#20 Edição/literatura

Do neoclacissismo à geração beat: breves (e duvidosas) notas sobre natureza e cultura

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A modernidade tem como início consensual o rompimento com a tradição feito pelo pensamento cartesiano, que estabeleceu a racionalidade como princípio, com o medieval. Além disso, é pensada principalmente a partir de dois acontecimentos do século XVIII: a Revolução Industrial e a Revolução Francesa. Os ideais Iluministas fizeram com que o “Século das Luzes” estabelecesse as diretrizes centrais do pensamento posterior e provocasse diversas reações. O racionalismo, a laicidade e a especialização do conhecimento são exemplos desse paradigma. A Revolução Francesa surge contra todo e qualquer tipo de particularismo e estabelece a Razão como meio principal de relação com o mundo. Em reação a isso, o Romantismo vai postular a exaltação do “eu” e da sensibilidade. De forma geral, a contradição entre os projetos Iluminista e Romântico (que em diversos momentos não são tão contraditórios assim), dentro da modernidade, vai permanecer até a contemporaneidade – ora pendendo para um lado, ora para outro, mas, de certa maneira, sempre em coexistência.

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Com a crise (ou ideia de crise) da modernidade, não sabemos exatamente o que somos. Modernos, pós-modernos, hiper-modernos ou jamais modernos? Se o projeto moderno é a especialização da vida e a consequente purificação do mundo, ele certamente deixou alguns conceitos e antinomias fundamentais – de acordo com as quais organizamos o mundo. Entre elas, o par natureza/cultura. Muito já foi (e está sendo) discutido a respeito disso. Da ficção científica à antropologia biológica. O que eu pretendo, nesse texto, é fazer uma série de observações sobre algumas poucas correntes literárias e suas visões sobre essa antinomia, que ora pode ser entendida, em diversos e diferentes momentos, como a oposição entre campo e cidade, ou ainda entre corpo e mente. Obviamente, não há pretensão de coisa alguma neste ensaio. São apenas alguns apontamentos e questões.

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O Neoclassicismo, movimento artístico surgido ainda no século XVIII em oposição ao Barroco, talvez seja a primeira expressão estética do projeto moderno. Os neoclássicos reivindicavam a Antiguidade e a natureza como o paraíso. Os artistas, pertencentes à ascendente classe burguesa, racionalizaram a poesia, com forte influência iluminista, contra a estética barroca: o privilégio do cotidiano unido às formas épicas clássicas foi recorrente. Além disso, a poesia era pensada a partir de sua utilidade – havia muito pouco espaço para a expressão subjetiva do artista. A cidade, controlada à época pela monarquia, ainda se formava e pouco a pouco se estabelecia como locus próprio da classe burguesa e da modernidade. A natureza, simbolizada por Arcádia (antiga cidade grega e idealizada pelos neoclássicos, também conhecidos como arcadistas por esse motivo), representava o equilíbrio total do homem, o lugar das relações essenciais e verdadeiras, e era pensada em oposição à cidade, lugar da degeneração moral e dos corpos, do efêmero e transitório. O lema máximo desses artistas era o fugere urbem, que expressava a condição contraditória dos neoclássicos: enquanto burgueses, dependiam economicamente da cidade e quase nenhum a deixou.

Se para os neoclássicos a natureza exercia um fascínio e era o cenário perfeito para a vida (considerando a si próprios, inclusive, como pastores), para os românticos a natureza era a expressão do estado de espírito do poeta. Nostalgicamente, o Romantismo retomou a tradição da Idade Média, trouxe a valorização do mito e amor às ruínas. As idéias rousseaunianas do “bom selvagem”, em sintonia com um estado de natureza perfeito, encontram eco no sentido da grande influência da natureza sofrida pelo artista. A cidade ainda não aparece como uma alternativa de vida possível.

Nessas duas correntes literárias, a natureza aparece como inspiração crucial e prioritária. Na primeira como reformulação do éden, na segunda como lugar em que inspira e é inspirado pelo espírito do artista.

Após o Romantismo surge o Realismo em meados do século XIX. Talvez seja a reação do pensamento iluminista aos românticos. Ora, se a cidade é o locus burguês por excelência e o Iluminismo é o pensamento burguês por excelência, a negação da vida urbana é – de acordo com o espectro político definido pela Revolução Francesa – reacionária, antiprogressista. O Realismo, portanto, principalmente a partir de Balzac, vai enxergar a cidade como terra das oportunidades, mas que pode ser suja, trapaceira, injusta etc. A natureza já não vai ser o campo, mas o próprio corpo humano: os instintos, a psicologia, as leis naturais, todos serão usadas como fontes de explicação da realidade. Além disso, vai ser uma literatura pequena burguesa e suas narrativas terão certo tipo de denúncia contra a alta burguesia. O universalismo, a influência do nascente Positivismo, o mundo enquanto objeto a ser observado e descrito e o foco na psicologia do indivíduo são características claras no Realismo.

Como consequência, surge o Naturalismo, uma exacerbação do projeto realista. O ser humano vai ser visto como um animal dotado, acima de tudo, do mais puro instinto. O determinismo natural sobre o ser humano vai atingir seu nível máximo: os corpos, nos romances de Émile Zola, por exemplo, serão todos fruto das leis naturais e do humano enquanto ser animalesco. A oposição natureza x cultura, mais uma vez, não segue a noção de campo x cidade, mas corpo x mente, ou instinto x razão. “O Germinal” apresenta esse quadro: mineiros expostos a condições baixíssimas de vida vão se mostrando cada vez mais animalescos e instintivos. A cidade, à época, já estava estabelecida como lugar do progresso moderno, mas ainda era vista com receio e cautela: só há uma possibilidade remota do fugere urbem, mas o modo de vida urbana era visto, por muitas vezes, degradante.

A virada do século XIX para o século XX vai proporcionar uma mudança extrema nas representações da urbanidade. Conhecida como Belle Époque, o período traz diversas descobertas científicas e invenções importantes (o automóvel, por exemplo). Assim como na ciência, na arte o clima é de novidades: as vanguardas vão surgir e romper com o antigo, o tradicional – com o século XIX. A iconoclastia foi a tônica dos movimentos: as vanguardas romperam as tábuas da lei e criaram novas. Uma das mais influentes, e também a primeira cronologicamente, foi o Futurismo. Seu primeiro manifesto, datado de 1909, foi escrito pelo artista Filippo Tommaso Marinetti e exaltava o progresso, a sociedade industrial, a propaganda e a modernidade. “Um automóvel de corrida com seu cofre enfeitado com tubos grossos, semelhantes a serpentes de hálito explosivo… um automóvel rugidor, que correr sobre a metralha, é mais bonito que a Vitória de Samotrácia”, dizia Marinetti no manifesto. A exaltação à eletricidade, à guerra, ao poder da indústria: o futurismo rompe com todas as tradições literárias anteriores e estabelece o amor à cidade. Agora a vida urbana merece odes, o campo quer virar cidade (ele precisa virar cidade), as tecnologias são cantadas aos quatro ventos. O manifesto também apresenta um forte cunho fascista, o que vai se confirmar depois com a adesão de Marinetti ao partido de Mussolini. Contudo, o futurismo ainda é uma das mais importantes vanguardas do início do século e representou a virada nas representações do modo de vida urbano. A cidade se torna inevitável. Dessa maneira, a natureza não é mais uma possibilidade – a cidade: o lugar do artifício, o lugar do anonimato, o lugar da sujeira, o lugar da indiferença se torna o objeto desejado por muitos.

Em meados do século XX, no Brasil, surge um dos últimos movimentos de vanguarda: o Concretismo. Idealizado pelos irmãos Augusto e Haroldo de Campos e o amigo Décio Pignatari, o movimento vai entrar diretamente em sintonia com o abstracionismo europeu. Com forte apelo gráfico, a poesia concreta parte do mote “verbivocovisual”: é a linguagem de massa definindo os rumos da poesia. Com um forte apelo publicitário, o Concretismo é a própria artificialidade: sem o “eu”, com ênfase na razão e afastando qualquer ideal lírico ou simbólico – a obra não é mais representação da realidade. O meio urbano se acentua nas suas obras: as cores chapadas e industrias – a crítica ao consumo de massa através da própria linguagem de massa – sempre seguindo o mote de Maiakovski, poeta revolucionário russo, “não há arte revolucionária, sem forma revolucionária”. A cidade, nos concretistas, aparece como objeto máximo:

atrocaducapacaustiduplielastifeliferofugahistoriloqualubri
mendimultipliorganiperiodiplastipubliraparecipro
rustisagasimplitenaveloveravivaunivora
cidade
city
cité

(Augusto de Campos)

Na mesma época em que o formalismo se estabelecia no Brasil como vanguarda, nos EUA outro grupo se formava: os beatniks. Faziam parte deles jovens amigos de classe média baixa da geração pós-guerra. Também conhecidos como “beat generation”, termo cunhado por um de seus ícones, Jack Kerouac. A geração beat tentou romper com a antinomia vida e obra. Com um fácil trânsito entre campo e cidade, a separação entre corpo x mente também tenta ser dissolvida: a escrita automática e a sexualidade livre chocaram a sociedade americana. Os beatniks foram os fundadores da contracultura e inspirariam diversos movimentos posteriores, principalmente o hippie.

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A ficção científica mereceria um artigo à parte. O que é possível dizer aqui é que, desde os clássicos, como Julio Verne, até os contemporâneos, como Douglas Adams – passando pelas graphic novel alternativas. As questões que agora aparecem para a literatura como a relação entre corpo e tecnologia – e, assim, com as questões sobre artifício (cultura/cidade/mente) e biológico (natureza/campo/corpo) – já são tratadas há tempos na ficção científica. Alguns dizem que esse gênero literário diz mais sobre a própria época em que foi feita do que o futuro. Desconfio um pouco disso. Evidente que, em algum grau, a ficção científica trata sobre sua época. Mas ela é bem próxima do que um dia já se chamou de “profecias autorrealizáveis”, ou mitos que, fundantes, estabelecem as diretrizes para as ações futuras.

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No último meio século, assistimos, assombrados, à popularização de diferentes formas de comunicação – que possuem diferentes agências sobre nossas vidas. Quando Benjamin trata da questão da decadência do narrador de histórias, do sábio, na Modernidade, ele lembra o seguinte: no início do século XX, a geração que ia à escola de carroça se deparou com o terror das metralhadoras, dos tanques, dos aviões, e, ao contrário do que ocorria antes, não voltaram para casa cheio de histórias para contar. Pelo contrário: voltaram mudos. Nos últimos anos, temos nos deparado com um problema semelhante: a geração que mandava cartas, que se comunicava por telefone fixo, mesmo ainda as pessoas que começaram a usar a internet discadas – todas essas pessoas foram jogadas num mundo da fibra ótica, da informação instantânea, completamente além da nossa capacidade de assimilação. E, como em outra hora, diante dessa grandiosidade e desse terror nós também voltamos mudos. Talvez por isso esse pequeno ensaio termine na geração beat. A partir da década de 1960, que é quando esse projeto cibernético começa a ser implantado, até os dias atuais – quando ele já está estabelecido em grande parte do planeta – exigiria um esforço além da minha capacidade. Ao menos por enquanto.

Por fim, os problemas que essas antinomias trouxeram foram muitos, e muitos ainda estão mal-resolvidos: como categorizar o que não é cultura nem natureza? Essas noções podem ser usadas como conceitos para explicar o mundo? Como mobilizá-los para a reflexão? Ou essa é uma reflexão inútil para o pensamento?

A problematização da ideia de natureza e cultura veio, principalmente, do aprendizado que outros povos passaram aos europeus – como, por exemplo, a tentativa de ser o outro que a antropologia trouxe.  Evidentemente, isso traz diversas outras questões. Essa divisão entre “natureza” de um lado, e “cultura”, por outro, nos serve?  Ou ainda: nós agimos de acordo com essas categorias? Digo, no Brasil. Isto é, de que forma o “projeto moderno” nos afetou. De que forma ele foi afetado – “não haveria comunismo sem os povos indígenas”. Em suma: em algum momento essas categorias foram aqui o que são lá?

João Curamonge, julho 2015

 

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