#5 Edição/poesia

poeta

poeta, você de boca
torta mas nem tão torta assim
de pele lisa mas nem tão lisa
assim de pelo escuro mas
nem tão escuro assim
você que não pode sentir
o calor das cadenas – quem
te prefere? já tive mulheres
nas três cidades e em todas
elas me disseram: poeta,
você de punho forte mas
nem tão forte assim de
pescoço rijo mas nem
tão rijo assim – quem
te prefere?

acabem com as estradas,
tampem as janelas as portas
o cuidado matinal do filho
que sai para escola o beijo
na viúva do décimo andar
o cumprimento ao porteiro
acabem com as poças do
centro da cidade acabem
com as próprias cidades.
poeta, você de beiço largo
mas nem tão largo assim,
de roupa farta mas nem tão
farta assim, de curva sonsa
mas nem tão sonsa assim
– quem te prefere?

à imagem e semelhança dos
postos decididos da última
esquina quais serão os edifícios
modificados pela palavra
quais serão as intermitências
do sexo a morte dos príncipes.
poeta, você de palavra rocha mas
nem tão rocha assim de silêncio
cúmplice mas nem tanto assim
de retrato insosso – quem
te prefere?

 

Irene Baltazar, abril 2014.

 

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