#8 Edição/literatura/poesia

Os poemas de Gregório

1

Poesia é coisa de velho. Pra começar. Como escrever um “Não se mate, Carlos, a vida/ é isso que você está vendo“)¹ sem a maturidade necessária para tanto? Sem soar pedante ou vazio? Tenho que este poema, Não se mate, é de uma beleza para um jovem, e uma tristeza para alguém de mais idade. Pra quem esteve à beira do abismo ele é só trágico mesmo. Como um jovem escreve poesia, então? Considerando que não são poucos os que se aventuraram pelos caminhos do verso…

A juventude me parece um misto de fantasia e clichê. Imagino que, vivesse eu uns 200 anos, vendo as gerações sucederem umas às outras, tornar-se-me-ia cristalino o desfazer da maioria das ilusões. Já disseram que o começo da vida é marcado pela expectativa, e o final pela ansiedade. Papo de velho.

Qual o papel (com o perdão do trocadilho) qual papel da poesia de um menino? Que ainda flutua entre a repetição de um discurso absurdo e a inconsistência de uma curta experiência? Como fazer poesia quando tudo é novo e a vida mesmo, matéria-bruta, ainda não deu de todo as caras?

Me ocorre que errar é o melhor que faz um poeta novo. Mais: errar sem vergonha (sentir orgulho, aliás). Errar com convicção, minuciosamente, pra que o tempo se torne contínuo depurar deles. Que erros pedagógicos, acertos são.

É o que vejo em “A partir de amanhã a vida vai ser agora”². Um menino abusado metendo o nariz onde não foi chamado. Um registro de todas (ou das melhores) inconsequências. Onde há uma evidência da passagem do poeta, como se desse pra ver na tela a pincelada.

Já ouvi o autor falar que escreveu o livro durante a faculdade (de letras). Bem sei que um poeta forma a si mesmo; mas taí uma bela lição de poesia: aprender dos mortos com os seus erros, não seus acertos. Como se todo poeta herdasse uma coleção de tentativas, de fracassos que não mais cometer, onde não mais se iludir.

Gregório percorre séculos e gerações de equívocos, do soneto ao poema concreto, do verso sófico à blague. E ao longo do livro um espírito infantil percorre e dá vida, momentaneamente, às ilusões perdidas, aos cânones tão caros aos antepassados. Se aproveitando deles com um compromisso lúdico para consigo mesmo e sua criatividade, que no fundo é curiosidade. Como uma criança experimenta com deslumbre as peças do armário do avô.

2

A poesia corrosiva de Gregório leva mentes sutis a atentar para os mecanismos sutis da língua: suas constâncias e descontinuidades, encontros de fonemas, rimas internas… Por fim, leva ao vislumbre instantâneo do que chamo blá-blá-blá primordial. A saber: trata-se da consciência da arbitrária conexão entre um vocábulo e seu significado. (Taí um exercício, ouvir sem entender: será possível?)

E EIS que
faz-se
do di
fícil
fác
til

O título do 1º segmento do livro, “Epifanias para colar na geladeira“, é muito preciso, e não fosse o fato de eu ser muito apegado ao livro, faria isso mesmo: arrancaria página por página, uma por dia, e pregaria na geladeira, pra mais tarde perguntar à Maria o que ela achou…

nessa noite escura
como um brownie
você está ainda
mais colorida
que a mesa
do Guimas e nós
estamos leves
como dois
ventríloquos no pilotis

– a fera na selva-

Não sem um que de blasé, a primeira parte recolhe o que parecem ser figurinhas clássicas ao baixo gávea. As meninas breves em poemas curtos e duros como as esquinas. A poesia de chinelo, só que não porque não pega bem chinela à noite.

esperar: esperar sem
qualquer esperança
eu te espero como quem
espera o um-cinco-oito
central-gávea passar na
praia de Copacabana.

As imagens que a 1ª parte recolhe são sem graça feito o baixo gávea.

você
com esse vestido
colore o mundo como
uma televisão fora do ar.

– Catharina –

Falando em baixo gávea, a 2ª parte do livro tem por nome “Psicotrópicos”. É um respiro de bobagens bem-vindo em meio àquela (antes “difícil”, agora “fáctil”) desestruturação da língua-poética, que me parece ser o jeito dele de se encontrar na poesia.

NO MEIO DA ONDA do doce
tive a certeza de que iria morrer
e pensei que se morrer fosse aquilo
eu queria morrer todo dia muito.

– sem nome –

A próxima parte, de nome “poemas para o meio do livro” é exatamente isso. O processo já está em plena ebulição, a língua corre solta, quebrada por uma métrica tímido-engasgada, mas suficiente pra extravasar sua pretensão e rigor. Me é claro que ali ele busca algo, que não sei bem, e talvez nem ele:

(daí a tristeza, essa vontade de algo
que ainda não inventaram)

Bem verdade que o livro segue num tom tedioso e trivial, às vezes, mas, a meu ver, essa é a grande sacada: tirar poesia do nada, vê-la brotar do tédio da rotina. Cada um tem a realidade que escolhe/merece/recebe ( conforme a orientação político-teológica conveniente), mas nos mostra Gregório que a poesia está com ele, independentemente. É esse processo, acredito, que vai culminar em seu melhor poema, constante do 2º livro (e que merece a transcrição)

“Difícil ser feliz nas festas de Santa
Tereza ou sentado nas escadarias
da Lapa por melhor que seja
sua companhia é difícil ser
sinceramente feliz na
pizzaria guanabara às
cinco da manhã em
meio a pedaços de
pizza fria e o cigano
igor de chapéu há
lugares em que
você sabe que
não vai ser
feliz mas
vai”

– pizzaria guanabara –

Quatro poemas a régua e esquadro” é sua incursão pelas sendas da poesia concreta. Acontece. Ebriedade inebriada… Brincadeira. Sigamos.

Sonetos úteis para o dia-a-dia” é exata expressão de uma tendencia a poesia prática e funcional, digamos. Se em “poemas para o meio do livro” a língua corre solta, em “sonetos úteis…” é o rigor quem dá as caras. A poesia vestida de gala, nos trinques. Me diga você, leitor, o que achou:

Pegue um papel, ou uma parede, ou algo
que seja quase branco e bem vazio.
Amasse-o até que tome forma
de um animal: focinho, corpo, patas.
Em cada pata ponha muitas unhas
e em sua boca muitos dentes. (Caso
queira, pinte o focinho de qualquer
cor que pareça rosa). Atrás, na bunda,
ponha um fiapo nervoso: será seu
rabo. Pronto. Ou quase: deixe-o lá
fora e espere chover nanquim. Agora
dê grama ao bicho. Se ele rejeitar,
é dálmata. Se comer (e mugir),
é uma vaca que tens. Tente outra vez.

– Receita para um dálmata –

Erguer antes de tudo uma parede –
a parede no caso é importantíssima,
pois as janelas só existem sobre
paredes, as janelas sobre nada

são também nada e não são sequer vistas.
Em seguida, quebrá-la até fazer
nela um grande buraco, não maior
que a parede, pois precisamos vê-la,

nem menor que seus braços – as janelas
sobre as quais não se pode debruçar
não são janelas, são buracos. Pronto.

Ou quase: agora basta construir
um mundo do outro lado da parede,
para que possas vê-lo, emoldurado.

Me parecem afluir dois sentimentos motrizes, que ora se aproximam ora se afastam: um pretensioso, que professa sobre coisas vagas e elevadas (a tal repetição de um discurso absurdo); outro lúdico, meu predileto, que trata das aparências enquanto tal. Que não espera nada do mundo, pelo contrário, ainda empresta a ele um pouquinho da graça que tem.

A última parte do livro será obliterada visando a economia de tempo, que essa juventude não espera. Dito isto, ficam ainda 2 coisas por dizer: uma é que a primeira vez que eu li o livro, tinha acabado de comprá-lo do autor, no Baixo Gávea, e ali mesmo li. Talvez isso me tenha influenciado. Coisa número 2: Todo livro de poemas de autor jovem é ruim (e pra quem provar que eu to errado, eu tiro meu chapéu). À parte isto, como falei láa no começo, errando também se aprende, inda mais assim, tamanha entrega e sinceridade. Disso eu gosto.

1. Nao se mate, de Carlos Drummond de Andrade
2. Gregório Duvivier publicou o livro “A partir de amanhã eu juro que a vida vai ser agora” pela editora 7 Letras em 2009.

 

Santiago Perlingero, julho 2014

 

…………………….

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