pensamento/poesia

Considerações sobre o poeta dormindo – João Cabral de Melo Neto

Tese apresentada ao Congresso de Poesia do Recife, 1941

“O sono, um mar de onde nasce
Um mundo informe e absurdo,
Vem molhar a minha face:
Caio num ponto morto e surdo.”
– Willy Lewin

Creio que a escolha da palavra “tese” para designar os trabalhos que seriam apresentados neste Congresso, foi mais uma obediência inconsciente, não pensada (fico mais certo disso cada vez que reflito nos nomes dos seus principais organizadores), a uma praxe seguida no comum dos Congressos, do que a exigência de se verem provadas com evidências científicas (evidência das coisas) essas realidades do espírito, diante das quais todos os nossos movimentos são, mais ou menos, como movimentos sonâmbulos. Pois foi pensando na desnecessidade de demonstrar uma tese (eu sei que todos compreendem perfeitamente que o assunto do qual tentarei falar aqui, é um desses assuntos em que são mínimas as possibilidades de demonstração), que me animei a chegar ao fim destas considerações, as quais tentei em vão, dar um desenvolvimento e uma ordenação lógicos.

I

Diversas pessoas têm falado no sono como trampolim para o sonho, essa fuga efetiva do homem às dimensões comuns do seu mundo. Eu tentarei falar aqui do sono em suas relações com a poesia (relações secretas, porém não apenas: suspeitas), do sono como fonte do poema.

Penso que estas palavras exigem uma definição, sobre a qual me apresso em insistir: não creio existir nenhuma relação de natureza entre o sono e o sonho (e neste caso estariam aqueles que consideram o sono apenas a parte “não iluminada”, a parte em que não existe a “projeção” que é o sonho, um desses intervalos de sessão cinematográfica em que o filme se parte e ficamos inteiramente mergulhados no escuro). Antes, uma diferença de causa e efeito.

II

Há inegavelmente, nos críticos e poetas de hoje, uma decidida preocupação com o sonho. Fala-se nele muito frequentemente. Quando se escrevem poemas procura-se fazê-lo com a linguagem do sonho. Pode-se dizer que em torno do sonho estão limitados os estudos contemporâneos de psicologia. Já repararam em todas essas seções que os jornais e revistas mantêm, de “interpretação dos sonhos”? Em todas essas aplicações práticas que se fazem hoje do seu mistério (sem nenhuma humildade), esquecendo-se completamente seu mistério e sua sombra?

Sei bem que a atitude do homem, ou por outra, que nossa atitude diante do sonho é um dupla atitude, é uma atitude (deixem-me empregar uma imagem que é tão comum a certa classe desses pesquisadores) de quem come o sonho e de quem é comido pelo sonho. Sinto muito bem, igualmente, que não saberei falar da parte de erro que essas visões comportam. O que eu procurei, tentando assinalar o modo como o sonho enche a vida do nosso tempo, foi apenas fazer uma constatação que vejo como um dos argumentos para chegar ao fim que persigo. Refiro-me a isso que, como a obra de arte, o sonho é uma coisa sobre a qual se pode exercer um crítica. O sonho é como uma obra nossa. Uma obra nascida do sono, feita para nosso uso. O sonho é uma coisa que pode ser evocada, que se evoca. Cuja exploração fazemos através da memória. Um poema que nos comoverá todas as vezes que sobre nós mesmos exercermos um esforço de reconstituição. Porque é preciso lembrar que o sonho é uma obra cumprida, uma obra em si. Que assiste. Esta fabulosa experiência pode ser evocada, narrada. Como a poesia, ou por outra, em virtude da poesia que ela traz consigo, apenas pode ser transmitida.

III

Contrariamente ao sonho, ao qual como que assistimos, o sono é uma aventura que não se conta, que não pode ser documentada. Da qual não se podem trazer, porque deles não existe uma percepção, esses elementos, essas visões, que são como que parte objetiva do sonho (gostaria que fosse percebida sem outras explicações o sentido em que emprego aqui a palavra: objetiva). O sono é um estado, um poço em que mergulhamos, em que estamos ausentes. Essa ausência nos emudece.

Creio ser necessário, antes de darmos as relações do sono com a poesia e o poeta (essas relações constituindo o assunto destas considerações), nos determos, embora de passagem, nas relações entre o sono e o sonho que numa procura de síntese assinalei no início como relações de causa e efeito. Nesse sentido, o sono não só provoca o sonho, não só tem no sonho sua linguagem natural, como também o condiciona.

É o fato de estarmos adormecidos que dá ao sonho aquelas dimensões, aqueles ritmos de escafandristas às coisas que se desenrolam diante de nós. Aquelas distâncias, aqueles acontecimentos nos quais não podemos intervir, diante dos quais somos invariavelmente o preso, o condenado, o perseguido. Contra os quais não podemos de nenhum modo agir.

Não sei se será adiantar-se demais pelo terreno do “literário”, dizer que é possível reconhecer em todos esses elementos que compõe o clima do sonho, esse clima que como o da poesia, é um clima de tempestade, uma imagem da própria aparência do homem adormecido. Ambos: os acontecimentos do sonho e o homem adormecido, profundamente marcados pela presença mesma do sono, essa presença que não é de nenhum modo, apenas a ausência de nossas vinte e quatro horas, mas a visão de um território que não sabemos, do qual voltamos pesados, marcados por essa nostalgia de mar alto, de “águas profundas”, para empregar a tradução que Americo Torres Bandeira faz das desconhecidas sensações nele provocadas por uma anestesia de clorofórmio. Como não reconhecer essa presença do sono na atitude do corpo de quem dorme, nessas poses não raro trágicas (irônicas), nas palavras que se quer balbuciar, na fisionomia em que adivinhamos, inegavelmente, os sinais de uma contemplação, e que é sob outro aspecto, um sinal de vida?

IV

Talvez eu deva novamente insistir nas dificuldades que existem em se falar de um assunto em que é tão considerável a parte do vago. No meu caso essa dificuldade se multiplica em impossibilidade. Impossibilidade de poder, por exemplo, penetrar no mistério de “olhos abertos”, e com essa segura tranquilidade, aventura tão comum mas que ainda não deixou de me espantar em Paul Valery.

Além de tudo, porém, uma observação se faz necessária: a poesia não está no sono, no sentido em que ele constitua um reservatório, do qual, em sucessivas descidas, o poeta nos aporte os materiais de seu lirismo. O sono predispõe à poesia. Reconheço que o próprio elemento, o sono em si, a própria palavra: sono (feita de sons que parece se prolongar no escuro; a voz do homem falando no escuro), são coisas enormemente poéticas. Entretanto, a ação do sono sobre o poeta se dá em outro nível que o de simples material para o poema. Num terreno em que ele deixa de ser um objeto e se transforma como que num exercício, num apronto para o poeta (no sentido esportivo do termo), aguçando nele certas aptidões, certa vocação para o sobrenatural e o invisível, certa percepção do “sentido oculto das coisas inertes”, da fórmula de Pedro Nava.

V

Tentarei agora, embora com risco de cair numa generalização grosseira (numa generalização de aparências) indicar os dois tipos dessa influência do sono nas obras de fundo poético.

Antes de tudo, há a parte de “aventura”, como diria Murilo Mendes, o que de um certo modo já sugeri acima, escrevendo que o sono predispõe à poesia.

Ainda aqui penso existir dois tipos nessa “predisposição”, um deles realizado pela idéia de abstração do tempo, de “fuga” do tempo, que Jorge de Lima considera “a pedra de toque do verdadeiro poeta”, e que no sono se reveste de um caráter, já não mais “ideal”, de pensamento, mas efetivo.

O outro, realizado por essa idéia de morte a que o sono se associa para o poeta (seria interessante mesmo notar a insistência desse tema na poesia moderna; desse medo de acordar piano, como disse Newton Sucupira; e certamente a quem se propusesse esse trabalho haveria de espantar essa “tranquilidade” com que se morre – que é a meu ver um fenômeno bem aproximado dessa preocupação de fugir que tanto agita hoje em dia a humanidade acordada); o sono sendo como que um movimento para o eterno, uma incursão periódica no eterno, que restabelecerá no homem esse equilíbrio que no poeta há de ser, necessariamente, um equilíbrio contra o mundo, contra o tempo.

VI

Uma outra observação a fazer (este sendo o segundo tipo de influência do sono sobre o poeta) é a de que o sono promove esse amálgama de sentimentos, visões, lembranças, que segundo Cocteau fará o verdadeiro realismo do poeta. Pode-se dizer do sono que ele favorece a formação de uma zona obscura (um tempo obscuro), onde essa fusão se desenvolve (os nossos sentidos oficiais adormecidos) e de onde subirão mais tarde esses elementos que serão os elementos do poema e que o poeta surpreenderá um dia sobre o seu papel sem que os reconheça. Sobretudo, favorece aquele recolhimento, aquela presença em si (o poeta andando a longas pernadas dentro de sua noite), cujo efeito sobre o poeta, um grande poeta comparou ao de uma verdadeira purificação do espírito (Raissa Maritain).

VII

Talvez seja minha obrigação, agora que termino estas considerações, senão resumir-me, ao menos identificar a presença do sono nas obras de fundo poético, presença aliás que preferi sempre chamar: influência, por me parecer que o poeta, não tendo uma percepção objetiva do que acontece durante o sono, não poderia assumir em sua obra um caráter de presença, em imagem, ou coisa formulada. Assim, pode-se adiantar que o sono não inspira uma poesia (a poesia moderna, por exemplo, coisa que se dá inegavelmente com o sonho, cuja mitologia é a da própria poesia moderna), no sentido em que o poeta se sirva dele como linguagem ao seu uso. Apenas, fecunda-a com o seu sopro noturno – o hálito da própria poesia em todas as épocas.

 

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