#10 Edição/artes visuais

Dois relatos a partir da exposição de Milton Machado

Sem que os autores soubessem que seriam publicados juntos, reunimos aqui dois relatos referentes à exposição Cabeça – Milton Machado, mostra importante que finalmente congrega a obra do artista no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro. Num deles, escrito por Jandir Junior, importa menos a obra do artista do que os transbordamentos possíveis de uma experiência expositiva. Jandir, que também é artista, tem se interessado muito pelo artístico da não-arte, se é que podemos expor assim. O outro, escrito por Aleta Valente, ao contrário, é um relato afetivo, bastante pessoal, que usa a exposição como suporte para falar da experiência que é aprender com alguém inspirador que serviu de base e referência – e ainda serve – para fundamentar a formação artística de alguém, que também atuando na esfera da crítica e produção artística, busca exemplos num cenário complexo. Cabe dizer que os dois, embora com abordagens bastante diferentes entre si, partem da obra do artista para chegar em outros lugares, outros desdobramentos. O que nos leva felizmente a crer que a obra do Milton faz-se então ainda mais potente.


Rotunda à vista!

Jandir Junior
A falha do módulo de destruição e os piratas

A visita à exposição Cabeça, de mais de cem obras que faz um restrospecto da produção do artista Milton Machado, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), começa com as obras Módulo de Destruição e Nômade, instaladas logo na entrada, na rotunda do espaço. O artista […], no entanto, sugere que os olhares dos que passarem pela mostra iniciem o percurso na Sala C […] e na Sala D […].

“Um visitante desavisado poderá julgar que aquele cubo e aquela esfera na rotunda não passam de uma gaiola ou uma jaula aprisionando uma bola”, explica Milton, com humor. ¹

Em civilizações sem barcos, esgotam-se os sonhos e a aventura é substituída pela espionagem, os piratas pelas polícias. ²

Entrar no CCBB definitivamente não foi entrar no CCBB naquele dia. Ou talvez tenha sido. A sensação que tive está num espaço entre o que as duas sentenças acima querem representar. Afirmaria, contudo e usando as letras em precisão agora para isso, que a obra de Milton Machado que estava na rotunda do prédio não contribuiu de todo para esta sensação. Sendo sincero, contribuiu minimamente, doou sua percepção em outras direções que não somente a mim e abriu clareira ao que lhe era outro. Cortando o espaço com seu gradil em cubo e aliviando este corte com outro cubo, que desenhava o ar com suas bordas, desejava constituir-se obra e falhou.

Pode parecer bobo isso de dizer que a obra falha – “Tanta água já rolou de instalação, happening, arte participativa, site specific… Como não compreender que a obra se conjuga com o espaço, tornando-se neste encontro? Não mais importa a concepção de obra, mas importa a concepção de processo…” – poderia se dizer. Contudo há uma causa. Por conseguinte, um por quê.

Muito além da alteração que o trabalho proporcionava ao espaço e a meu corpo, ou o inverso disso, já que não sabemos onde começa e termina o espaço, onde começa e termina o corpo, havia um casal insólito habitando aquele lugar no meu momento: um jovem travestido de Salvador Dali segurando um diminuto relógio derretido; uma imponente mulher em um longo azul. Eles deslizavam pelo local. Sendo presentes, tens(c)ionavam aquele gradil, pois minha mente reconstituía-os em inteireza. Não estavam submetidos àqueles cortes espaciais, cortavam-os eles mesmos com elegante poder. E, compondo o cenário, me via imerso em surrealidade, conspurcando CCBB e instalação.

Passado outros dias visitei novamente a instalação, acompanhado e conversando com uma pessoa apenas. Falávamos de internet e como se apropriar dela inventivamente, sem precisar obedecer aos padrões estabelecidos por redes sociais. Víamos algumas pessoas tirando fotos junto ao trabalho e pensei que eram condescendentes para com aquilo, separavam e reverenciavam bem essa distância. Mas ouvi que não, que aqueles não apropriavam do trabalho ao tirar uma foto com ele, mas o reinventavam, empregavam-lhe outra possibilidade; invadiam, em suma. Neste momento algumas crianças e adultos colocavam seus braços dentro do espaço que o gradil separava. Invasores, impregnavam de forma e conteúdo aquela visualidade. Deturpavam e deturpavam.

O texto de parede dizia que esta não era uma exposição cronológica, retrospectiva, mas que desejava uma deriva criativa pelo espólio de Milton Machado. Entretanto, este texto não concebia a exposição como lugar em que se vê o que reside fora das bordas das obras emolduradas, formadas e propostas (que jamais poderão prever e incorporar seu exterior, pois prevalecem na dicotomia). Sei que pode parecer, com isso, que me engano quanto à falha e que a obra sobrevive intacta, pois, supostamente, falo de minha atenção titubeante, que vai do trabalho de arte a outro polo qualquer. Mas não. Isso que silhueta a falha, derivando de fora da obra e a desmantelando, trazendo audiência, artisticidade, e espaço expositivo para si, não parte de mim enquanto espectador, mas dos que me circundam e fazem como memes: viralização do criar naquilo, à moda das modas que surgem a cada segundo em nossas timelines; usa-se o original como base, pervertendo-o. E esta inflexão é necessária, pois denota que a dita falha do trabalho (já não mais importando se módulo de destruição ou superfície modulada³) é sintoma de borda: acredita-se em arte como processo enquanto, na verdade, os piratas invadem a obra e tomam o que era dela.

Ainda assim, a tranquilidade da instituição e a tranquilidade do artista para com os feitos pirateadores têm convencido que estes atos são obra ou, como no pensamento estético corrente, que se desejam essas relações, constitutivas do coeficiente artístico na mirada de nossa contemporaneidade. Funciona esse discurso, mas só quando não se percebe ou não se fala a falha e seu polo de equilíbrio, a pirataria; ato que só o outro, aquele que reside fora da borda, pode exercer. Desvelado este discurso, percebido então como perspectiva de alguns, a tranquilidade institucional evanesce; revela-se suposta.

Enquanto visitava a exposição de Milton Machado, encontrei fones no canto da galeria. Colocando-os nos ouvidos, não escutei nada. Ainda assim permaneci com eles por algum tempo, talvez distraído, pensando ao invés de agir a partir da ideia de inutilidade daquele aparato. Todavia, antes que pudesse tirar os fones por minha vontade, fui cutucado com violência por um segurança que monitorava o espaço. Retirei-os e ele disse, em voz alta, que o trabalho estava inoperante, que já havia sido solicitado que a manutenção o consertasse. Agradeci, ainda que curioso em refletir por que sua abordagem foi tão brutal. Agora sei: a falha estava ali, mas o perigo iminente da falha operava em mim.

Notas:

  1. A lógica de Milton Machado – Revista | Cultura.rj. Disponível em: <http://www.cultura.rj.gov.br/materias/a-logica-de-milton-machado> Último acesso em 30/08/2014
  2. Michel Foucault. Outros espaços. Disponível em: <http://www.historiacultural.mpbnet.com.br/pos-modernismo/Foucault-De_Outros_Espacos.pdf> Último acesso em 30/08/2014.
  3. Referente à série de trabalhos de Lygia Clark nominada planos em superfícies moduladas. Interessa-me sua inserção nessa parte do texto por uma possível correlação antagônica entre certo caráter distópico, projetual e realizável no suporte bidimensional na História do futuro de Milton Machado (trabalho processual que engloba o Módulo de destruição citado) ante características utópicas (no caráter moderno que lhes gera), construtivas e de imanente embate com a superfície expressiva nas modulações de Lygia. Mais sobre a série em: < http://www.lygiaclark.org.br/arquivo_detPT.asp?idarquivo=9> Último acesso em 05/09/2014.

 

O Milton Machado de dentro da minha cabeça
Aleta Valente

Eu andava perdida no limbo que para mim era Escola de Belas Artes da UFRJ, onde tudo se localizava a uma distância imensa de fazer qualquer sentido.

Demorei um pouco, mas compreendi que estudar arte, ainda por cima em uma instituição precária, não seria garantia de sobrevivência.

Subia as escadarias e atravessava os corredores me perguntando quem seriam aqueles outros kamikazes, será que eles também sentiam medo?  Nos primeiros semestres tive o desprazer de testemunhar as aulas de Historia da Arte que eram basicamente televisores exibindo programas da Discovery Chanel – DUBLADOS – sobre o Egito antigo. E o pior é que eu já tinha assistido tudo umas trezentas vezes no sofá de casa durante a minha adolescência.

Ir para universidade me parecia um suicídio de tempo, a semana passava como uma eterna queda livre. Até que um dia, na falta de um professor, em uma sexta-feira de manhã eu resolvi que iria assistir uma outra aula. Ele entrou em sala com uns livros em baixo do braço. Lembro da vertigem que me causou ouvir suas falas, até então eu não tinha grandes referências em arte, nada que me arrebatasse, minha relação mais intensa naquele momento ainda era com literatura, mas  de alguma forma eu conseguia entender que o que estava acontecendo ali  era excepcional. A velocidade com que ele cruzava informações, o sorriso de canto de boca denunciando o prazer em pensar/falar como quem cria. Sim, porque a fala talvez seja um suporte renegado de seu valor.  Constantemente sentia taquicardias causadas pelas overdoses de café, para me manter acordada  assimiladas a excitação que me causava ser plateia  do seu fluxo de pensamentos, meus cadernos iam se enchendo de nomes de artistas que  depois nem o google saberia corrigir. O entorno era um composto de pessoas bocejando, babando e /ou dormindo, o que tornava tudo mais especial, pois era como se fossemos apenas eu e ele ali, apesar de que muito provavelmente ele também não sabia da minha existência – no teatro de dentro dele talvez ensaiasse a sós.

Minha assiduidade nunca foi ortodoxa, mas como era ouvinte e não estava devidamente matriculada, minha relação era de puro prazer, eu assistia as aulas de História das Artes Visuais V na esperança de que algum processo osmótico me salvasse a vida. Estava ali para ser atravessada, e com o passar dos semestres fui me apropriando de suas expressões  mais utilizadas como  “tongue in cheek”, me alimentando das citações bibliográficas (levei a vida, mas recentemente acabei os ensaios de Montaigne) e sentia imenso prazer ao ouvir suas piadas prontas, pois era quase como se já fossemos amigos íntimos.

Minha formação se deu obviamente mais fora do que dentro da universidade, e me lembro de ter visto a primeira vez um trabalho do Milton na coleção Gilberto Chateaubriand/MAM-RJ, um desenho minucioso de um hotel em forma de banana no meio da Bahia de Guanabara, no qual eu conseguia reconhecer o humor inteligente do meu professor, no entanto foi a única coisa que eu vi por muito tempo. Milton vem de uma formação em arquitetura pela FAU/UFRJ, com um mestrado em planejamento urbano no IPPUR no qual reivindicou sua presença como artista. Mais do que ninguém experienciou a esquizofrenia que é o prédio da Reitoria. Doutorado na Inglaterra, foi orientador de muita gente boa, tradutor de artigos, já me deparei com poesia suas sábado de manha no Prosa& Verso, violonista, pai de um adolescente, essas eram as faces que eu tomei conhecimento, mas por um vasto tempo seu trabalho como artista continuava uma incógnita. Não tinha notícias de exposições ou  de uma publicação que desse conta de tudo que ele transbordava nas suas falas, o que me deixava intrigada. Até o contato com o “Modulo de Destruiçao” em 2010 na 29ª Bienal de São Paulo , aquela coisa imensa que ficou suspensa no  pavilhão. Eu olhava praquilo ali e sentia um orgulho, não que eu alcançasse a imensidão que era mitologia por trás do objeto, mas me esforcei, sentei de perninhas de chinês diante da “Historia do futuro” coloquei os fones e  passei um bom tempo ali vendo e revendo o vídeo.

Um dia uma amiga que fazia as transcrições da revista da pós-graduação da EBA, a “Arte & Ensaios”, me disse que tinha pegado o áudio da entrevista do milton e ela reclamava dizendo que ele falava demais, que um minuto de fala dele era três vezes mais que qualquer outro que ela tinha já tinha transcrito, não pensei duas vezes e pedi uma copia do áudio.

Ela pediu sigilo, enfim….

Na época eu tinha um namorado na faculdade com quem partilhava a paixão secreta pelo Milton, ele gravou a entrevista em um CD  que ouvíamos dentro do carro de manhã cedo  indo da Tijuca para UFRJ, escutávamos consecutivas vezes, voltando trechos, pausando e discutindo, com direito até mesmo a uma cena absurda em que ele contava um caso de um professor que propunha um problema de física teórica pedindo que os alunos calculassem a probabilidade de uma bola de ping-pong atravessar uma parede de concreto, e nesse justo momento uma bola de futebol surge no meio da rua e no instante seguinte ouvimos um estouro em baixo do carro, nos entreolhamos assustados e falamos desse evento por dias e dias.

Por conta da voz presente sem que o estivesse ali, nos brincávamos dizendo que parecia que ele estava falando de dentro de nossas cabeças. A fala tem tantas nuances que se perdem em uma entrevista transcrita. Acredito que como artista um de seus suportes seja certamente a fala, onde como em muitos de seus trabalhos se expressa a sua potencia de encadear acontecimentos transhistóricos e tudo isso com humor, perspicácia e muita ironia.

Ano passado estava envolvida em uma pesquisa sobre a potência crítica da escrita experimental na arte, e quando o grupo resolveu fazer as investigações através de entrevistas pensei imediatamente no Milton, nos seus trocadilhos, aliterações, duplos sentidos e toda sorte de agenciamento de informação. Depois de trocar alguns emails, marcamos uma conversa na sua casa em Santa Teresa. Eu lembro de ter entrado e me sentado ao sofá, durante quatro horas ele falou sem pausas, eu ali com um caderninho e lápis, mas era como tentar reter água  nas mãos em concha, coisa sabidamente impossível. Fiquei de enviar um outro e-mail com  perguntas, coisa que nunca aconteceu. Poderia empilhar mapotecas cheias de motivos para me explicar, no entanto um dos que caberiam nesse texto foi que sentia que tudo aquilo devia fazer sentido, mas ia muito além das minhas possibilidades de compreensão, eu estava diante de um homem muito abrangente.

O que posso relatar da minha experiência durante a exposição atualmente no CCBB foi que me senti apaziguada por entender que ele é uma espécie de explosão, um universo se expandindo-indo-indo e que não temos que ter a pretensão de apreender, apenas desfrutar como um nômade o momento presente e atravessar o espaço que se constrói e desconstrói a cada passo.

 

Aleta Valente e Jandir Junior, setembro 2014

 

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