#7 Edição/literatura

Cenas Cariocas

MARÇO

“MIJAR É CRIME” tá pichado num muro entre o antigo Maraca e a Praça da Bandeira. É o crime de la crime.

MAIO

Tudo parado no Catumbi. Muita luz, muita buzina, muito carro. As motos passam, as bicicletas passam e os pedestres passam. Uma tartaruga passaria. Preferi o busão hoje. Troquei a sardinha pelo linguado no vapor. Queria o cinema na janela, o banco do fundão, mas só consegui uma cadeira amarela de idoso torcendo pra que nenhum entrasse. Do meu lado, na janela, a mulher parou de ler só pra reclamar. Ela se mexe como se fosse fazer o ônibus andar enquanto esquenta a orelha do motorista. O trânsito reflete bem a situação local, as máquinas paradas e as pessoas reclamando ao vento. Quando o ônibus anda, entra um vento, e no momento é só o que me importa. Apesar de estar no corredor consigo ver na rua um cara descer da kombi e ajudar uma mulher que tá com o Palio quebrado, ele empurra e ela direciona o volante até chegar a lateral do sambódromo, onde estaciona o carro. Ela ri da situação. Eu também. Na Estácio o busão vira Safari ao passar em frente ao Abrigo de menores abandonados da prefeitura. Um cara de colete azul traz pelo braço um jovem sem camisa? Enquanto pendurado na grade outros desabrigados fazem barulho ao ver que o parceiro tinha rodado. O ônibus inteiro se levanta pra olhar e fica com receio da libertação dos menores, imagina? 30 metros depois a trocadora fala mal do prefeito diante do estado do abrigo. A mulher do meu lado continua reclamando e se mexendo. Apitos e buzinas ao chegar mais perto do viaduto. O sinal fecha e o vermelho mexe com as pessoas no ônibus. A trocadora segue com a história do prefeito e um passageiro fala que faria o mesmo em bater no malandro. O ônibus segue em trânsito. Começa a cair uma chuva. Ela me acalma mais que essas palavras mas a mulher do meu lado fica ainda mais irritada. Ela não me incomoda pois da janela dela eu vi o sorriso daquela senhora do Palio. Quanto mais envelheço mais aprendo nos transportes coletivos. Neles tomei gosto pela leitura e pela escrita. Minha faculdade ambulante. Torço agora quase na afonso pena pra cair uma chuva daquelas, quero escutar as pessoas falarem.

JUNHO

Para de k.o! Não há amor onde há polícia.

JULHO

Hoje fui ao circo. Não que entrar numa lona me faça voltar a infância, mas esse sempre sempre foi um lugar de acreditar que tudo é possível. Aqueles corpos tão perto voando tão longe, tão distantes do meu. As luzes silenciosas que dão toda a profundidade dos sentimentos, assim como as expressões através de malabares e piruetas extravagantes. No circo a personagem em dúvida não só coloca a mão no queixo como o Pensador, ela sai dando cambalhotas pra trás até se entender, mas faz isso com tanta sinceridade que eu também entendo. Tem momentos que de fato só as crianças entendem. Afinal não dá pra se comparar a genialidade destas que são o brilho das apresentações circenses. O diálogo delas com a narrativa é direto e sem cortes. Circo é isso, um monte de coisa que se não fosse ali, debaixo daquela lona abafada e com a visão atravessada pelos postes que a sustentam, não poderia ser mágico daquela forma. Pra quem olha de fora é só uma lona azul, mas só quem entra sabe que aquilo ali é um planeta. O limite do corpo daqueles atores é a liberdade ilimitada da minha imaginação.

AGOSTO

Agora 22h05, no lugar que mais gosto do busão, lado esquerdo e sorte na janela que com a trava quebrada fica muito maior, quase duplicada. Vi um cara pegando ou passando bagulho de bike na Cruz Vermelha, e no momento que comecei a pensar sobre isso um objeto atirado contra o ônibus atravessa a minha visão e entra na diagonal, acertando no lado direito, o vidro superior das cadeiras altas. Era um ovo. Levantei a cabeça por cima do vidro traseiro e vi uns moleques com cara de 13 anos se divertindo e comemorando o fato do ovo ter entrado no busão em vez de parar no vidro do lado de fora. Estavam felizes. Acreditam que acertaram alguém, mas na verdade não. Eu dei muita sorte de estar no recuo do último banco, em vez de estar com o braço apoiado e a cabeça na janela, pois teria tomado uma bela ovada na cabeça, e as outras pessoas por nao terem escolhido a janela do banco alto. Quem levou a ovada foi a janela, nas pessoas ficou o susto e no máximo uns respingos. Vendo eles sorrindo não fiquei puto, na verdade compartilhei do sentimento lembrando das várias dúzias de ovos tacados em diferentes tipos de lugares e pessoas, na companhia do meu irmão. Era uma grande diversão realmente. Não tem jeito, amanhã os filhos daqueles moleques vão tacar ovos em outras pessoas também, assim como eles levarão ovadas inevitavelmente. Lembro no dia em que me aposentei desse esporte: de dentro de casa e na correria, joguei o ovo de longe, e apesar de ter bom arremesso, acertei minha própria casa. Foi então a primeira vez que tive que lavar o estrago de um ovo, e a partir dali não quis que mais ninguém passasse por aquilo, e parei. Sei que são crianças, e reconheço também que se pega em alguém machuca. Nunca gostei de ovadas de aniversário por acha-las muito violentas na maioria das vezes, mas respeitava a tradição. Assim como talvez nunca tenha acertado ninguém com os ovos que joguei, e que apesar de tudo, minha vontade real fosse essa. Se fossem pegos fazendo isso poderiam ter levado muita porrada ou mandados pra psicóloga. Por causa de ovos. Fiquei feliz quando vi que ninguém tinha sido acertado, assim como eu ficava quando não acertava ninguém na minha época. São apenas crianças entediadas como muitas outras, gastando onda com um ônibus dominguento de adultos cansados. Abriram mão do Faustão e foram pra rua fazer merda. Antes de descer do busão vi a janela atingida, e até a achei bonita. Pensei no moleque feliz lembrando do arremesso, assim como eu ficava quando a distância, acertava a pedra na placa do ponto de ônibus. Sei lá, mas quando criança eu me sentia preparado pra qualquer guerra.

SETEMBRO

Meia-noite e eu acordo com fogos vermelhos e verdes explodindo e iluminando de cima pra baixo, em formato de chuva, o Morro do Salgueiro. Tenho mais lembranças desses foguetórios daqui em homenagem a Dois-Dois, aos santos meninos, aos Êres e às crianças, do que dos da praia de Copacabana. É o dia das crianças. Explodem também os desejos da molecada, enquanto brilha o olho no céu antes de dormir, e já pensa em qual esquina vai marcar amanhã, logo pela manhã. Ninguém vai levar lanche pra escola. Do dia 26 pro 27 de setembro, até 00h01 em ponto, lembrei do gosto e da textura da Maria Mole, da troca de doces e da atenção nos carros, quando via a lanterna traseira acender, o carro parava e eu corria, na verdade, nós corríamos. Os sacos ficavam cheios. Lembro que algumas famílias, representadas nas Mães, levavam sacos maiores, era a comida pra duas semanas sem fome. Passava na casa da madrinha, da vó, da tia e das tias e tios que eu nunca tinha visto na vida. Num Prédio da Bom Pastor um bolo imenso para São Cosme e São Damião era feito na entrada, antes da portaria. Por algum motivo de falsa boa vizinhança ou por não continuação da tradição, o bolo nunca mais me deu bom dia. Quando só tinha saco de papelão tateava por fora pra saber se vinha com doce de abóbora. Troca um coco de rato por um suspiro? Os sacos de papel depois ganharam companhias do plástico. Pelo tato era mais fácil de descobrir, e algum deles até deixavam ver o que tinha dentro. Bom mesmo era os que tinham a Mariola. Agora pela manhã mais fogos explodem perto e longe. Os pássaros vizinhos parecem cantar ainda mais forte hoje, deve ser pra acordar as crianças. Os carros já começam a passar na rua com mais frequência. Hoje é dia de levar um saco na mochila, pra poder depois despejar e ver quais foram os presentes. Festa de São Cosme e São Damião. Festa de Ibeji. Os meninos médicos, donos de todos os doces e Carurus. Dia daqueles que dá gosto de viver no Brasil, de Santos e Orixás. Que as crianças jamais percam seu direito de correr, como se tivesse voando, atrás dos doces que lhe dão prazer e proteção. Hoje é dia de comemorar a criança que nos mantém vivos, com saúde e em estado de alegria. Dia de boas lembranças de uma infância, que apesar de qualquer dos perrengues, sempre traz sorrisos na cara. Vou sorrir por Elas e brindar por Eles hoje, e quem sabe, com sorte, arrumando umas cocadas de sobremesa

OUTUBRO

Os vidros embaçados, pelo frio e pela chuva, entristecem a viagem. Da janela fechada do 422 não se vê os rostos das pessoas. Só sinais vermelhos e faróis iluminam as gotas no vidro. Os ônibus só são felizes aos fins de semana. Sentei na cadeira alta e me arrependi, tem duas televisões de anúncios. Gaste pouco e aproveite muito, ela não para de dizer. Uma japa de vermelho no topo do CCBB e uma pixação no topo da Candelária. Uruguaiana fechada. Saara, deserto. Tapumes para as vidraças e grades pra quem atravessa a Presidente Vargas. O Centro a noite é morto como o busão de volta pra casa. Zumbi e cidade do samba. No banco alto atrás do meu um rapaz arrumado fala no telefone, diz que está mais calmo e quando chegar em casa eles conversam mais. Tom de briga. Uma mulher dá tchau pro amigo da faculdade e pergunta qual a aula de amanhã. Em seguida pergunta que dia é amanhã. A mulher ao meu lado joga joguinhos de video game e esconde o celular quando eu olho. Na Praça da Bandeira penso se alguém que entra está vindo da VM. Lembro da música Vila Mimosa, área de lazer, praça da bandeira, 15 conto pra foder. Que cantávamos na escola. Tudo amarelo na Mariz e Barros. Um 422 passa ao lado e 3 pessoas que entraram xingam o motorista. Uma mulher diz que quer mata-lo. Deve ter passado direto do ponto deles porque o nosso vinha atrás. O cara da faculdade conversa com outra colega como se estivesse dando aula, pra ela e pro ônibus inteiro. A trocadora conta o dinheiro e balança a cabeça negativamente. Eu só queria que a minha janela estivesse aberta.

*

Cenas cariocas. Um cara vendendo um fogão a 30 reais no meio da calçada da Adolfo Bergamini; um flanelinha da Felipe Camarão retirando com uma chave os adesivos escrito em letras garrafais AUTUADO, colado nos vidros dos carros de sua calçada; criançada brincando no lago da Praça Saens Pena; jovens passam a cavalo na Borja Reais; na Desembargador Isidro um japonês com a camisa do Fluminense com o seu nome Toshiba escrito nas costas, dorme na mesa do bar com a cabeça caindo pra esquerda, enquanto sua cerveja Brahma esquenta.

NOVEMBRO

Peguei o tradicional táxi da madrugada. 410 kombi depois da meia-noite 3 reais. Sentei sem companhia no banco de trás e com janela. Apesar de não fazer parte da rota, ele prometia Central pra pegar uns pingados. Conseguiu 2 pra lá, que reclamaram quando ele não dobrou a direita na Cruz Vermelha. Ele explicou rápido, tem lei seca na Praça da República, Campo de Santana. Deu a volta e deixou os 2 no posto. Quando desceram, e ele, por dentro, conferiu a blitz falou em voz alta: num fode, ia me foder alá. Entre o sambódromo e o Estácio foi ultrapassado por outro 410, do piloto Roberto, e na principal do Catumbi travaram um rally. Quando ultrapassou a outra Kombi gritou, vai quebrar o carro ein, Roberto! Só 3 no carro, eu que ia saltar na Saens Pena, o outro na Felix da Cunha e o piloto. Na esquina da Felix, ele parou no posto, o passageiro desceu e ele também. Foi tomar um café, e me deixou com os Racionais. A letra contava a história do cara que tinha ido pro crime pra não deixar a mãe no veneno. Quando voltou com o café, abaixou o som. Pedi pra deixar rolar. Ele falou: Racionais mc’s. E fui, eu, ele e os Racionais no talo, mais alto que os barulhos do corpo da Kombi. Pegou contramão na rua de paralelepípedos que dá no Ziembinski, dando sentido às ruas vazias. Antes de descer na praça, vi um carro da Guarda Municipal parando, achamos que era pra parar a gente, já que os documentos estavam atrasados, mas era pra paquerar duas meninas. Eles saíram rindo, e o piloto xingando esses filha da puta. Dei boa noite pra ele e bom dia pra galera que descia da festa no Sal. A lua cheia como os faróis da Kombi.

*

No 439 Leblon x Vila Isabel, antigo Laranjinha, depois de 20 minutos parado no sinal da Bartolomeu Mitre com Lagoa-Barra, tenho certeza que as únicas coisas que me trazem à estas terras que conheci depois dos 18, é amor e a praia. O busão tava vazio, com ar-condicionado, e escolhi a cadeira alta da esquerda. Janelão e espaço para as pernas. Atrás da cadeira amarela para idosos. Fiz do ônibus biblioteca, e pedi a duas moças que falavam sobre construir uma piscina na laje delas, uma caneta emprestada. Verde e amarela como aquelas da Petrobras, mas sem marca nenhuma. Nos cruzamentos é que a gente vê quem é quem. O carro é a máquina do stresse. No Baixo Gávea uma criança senta com o pai na cadeira de trás, e fecha minha biblioteca. Agora sou só ouvidos. Fico feliz quando vejo uma criança agitada. Do lado de fora uma mulher passa chorando enquanto fala no celular em frente ao Jardim Botânico. Nos pontos de ônibus os jovens de escolas públicas e particulares se encontram mas não se olham, não se reconhecem por causa da distância entre as margens. As sacolas de marcas mostram que o lurgarzinho no céu está sendo comprado. As bicicletas motorizadas ou motos com pedal vão pra lá e pra cá. Me lembram as magrelas mobiletes do interior, e do Betinho puxando gasolina com a mangueira pela boca pra abastecer o tanque e subir a ladeira. No Humaitá o São Jorge de 4 metros mata o dragão e o lha para a Lagoa. Me faz lembrar Nova Iguaçu na novela do Manoel Carlos. A janela fechada dos ônibus com ar não me deixam apoiar os cotovelos e nem escutar os ambulantes. O túnel te leva de volta pro teu tempo. A criança dormiu no ombro do pai igual ao cara aqui do lado quer fazer no meu ombro. Quase perdi o ponto, e na pressa pra descer, levei a caneta verde e amarela. Se eu fosse preto, apesar da caneta falhando, iam gritar ladrão, mas a janela estaria fechada.

DEZEMBRO

Num muro da Linha Vermelha: caminhão tombou, promoção chegou.

*

Já pensou, qual é o busão da tua vida? As vezes um não dá conta. As histórias, as experiências, os lugares e as pessoas. Eu li uma vez, que Metáfora vem de transporte, e fez muito sentido. Realmente, ainda mais num Rio de Janeiro engarrafado, de milhares de encantamentos cotidianos e inusitados, passando por dentro de florestas, na frente de praias, baías e favelas. Você pode conhecer os alemães no Cristo e embarcar em direção ao complexo do Alemão. Demorar, facilmente, mais de 2 horas numa viagem ainda dentro da cidade. Não seria indigno pensar tomar a metáfora 409 pra ir da Tijuca à Lapa, ou a 415 pra ir ver a amada, ou a 333 para ir pegar uma praia na Barra. São verdadeiras viagens. Por isso fico feliz em poder escrever no celular, hoje, o que vejo. Porque antes com o caderninho, tremia muito a caneta. Ontem saindo do “ô, Lili” da Cia Marginal no Sergio Porto, vi um 158 cheio de gente, parado naquele posto ali do Humaitá, abastecendo para seguir viagem. Nunca tinha visto isso, mas já tinha visto motorista parar o busão na Dias Da Cruz pra comprar esfiha no Habibs, duras de polícia e de traficantes no Mata Machado, porradaria na Frei Caneca entre trocador e passageiro, histórias incríveis, talentosos publicitários ambulantes e muito som alto. Andar de ônibus é não se deixar tirar os pés do chão da cidade. Fora tudo que a gente vê pela janela, o lado de fora da gente. Quando sento na janela, tudo é cinema, mas é real.

*

Na Conde de Bonfim com Uruguai, o Papai Noel empurra seu carrinho de pipoca todo iluminado de um verde neon com uma rena na frente, com um alto falante desejando feliz Natal a todos. Na subida da Bom Pastor o Clone carrega a bicicleta numa mão e ajuda uma senhora cega com a outra. As lojas de rua estão fechadas.

Carlos Meijueiro, junho 2014

Organização: Gabriel Gorini

 

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