#13 Edição/poesia

sombras de goya

meu amigo, estais enlutado,
com alguém que acabou de perder o esteio
mas que sabe que a vida continua.
e continua, e é preciso ironizá-la.
choras porque sabes que o caminho não é tão curto,
que encontrarás nas árvores mais altas a flor nascendo
e que o fruto, se não comido, apodrecerá.
a vida é dura e não serás tu, homem pequeno,
capaz de amolecê-la com tuas lágrimas.
na vida, o difícil é viver:
as dores te sorriem como criança;
e esmorece teus sentidos e entendimento:
trabalho, força, categorias ideológicas
e classificação de mundo. nada vale a pena, percebes?
perdeste. antes sentias falta; agora não careces mais.
estais perdido, meu amigo,
e tua hermenêutica te consome
como num jantar servido às sete horas para os homens da rua.
e automóveis te atropelam
e tu permaneces vertical,
no suplício do corpo
e vértebras que não suportas.
teus olhos clamam; tu és agora um ser exaurido de lágrimas.
e te escassa as mãos do tempo
na memória dos sonhos perdidos.
és completa perda,
embora ainda escute o canto dos pássaros
que à tua janela vêem dizer-te as novidades primaveris.
mas as cores novas não te importam,
mesmo todas as cores elementares à convivência
te perturbam, excluindo-te das melhores noites de sono.
esse crepúsculo caótico
que muitos valorizam
te abraça com um adaga em punho,
e cortar-te-á em pedaços insignificantes
que ninguém, na consolação,
ousará recobrar.
todavia ainda és tu, fragmentada substância mortuária,
sabido que teu caminho é apenas um,
assim como de todos,
na aurora mais cinzenta.
não recordaras o fim.
dele só restará as cicatrizes abertas
por onde teu coração transbordará.
antes do fim, amigo, eu me reconheço em ti,
e sei que esse tenebroso, telúrica farpa de cristo,
o nunca-mais de um deus falido,
o escoamento de um mundo inchado
e secreção de uma vida inteira,
na poesia, que sei que tu valorizas,
há de nascer a manhã nas palavras mais frias
e indizíveis na hora final.
deitarás nas malhas do eterno
sob a condição de alimentar a natureza.
teu físico se confundirá na rotina dos vermes,
na vida dos vermes.
a eles, o teu amor.

 

Rodolfo Teixeira, dezembro 2014.

 

…………………….

Um pensamento sobre “sombras de goya

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