literatura

Aconteceu ontem mesmo – conto de Irene Baltazar

uns uns, os que vieram, e trouxeram roupa comida agasalho. e diziam e comemoravam e andavam às custas dos outros, os que vieram, e depois disseram que não vinham mais. não se soube mais disso ou daquilo disso ou daquilo, foi-se, como se foram os mancos, os outros e os que vieram depois. de início todos quiseram participar, chegaram e trouxeram bebida comida sentaram à mesa. não se via quantos, os mancos, e os outros, os que vieram, e cantaram juntos como se canta sempre, há tempos, disso e daquilo, isso e aquilo, nós e nós e vamos chegando. as paredes pintadas de ouro, as paredes pintadas de prata e o vento onde não há paredes. e chegavam, vieram uns ratos, aos berros, uns e uns, como se via nos tempos, nos velhos, é certo dizer. e cantaram como cantam sempre, disseram amém e repetiram e os outros e os mancos seguiram. relato que houve fila e comeram e beberam mas não havia muita proteção para o frio, os agasalhos, todos poucos, e os mancos reclamavam, não se pode ser tão ágil assim, e os ratos confundiam se queixavam se faziam malentender, é certo. os outros, os que vieram primeiro, uns e uns, e graniam e guinhavam rrr rrr. impreciso dizer quando e como. chegaram os roucos e não puderam cantar, trouxeram ervas chás especiarias da índia e todos felizes, e os roucos batiam à mesa e não gritavam, acompanhavam o ritmo, e os ratos se batiam se embrenhavam no mato alto, ninguém sabe por onde, ninguém faz questão. e pediram lave a louça, traga o garfo, um copo dágua, e lavei e levei e bebi. responderam: agora dança e dançar eu não podia, como os outros, os mancos e os ratos. inclusive os roucos, os que mais dançavam. desci, e pediram dois três quatro, e fiz. rápido rápido. e vieram, uns uns, os que riem os que sangram os que pedem, sem nem saber a conta, e fizeram cálculos, retornaram números, elevaram às tantas que já nem se podia precisar. e tocaram, os roucos, instrumentos felizes, como se via, como era certo se ver. pediram, ai ai, um e dois e três e quatro e quando se faziam entender até os ratos voltavam depressa. quer queira ou não, sussurravam uns aos outros e a mim já não me fazia graça. e dormiram, todos, uns e outros, como encampados, se sabe. e pediram e rodaram e os agasalhos já nem serviam, fizeram fogo, os ratos, e todos se puseram a cantar como cantavam antes. e os chás e as especiarias da índia e chegaram mais outros, ninguém esperava, e eu já nem queria. acordaram dormiram acordaram dormiram. como há de ser, é pouco, como muito foi e tudo. pediam traga o disco os instrumentos, onde começa e acaba. os pingos, a chuva que se anunciou tarde e todos correram, os pingos, is e is e is e como se fossem mais que fortes trovões apareceram nos céus os clarões e correram e saíram quiseram entrar e eu não deixei quiseram entrar e fiquei na porta  quiseram entrar e falei ande façam logo, e as barracas e os ratos e os roucos. os mancos gostaram da chuva e deitaram no chão, e vinham raios e os raios desciam e subiam, e os ratos e os roucos e outros que vieram pediam abre a porta e mandavam abre a porta e eu não fiz. uns uns, os que vieram, e se perderam pela noite de chuva, alguns choraram e desciam lágrimas escorriam, e os trovões e os barulhos e as chuvas, e os mancos poderiam até ficar por ali não ligavam. então fui me embora dormir porque minha mãe sempre repetia uma chuvinha de nada não mata ninguém.

Irene Baltazar,

abril de 2017

 

…………………….

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s