#27 Edição/poesia/tradução

O que os vivos fazem

Jão, a pia da cozinha tá entupida há dias, algum talher deve ter caído lá dentro.
E o dreno não funciona mas fede, e a louça imunda se empilhou

esperando pelo encanador que eu ainda não chamei. Esse é o dia a dia de que falávamos.
É inverno de novo: o céu num azul profundo, obstinado, e a luz do sol invade

as janelas abertas da sala, porque o aquecedor tá muito forte e eu não consigo desligar.
Faz semanas, dirigindo, deixando cair as compras na rua, a sacola arrebentando,

eu tenho pensado: É isso que os vivos fazem. E ontem, correndo pelos ladrilhos
soltos nas calçadas do Centro, derrubando meu café pelo pulso, pela manga,

eu pensei de novo, e de novo depois, comprando uma escova de cabelo: É isso.
Estacionando. Batendo com força a porta do carro no frio. Aquilo que você chamou de anseio.

Aquilo de que você finalmente desistiu. A gente quer que a primavera venha e o inverno vá. A gente quer
que alguém ligue ou não ligue, uma mensagem, um beijo – a gente quer mais e mais e ainda mais disso.

Mas tem essas horas, caminhando, em que eu capto um vislumbre de mim mesma na vitrine, digamos, a vitrine da antiga locadora, e sou tomada por um carinho tão profundo

pelo balanço do meu próprio cabelo, meu rosto ressecado e meu casaco aberto que já nem tenho palavras:
Estou viva. Me lembro de ti.


 

WHAT THE LIVING DO
(Marie Howe)

Johnny, the kitchen sink has been clogged for days, some utensil probably fell down there.
And the Drano won’t work but smells dangerous, and the crusty dishes have piled up

waiting for the plumber I still haven’t called. This is the everyday we spoke of.
It’s winter again: the sky’s a deep, headstrong blue, and the sunlight pours through

the open living-room windows because the heat’s on too high in here and I can’t turn it off.
For weeks now, driving, or dropping a bag of groceries in the street, the bag breaking,

I’ve been thinking: This is what the living do. And yesterday, hurrying along those
wobbly bricks in the Cambridge sidewalk, spilling my coffee down my wrist and sleeve,

I thought it again, and again later, when buying a hairbrush: This is it.
Parking. Slamming the car door shut in the cold. What you called that yearning.

What you finally gave up. We want the spring to come and the winter to pass. We want
whoever to call or not call, a letter, a kiss—we want more and more and then more of it.

But there are moments, walking, when I catch a glimpse of myself in the window glass,
say, the window of the corner video store, and I’m gripped by a cherishing so deep

for my own blowing hair, chapped face, and unbuttoned coat that I’m speechless:
I am living. I remember you.

 

Poema de Marie Howe,
tradução de Thiago Gallego, março 2016

 

…………………….

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