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O BICHO

O BICHO

por Edimilson de Almeida Pereira

 

Rastreio a palavra para não cair do cavalo.
Não estou entre os que se refugiaram
em ítaca, curvelo ou tombuctu: há muito
a floresta de signos foi incendiada
e se abriu à escrita do corpo. O passado
está salvo, mas não salva a hora presente.
O bicho, Bandeira, quer dizer, o homem
que alimentou seu poema, ainda nutre
o meu com a sua fome. A poesia se repete
ou a mão que ajuda não cresce? Rastreio
para não trair a palavra do meu tempo.

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De grossos muros

XX

por Hilda Hilst

 

De grossos muros, de folhas machucadas
É que caminham as gentes pelas ruas.
De dolorido sumo e de duras frentes
É que são feitas as caras. Ai, Tempo

Entardecido de sons que não compreendo.
Olhares que se fazem bofetadas, passos
Cavados, fundos, vindos de um alto poço
De um sinistro Nada. E bocas tortuosas

Sem palavras.

E o que há de ser da minha boca de inventos
Neste entardecer. E do ouro que sai
Da garganta dos loucos, o que há de ser?

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Eu-Mulher

Eu-Mulher

por Conceição Evaristo

 

Uma gota de leite
me escorre entre os seios.
Uma mancha de sangue
me enfeita entre as pernas.
Meia palavra mordida
me foge da boca.
Vagos desejos insinuam esperanças.

Eu-mulher em rios vermelhos
inauguro a vida.
Em baixa voz
violento os tímpanos do mundo.
Antevejo.
Antecipo.
Antes-vivo

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Tarefa

Tarefa

por Geir Campos

 

Morder o fruto amargo e não cuspir
mas avisar aos outros quanto é amargo,
cumprir o trato injusto e não falhar
mas avisar aos outros quanto é injusto,
sofrer o esquema falso e não ceder
mas avisar aos outros quanto é falso;
dizer também que são coisas mutáveis…
E quando em muitos a noção pulsar
— do amargo e injusto e falso por mudar —
então confiar à gente exausta o plano
de um mundo novo e muito mais humano.

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Tom Zé – Senhor Cidadão
instantâneos / música

Tom Zé – Senhor Cidadão

Senhor Cidadão

Música de Tom Zé

Senhor Cidadão é uma música de Tom Zé lançada originalmente no álbum Tom Zé de 1972, que depois foi relançado em 1984 com o nome de Se o Caso é Chorar. A música começa com Augusto de Campos declamando seu poema “Cidade City Cité”. Enquanto Campos trata da cidade através de suas mais diversas características, Tom Zé parte da figura do cidadão e seu instinto competitivo.

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