazer nada. Viver em Jerusalém não é fácil. Estamos sob lei de estado de emergência desde 1967 até hoje. E se devo dizer que a ocupação israelense foi bem-sucedida em algo no que diz respeito aos palestinos, foi em nos dividir em diferentes comunidades, com base em privilégios ou coisas que eram dadas apenas para alguns de nós. Talvez seja errado usar a palavra ‘privilégio’ no contexto dos palestinos. Mas não sei, ainda assim… é difícil. Jerusalém é uma cidade muito exigente. A ocupação não facilita nada. Pelo contrário, eles te empurram o tempo todo para que você se sinta completamente inseguro, frustrado, com raiva. Talvez essa raiva esteja agora, cada vez mais, especialmente depois do que está acontecendo em Gaza, voltando-se para a comunidade internacional e para o direito internacional, e para toda essa ‘m****’ que começamos a ver como algo incapaz de fazer qualquer coisa diante de Israel. Qual é, então, o sentido do direito internacional se ele não pode fazer nada? Então, viver e acordar em Jerusalém em todas essas circunstâncias, sob toda a pressão da ocupação, mas ainda assim acordar na sua casa, na sua própria cama, te faz sentir por um momento que você tem um privilégio em comparação com os moradores de Gaza. Você sente — e isso é muito triste — que poder dormir, ter um bom lugar para dormir e comida, se tornou neste país um privilégio para um palestino. Sabemos disso ‘por dentro’ e acreditamos — como a maioria dos palestinos, de Jerusalém, da Cisjordânia ou daqueles de 1948 — que a nossa vez chegará.
Aperto o botão de pausa. Inspiro. Expiro. Olho para o céu, para longe. Tento imaginar onde exatamente estão agora Y., A. e a filha deles de quatro anos.
Nosso povo está vivendo um genocídio em Gaza. Nossas famílias estão lá. Então, o que os impediria de fazer o mesmo na Cisjordânia? E isso já está acontecendo em Jenin, em Nablus e em Tulkarem. Vão terminar com Gaza, terminar com a Cisjordânia e depois começar a fazer isso em Jerusalém — e ninguém vai impedi-los. É um assunto muito triste, porque ultimamente, como moradores de Jerusalém, falamos literalmente sobre quando chegará a nossa vez. Vivemos apenas para sobreviver e já faz quase dois anos que discutimos quando eles vão acabar com Gaza e vir atrás de nós. E o que é ainda mais frustrante é que não podemos fazer nada.
Agora Y. faz uma pequena pausa. Sinto como é difícil para ele falar sobre isso. – Não sei – repete várias vezes. Eu também não sei, Y., gostaria de responder a ele.
Se você tentar fazer qualquer coisa — por exemplo, um único post no Facebook pode terminar com você na prisão. Se levantar a bandeira palestina, você é terrorista, acabou. E se disser uma palavra para a mídia, sua vida termina ali. Este ano percebi algo incomum em relação ao genocídio em Gaza. Normalmente, durante guerras anteriores, havia muitas pessoas de Jerusalém falando sobre o que estava acontecendo. Desta vez, acho que o menor número de pessoas que se manifestaram foram os moradores de Jerusalém, e isso porque todos os que falaram estão presos. Viver em constante sensação de insegurança não é fácil. Faz com que você esteja sempre tenso e estressado. Você se sente culpado quando tem um momento de prazer, ou quando come, ou quando brinca com seus filhos. Sente culpa por fazer coisas normais, cotidianas, que qualquer ser humano deveria poder fazer. Há momentos em que a vida te absorve, você se envolve no que está fazendo e esquece por algumas horas e então olha para o telefone ou para a TV e vê as notícias de Gaza, o número de crianças que morrem todos os dias. Você se culpa por ter esquecido de tudo aquilo por uma hora ou duas. No geral, não é fácil para nenhum palestino, não apenas em Jerusalém. Na Cisjordânia, depois que “amoleceram” um pouco Gaza, começaram um novo genocídio em Jenin e Tulkarem. E eles matam todos os dias, literalmente todos os dias. Na Cisjordânia há pelo menos três a quatro vítimas por dia. É simplesmente uma limpeza étnica silenciosa. Um genocídio lento, não como em Gaza, que foi — como eles chamam — rápido e “eficiente”. E ele não começou em Gaza há dois anos; vem acontecendo desde 1948 até hoje. Aconteceu por etapas. Às vezes rápido e “eficiente”, e depois eles precisavam desacelerar. Então fazem tudo em um ritmo muito lento, sabe? Por isso as limpezas étnicas nunca terminaram. O tipo de frustração e raiva que cresce em muitos palestinos nem surge apenas do último genocídio em Gaza. Isso só o tornou mais evidente, mais visível. A mídia e o mundo precisaram de mais de 50 mil mortos, mais de 20 mil crianças, para mudar “um pouco” a narrativa. E não estamos falando de uma mudança completa. Não, não, não. Só “atingir” aquele número de vítimas permitiu que começassem a chamar aquilo de genocídio. E às vezes é muito triste que para alguns palestinos essa “pequena” mudança na narrativa da grande mídia dos EUA e da Europa já pareça suficiente. Só que ela não é tão significativa assim. Ainda há muitos meios de comunicação que não conseguem chamar o que está acontecendo de extermínio. Não sei…Em Jerusalém, sentimos na maior parte do tempo que estamos presos, inseguros, cheios de raiva e frustração.
Y. volta ao sentimento de culpa, que é onipresente. Ele é acompanhado por um constante remorso de não estar fazendo o suficiente. – Às vezes você sente isso no próprio clima da cidade. Sinto que somos como ovelhas esperando o abate, só isso – diz ele. Parece que precisa continuar falando.
No fim das contas, os colonizadores, os antigos e, na verdade, os mesmos, porque são as mesmas potências coloniais do mundo: EUA, França, Alemanha, Inglaterra nunca ficarão do lado dos palestinos, e sabemos disso ‘por dentro’. Eles construíram toda a sua riqueza no colonialismo, e Israel é um novo projeto de colonialismo de assentamento que eles financiam. França, Alemanha ou outros países não deixaram de ser colonizadores — continuam sendo, só mudaram a forma. A única forma militar de colonialismo e de colonialismo de assentamento ainda existente é Israel — e eles não podem deixar de financiá-lo. É simples. Esse é o modo de pensar deles. É assim que a supremacia branca funciona no mundo, sabe? E no fim Gaza mostrou o que significa supremacia branca. Quando falávamos disso, de controle, e do fato de o direito internacional ter sido criado apenas para proteger as pessoas brancas, nos chamavam de teóricos da conspiração. Também nos chamavam de mentalmente instáveis por dizermos isso — e o preço, como sempre, foi muito alto para que o mundo entendesse o que está acontecendo hoje. É isso.
À noite recebo um e-mail da A. Abro. No anexo vejo cores intensas. Vermelho e violeta.

Te envio fotos do quadro que minha amiga está pintando. Ele expressa simbolicamente aquilo que eu e Y. dizemos. Escolhi dois elementos que simbolizam a Palestina — o palestinian sunbird (nectarinia), que aqui é como nosso ‘pardalzinho’ e que para mim é um lembrete de beleza e resistência; esse pássaro visita uma das flores que temos perto de casa e sempre que o vejo sinto alegria. O segundo é a melancia, símbolo da Palestina e da profundidade com que valores como liberdade estão enraizados na identidade palestina. Para mim, esses momentos, apesar da tensão, tristeza, dor e raiva, são momentos de beleza que trazem força, resistência e permitem encontrar chão e sentido em todo esse absurdo da guerra e da ocupação enquanto resultado de um projeto colonial. A criação — de qualquer tipo — e o engajamento social existem no nível pessoal, familiar, comunitário e preenchem o vazio deixado pela falta de cuidado do Estado e da comunidade internacional, que deveria proteger o direito das pessoas à vida. Abraços, A.
Volto para a Polônia. No caminho para casa passamos ao lado de uma fábrica. – Olha, – diz minha mãe – como está arrumada agora, tudo renovado. Olho para ela surpresa. – Você disse que, pelo que se ouve, produzem munição para tanques – lembro a ela. – É guerra, o dinheiro corre – digo amargamente. Minha mãe suspira. – É verdade, é terrível.
Seguimos em silêncio. Antes de virarmos na nossa rua, passamos por uma floresta. Se eu entrar nela, será que ainda ouvirei a oração de Ch., cantada em hebraico e aramaico? Será que suas palavras, impregnadas de vontade de viver, ainda se escondem entre pinhas, bolotas, nos caminhos marcados por passos?
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- O mundo inteiro está em guerra, fragmento da música War, 1976, Bob Marley, 1992, Sinead O’Connor. As letras são quase inteiramente derivadas de um discurso proferido pelo imperador etíope Haile Selassie I na Décima Oitava Sessão da Assembleia Geral da ONU em 4 de outubro de 1936. O discurso lembrava aquele que ele havia feito em 1936 à Liga das Nações. No ano anterior, 1935, dois anos após a ascensão de Hitler ao poder, a Etiópia havia sido invadida pela Itália e ele vivia então no exílio.
- Republica de Polonia.
- C.K. Dezerterzy, filme de comedia, dir. J. Majewski, Polonia, 1986.
- Pogłosy. Dzieci więźniów niemieckich obozów koncentracyjnych, M. Buko, Warszawa, 2020.
- Segundo G. Francesetti, M. Gecele, J.Roubal.