#24 Edição/literatura

Em pedaços

Do que tinha, nada a faltava.

As denotações improváveis geravam prováveis paradoxos em um litoral de pensamentos que questionava se esse mar realmente a pertencia, pois andava com uma bússola sem norte. Quantas impressões a deixavam uma cachoeira aprisionada. Queria uma vida com o verbo resetar em que um marca livro virasse um marca texto. Se tivesse que caminhar, que fosse com as mãos. A saudade era um bicho solto e a vida lhe dava pregos que ela colocava na parede quando a proximidade nada valia porque era maior que a distância.

Os dias tranquilos precisavam de vulcões. O remédio, então, era aceitar. Remediava-se de aceitações e de vinhos no frio e na chuva que convidavam à reflexão. Uma trama de pessoas que se encontravam em um Monet. Demorava, e o prazer ficava nublado. Constelações sem luz. Escuros brilhantes. Turbilhões. Um banho de chuva a tomou. Quem disse que o arco-íris tem apenas sete cores? Um pouco mais que nada por um sorriso branco e preto. A profunda distância entre olhar, ver e enxergar. A quantidade necessária de algo porque para o muito faltava pouco. A chuva estava prestes a tocar a sirene. Felicidade nublada por nuvens azuis.

Desejou dias assim, dias com sim. E de repente, tudo. A beleza do dia revela tudo o que tinha perdido nele. Chuva-calha. Lágrima-vinho. Um cheio de vazios. Pra que chegar agora se o tempo não é esse? Folha em branco é palco vazio. Várias versões de várias histórias certamente erradas. A palavra era revolta contra o inominável em vãos de desvãos que sempre vão. Porque o agora era o amanhã. Flores de pétalas que não estavam mais. O espontâneo do planejamento era dar errado.

Meio termo não, melhore os argumentos, meu bem…

Café amargo a despertava antes do acordar. Todas as coisas tinham sua ordem, até a loucura. O livre-arbítrio era uma decisão difícil em meio à doce arte do certo não provável e à sinestesia de abrir o olhar ao gosto e ao aroma do mundo em que toda quebra era ganho. Querendo uma palavra vazia que pudesse preencher, pois sabia que toda realidade era ficção. Um recomeço para um começo retrospectivo. E a vida era feita de escutas na ousadia da felicidade. A vida é mesmo pra ser vivida. E embora a sala estivesse vazia, preferiu esperar de pé.

De pouco nada. Explicações levam muito tempo embora. Conhecer-se é a melhor forma de aceitar-se. Fingia a felicidade e precisava de doces, vestida de egos e de desejos. Acostumava-se ao mais ou menos embora chovesse lá fora. De ângulos a vida entende, mesmo no enquadramento da lógica imperfeita. A certeza de que o mundo não gira ao contrário só porque queria ver a felicidade invadindo a porta. Decidia sua vida fazendo escolhas enquanto estava ocupada. Tão perfeitamente quanto as linhas eram tortas e o norte se foi, já que perder o rumo também é direção. O bom é que as coisas mudam… inconstantemente.

A vida ia sendo construída, sem saber exatamente as margens que queria atravessar. A raiva era criatura que crescia dentro dela. Todos precisavam de uma metamorfose diária porque as frustações pesavam para o fundo, e só os sonhos não alcançados podiam suspender. Seguia conduzida pelos dias, como medo de alterar os ponteiros, na febre de sentir que expulsava os medos. Talvez todos os fios dentro dela tenham arrebentado, construindo sem saber o quê, vivendo sem precisar saber. A vontade era o que a tornava diferente em um lugar real, com pessoas reais, onde ela não queria ficar. O que poderia ser se o fim não acabasse?

Ir embora era bom, se realmente fosse. Se tiver que lembrar o que sou, por que ser?

A afirmação da liberdade nunca era verdadeiramente livre. Se ainda não tivesse sido hoje, deveria agir para que fosse até o final do dia. O valor do silêncio estava nas palavras cuspidas. O não saber a movimentava e a ferrugem dos olhos a inebriava.

Queria ser feliz, entretanto, vivia.

Karine Aragão, novembro 2015

 

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