#6 Edição/poesia/tradução

A casa de YashQuish

De Mario Santiago Papasquiaro (1953 – 1998),  poeta mexicano que fundou junto com Roberto Bolaño o movimento Infrarrealista na década de 70. Sua poesia se caracteriza por uma escrita forte e ácida, fruto do que o poeta convocava para si como forma de existência.  Mario Santiago lia até tomando banho, como descreveu Roberto Bolaño certa vez. Publicou pouco em vida, e tem sido recentemente resgatado em pesquisas e antologias. Morreu atropelado depois de começar a praticar longas caminhadas sem olhar para os lados. Paspaquiaro é o famoso Ulisses Lima, principal personagem do romance Os Detetives Selvagens, obra crucial de Roberto Bolaño.

A CASA DE YASHQUISH

Para Roberto Bolaño, a quem já apresento como meu Maharischi 1
e iniciador de 1 movimento cujo nome ignoro
& ao qual prometo realizar-me plenamente

A poesia sai de minha boca,
aflora as narinas / o pênis
inesperadamente
o estremecimento
o resplendor
& a baba também
& os pelos arrancados neste tempo
a força de domá-lo
& libertar-lhe o ciclo
& a caspa / & a petrificação
das tantas ervas e raízes
deste mundo/ que antes de
morder nos vemos obrigados
a cuspir…
A poesia sai de minha boca,
de meus punhos, de cada poro
inevitável de minha pele
deste meu lugar volátil, aleatório
alocado nos testículos
afiando sua adaga / suas fúrias
sua propensão manifesta a
explodir / & acender o pavio
em 1 clima de geladeira
onde tanto faz
a faísca ou a chama
nem um solo constipado
que mereça chamar-se constipado
nem 1 só caso de febre
digno de se consignar neste
meu imóvel país
A poesia sai de minha boca,
com pelos e antenas
& uns olhos de mosca/
com os gorjeios de 1 canário
enjaulado / & os bocejos
cacofônicos bocejos do zelador
do zoológico /
Noite & dia / vermelha & negra
com os ovários de 1 muchacha
com a voz rouca de 1 muchacho
com o olhar vacilante
mas raivoso / belamente raivoso
de 1 menino bicha que não
quer que o escondam em 1
barril sem fundo
A poesia sai de minha boca
com o limpo negrume do petróleo
com o brilho eloquente de 1 lâmpada de 500 volts
com a emoção & o orgulho
de uns bíceps
donos de seu mundo
(& dentro da relatividade
do mestre Einstein):
Poderosíssimos
Com as cores de 1 vestido
feito com retalhos de tecidos /
com os sons confusos
caoticamente harmonizados
de centenas & centenas de berrantes
distintos /
1 dia de engarrafamento
na periferia
Contra vendavais e inundações
(& de certa maneira a
favor deles)
contra casas de portas fechadas
contra solas verminosas
contra cirroses para além
do fígado /
contra garrafas de refresco
cheias de ureia /
contra meninos & meninas
castrados / congelados
no dia de seu nascimento /
contra as toneladas
de terra & lixo
que caem sobre nós,
quando o que 1 quer
é se mostrar alegre & belo
como demonstração palpável
de 1 novo “renascimento”
Saltando e correndo com os
velozes / metendo 1 fósforo no
rabo dos lerdos /
planejando almoços & saraus
com os lúcidos /
incultando-lhes grandes
desejos de solucionar
os problemas / de Áries a Peixes
de segunda a domingo /
de janeiro a dezembro
do dia 1º ao dia 31
da mesa corroída no chão
à teia de aranha dançando sobre
o telhado /
de arrebentação em arrebentação
da impressão de 1 homem das cavernas
ao ver pela 1ª vez 1
mulher nua /
o último Ah de um “fulano
qualquer” quando estoura a
3ª Guerra Mundial /
visitando doentes
cumprimentando sadios
conspirando no subterrâneo
sabotando sobre a terra
hesitando / avançando
tomando seu trago
saboreando-o
gargarejando-o
massageando-o
injetando-o
/ coçando, arranhando
por 1 sol da meia-noite
como 2 apaixonados se cavando
como 2 apaixonados se alargando
até suas últimas possibilidades
os significantes & o significado
do sistema Braille
como 1 embriaguez de
girassóis em círculos / como 1
coroa de dálias a flor
favorita de Judith /
como 1 toque de marijuana
& tocas o Nirvana com as mãos
moves 1 dedo, & se dá conta
arrancas a relva & te sorri /
uma larva criada / larva de
terra vermelha que não te conhecia
Como 1 grande psilocibina²
que faz da pedra farinha
de tuas 4 paredes /
& te põe na proa do cometa Kohoutek³
& deixa tua jarana, ao relento4
toda tua extensão
tua abreviatura
pronta a se sacudir /
a não esquecer a fúria justa
pelas sacanagens injustas /
mas enriquecê-la
mas fortalecê-la
do pavio à dinamite,
mas explorá-la
a revirar-lhe a pupila
Agora canta o que chorou
faz tempo
Grita / Salta / Monta / Ejacula /
aquele fulano, já dado
por morto /
Agora os cantos duros
as canções suaves / as trombetas
& o gosto que fica daquele que cuspiu
a terra & as remelas
com que haviam tapado os olhos /
A poesia sai de minha boca
a todo impulso de gerúndio
a todo fluxo de água potável
a todo vírus luminoso
a toda capacidade de contágio
Assim vai a poesia /
& para ela
não tenho senão louvores

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1. guru indiano fundador da meditação transcendental.
2. psilocibina* – cogumelo alucinógeno associado ao movimento hippie e usado na medicina tradicional asteca-nahuatl. Os astecas o chamavam de carne dos deuses.
3. Kohoutek* – cometa visível da Terra no ano de 1973
4. instrumento de cordas típico do México.

Tradução de Italo Diblasi e Pollyana Quintella, maio 2014

 

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