#24 Edição/cinema

Encarnado

 

Encarnado foi realizado em 24 horas no apartamento do EXA (Espaço Experimental de Arte) em Belo Horizonte, para ser exibido no dia seguinte no mesmo lugar dentro do quadro da exposição Dia-Mundo (curadoria e projeto de Rodrigo Brum). Trata-se de um vídeo sobre o tédio como gerador de pequenas alucinações quotidianas, onde objetos banais (um ventilador, uma televisão, um brinquedo) se transformam em seres aterrorizantes.

Câmera e produção : Rodrigo Brum e EXA (Espaço Experimental de Arte/Belo Horizonte).
Agradecimentos : Lucas Kröeff e João Perdigão.


Encarnado é um condensado de pensamentos e imagens díspares em um único nó.

Serguei Paradjanov costumava dizer que só filmava o que antes tivesse sonhado. Não só anotava os seus sonhos, como tinha uma espécie de método para sonhar. Antes de dormir se esforçava para lembrar detalhadamente de todas as cenas do filme roteirizado durante o dia. Se sonhasse com o filme, no dia seguinte anotava as alterações de cada cena de acordo com sonhos. De alguma forma, imaginar um filme é sonhar acordado (daydreaming). O método de Paradjanov consistia em inserir o daydreaming no nightdreaming. De maneira que só depois que suas imagens mentais tivessem passado por todo um percurso, entre o sonhar acordado e o sonho paradoxal, é que o cineasta estaria pronto para filmá-las.

Com Encarnado aconteceu algo assim. O vídeo é baseado num pesadelo autoinduzido na manhã do dia 15 de março de 2014. ​M​eio dormido, meio acordado, tive um misto de sonho, reflexão e devaneio. Me vi andando em círculos no quarto, tenso, fumando, fazendo (a mim mesmo) uma série de perguntas. E de repente surgiu no chão de sinteco uma cidade de lego vermelho. Uma amálgama reluzente : algo que era ao mesmo tempo um amontoado de peças de lego, uma metrópole gigante e um monstro enigmático de voz grave e aterrorizante. Comecei a conversar com a cidade de lego, conversa que brotava daquela anterior comigo mesmo.

Com medo de esquecer, pulei da cama para anotar. O curioso é que o sonho já possuía uma forma cinematográfica em campo e contracampo. Mas ao anotar, deformava o que tinha visto, falsificando memórias. Comecei a juntar citações de diversos livros para dar corpo à voz da cidade, uma voz impessoal que emanava da aglutinação de várias vozes. Juntei pedaços do Banquete do Platão, do livro Do amor de Stendhal, Na solidão dos campos de algodão de Bernard-Marie Koltès… formando um diálogo de amor — ao mesmo tempo narcísico e platônico. Um diálogo entre um homem solitário e a cidade grande, entre um sujeito tornado objeto e seus objetos tornados sujeitos, entre o orgânico e o inorgânico, o vivo e o morto, entre uma criança e seus brinquedos, apagando as fronteiras mais do que afirmando-as. Depois a cidade de lego se metamorfoseava em outros objetos, um ventilador ou uma televisão… e as sequências não tinham ordem pré-determinada.

Alguns dias depois enviei o projeto para o Dia-Mundo. Assim formaríamos um condensado de condensados : um mundo em um dia, uma cidade em um apartamento… Como no paradoxo das bonecas russas : Para sair da cidade é preciso antes sair do apartamento. Mas para sair do apartamento é preciso sair da cidade em seu interior. Então como sair sem encontrar o lado de fora do lado de dentro ?

Durante a preparação do filme, novos elementos se agregaram de forma aleatória (ainda que subterraneamente programada). À noite, no ônibus, chegando a Belo Horizonte, eu vi A Bela e a Fera do Jean Cocteau. Era o único filme que tinha no desktop do meu computador e tinha tudo a ver com o clima do sonho. Avermelhei algumas cenas e usei como pano de fundo das cartelas, dividindo o vídeo em sequências.

Cada elemento, ao ser englobado no sonho, gerava uma nova encruzilhada, abrindo o vídeo a outros caminhos possíveis. Uma outra alteração de percurso veio na hora de usar o projetor de slides. Íamos projetar slides de pinturas clássicas de nus femininos sobre o meu corpo (e era a maior dúvida que tinha com relação ao vídeo). Quando, na última hora, Rodrigo Brum disse que não tínhamos um projetor de slides, mas um digital, de repente me lembrei de uma outra imagem : a de uma mulher sendo penetrada por um misto de vibrador e metralhadora. Decidimos projeta-la sobre o meu peito. E foi tudo muito estranho : a luz do projetor que aquecia o meu corpo, a sensação de ser penetrado por uma imagem. Era o auge da fusão entre sujeito e objeto, entre sonho e realidade.

Encarnado é um vídeo sobre o tédio. Segundo a demonologia medieval, Asmodeus é o demônio do tédio – mais conhecido como “o demônio do meio-dia” ou o “bafo do cão”. Em Asmodeus o tédio e o calor não podem ser dissociados, pois o calor é a origem principal desse estado em que não conseguimos dormir nem despertar plenamente. É o marasmo ou tristitia, oitavo pecado capital e origem de todos os outros pecados. Ponto de partida de pequenas alucinações quotidianas, dispersão necessária para a construção de certas conexões entre objetos heterogêneos. É quando programamos o inesperado. Escolhemos o que não escolheríamos. Pois é através do tédio, é entrando em contato íntimo com a banalidade fragmentada que nos circunda, que nos fundimos com a duração, curto-circuitando o tempo dos relógios.​

 

Lucas Parente, novembro 2015

 

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Um pensamento sobre “Encarnado

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