cinema

CAMINHOS PARA OUTRO CINEMA nº 7

Três ventos, dois vácuos e uma espada

Não produzimos apenas cinema,
Mas posições de vida.
Sérgio Bernardes

1. O cinema como arte marcial

Entre dois ventos existe um vácuo. É por ele que desliza o olhar da espada. Esse é o movimento que funda os quipos do cinema, antes dos gênesis das coisas. Dizemos que o cinema existe antes de tudo porque sempre houve um vento entre dois vácuos ou um vácuo entre duas coisas e uma filosofia arcaica generalizada. Entre dois volumes ou dois ventos está o território primordial do olhar, e a noção da tempestade cinematográfica, da mente que vê. Se a mente der círculos em torno de objetos, ela não os vê. Somente quando elas entram no vácuo que eles possuem. Seminais. Um objeto pode ser uma sociedade e deve ter um vácuo em seu centro. Quanto mais compacto o objeto, mais oculto o vácuo. Mas todos eles o possuem. Para se juntar essas imagens num único gesto é preciso saber colar vácuos. Os vácuos colados perfazem um gesto único onde o guerreiro dá uma volta completa com sua espada longa em um único círculo. As sequências desses círculos de decapitação, evacuação e batismos produzem uma sequência de significados, quipos¹, a obra.

2. A obra

Se uma obra consegue se construir em sete quipos (corpos de significado), ela é uma obra consagrada. Esse quipos podem ser constituídos por sete segundos ou de sete medidas desconhecidas de tempo. Todas elas são reais. Sete círculos de significados consagram o valor que os humanos denominam de “valor para a espécie de uma obra”. Esses sete círculos foram feitos. Pode-se encontrar outros.

3. A misericórdia

A misericórdia é a revelação para o outro de que ele está dormindo. Não revelarei o nome do autor que a fez nem quem praticou esse ato.

4. Um amigo

O diálogo é também a ausência de um “vácuo entre dois ventos”, o não diálogo. O amigo é o vazio por onde passo a espada longa, o ar, e voa. A espada atinge o êxtase em voo assim como o aço. A espada alada. O êxtase existe em potência, também. O grande diálogo não deixa de ser sempre o grande vácuo, em potência cósmica. Os antigos dizem: “não dê poder ao pequeno”. Não darei. E os medievalistas: “uma espada se afia na outra”.

5. Citar e não citar

Não cito o nome dos grandes diálogos, por um treinamento meu na filosofia arcaica. Apenas aponto os tecidos das suas vestes, as suas texturas e as suas cores e sugiro a sua potência. Entre os nascentes fetais brasílicos na sua visão superior, que arremetidos ao abismo do litoral, nas fraldas dos Andes, e somente por isso atingem as fronteiras das potências, isso é dito como: “Não descrever nunca uma miração”. Não descreverei.

6. A falta

A falta se dá pelo choro, que ele mesmo recupera o êxtase original, anteriormente em deslinha pela horda incontável dos inimigos tropicais. Entes não estudados por Pasteur, macrobactérias desconhecidas, hordas de deserdados pela genética. Alíquotas das leis de Mendel.

7. A forma

Uma forma arremessa para outra forma e quanto mais a primeira for estranha em relação a segunda, maior o valor do gesto. O cinema é o berço original desses gestos. Da gestuação inclusa. Inaudita. Extática.

8. A ausência

Somente a ausência do cinema pode possibilitar a presença do cinema. O autor deve poder passear livre pelo mundo, pelas ruas e pelas montanhas apenas com a roupa do corpo.

9. A sociedade conservadora

A sociedade conservadora é um erro da evolução das espécies e simultaneamente a origem de todos os seus erros. Sem exceção. Seu objetivo capital é o de evitar o êxtase. Sabendo por instinto que é inflexa, tem na natureza o seu maior inimigo. Por isso, movimenta todas as forças contra ela. Como a natureza, por definição, não tem inimigos; essa é a sua maior audácia e o seu drama mitológico primordial.

10. O inimigo

O inimigo é aquele que perdeu a chance de ser amigo. Darwin definiu isso no seu Tratado das espécies. Existem três tipos de inimigos: os desatentos, os não nascidos e os retorcidos. Esses são inimigos dos projetos animais. Vocações subterrâneas eliminam os seus antagonistas. Em Roma foi sempre assim e, idem, em cidades ao longo dos lagos altos. Os movimentos revolucionários dos mares.

11. …………………..

Foi o francês Jean-Paul Sartre quem inventou a frase “o inferno é o outro”. Eu, a partir do Brasil, invento a frase “o paraíso é o outro”. Nisso se constitui a noção de falta.

12. O sistema da arte

O sistema de arte precisa passar por uma análise revolucionária tão grande como o sistema de classes. Os seres devem poder se dirigir diretamente aos produtores de arte, aos artistas, sem mais-valia. O sistema de arte se encontra num ponto pré-Engels e pré-Marx. Devastado por todas as espécies de mais-valias. A revolução não é cogitada nas artes e precisa começar. Na arte latina nem a Reforma foi feita. Nem John Knox (1514-1572)². Tudo é marcado, e as 95 teses de Lutero ainda não foram pregadas nas portas das galerias. A análise revolucionária do sistema da arte é o ponto basilar de um início possível que cale os que calam a potência da potência, por uma ordenação social da arte abstrusa de lesa-majestade contra a imaginação. Nem a mais-valia do tráfego gladiatorial e de influências nem “o sacerdócio universal dos praticantes” de John Knox estão falados na arte latina. Tudo ainda passa pelos crimes do Santo Ofício, pobres e ricos, bons e famintos. E, sobretudo, os que imaginam o ar tremendo sobre a superfície do mar.

13. Eles não disseram

Eles não falaram, mas o cinema é o ponto capital da evolução das espécies. A possibilidade de fazer os significados e as classes de seres habitarem a mesma luz, sem convite. Sem serem sequer chamados. Essa é a remissão automática do tempo. O imo do cinema.

14. Declaração de amizade

Eu não te vejo acima das coisas, pois isso eu só faço com o Sem Nome. Mas no meio das coisas, das pedras e das flores glaciais das grandes árvores e dos povos esquecidos das tempestades e das espadas reluzentes das guerras esquecidas, eu te vejo. E te verei sempre. Somos comuns. E o combate nos ama.

15. Termo de posse

Possuo a chave de um tesouro.

16. O Brasil

Há um capítulo que não foi escrito.

Guilherme Vaz
Rio, novembro, 2007.


Texto publicado em Sérgio Bernardes: cinema é miração, edição realizada para o 40º Festival do Cinema Brasileiro, Brasília, 2007. Republicado em Guilherme Vaz – uma fração do infinito, catálogo da exposição no Centro Cultural Banco do Brasil, 2016, curadoria: Franz Manata.

1 – Os curiosos cordões incas cheios de nós, chamados quipos, eram provavelmente usados por chefes e contadores para fiscalizar impostos e transmitiam tanto informações numéricas quanto textuais, dizem os especialistas. Os cordões coloridos vêm confundindo os pesquisadores desde sua primeira descrição, pelos conquistadores espanhóis, há 500 anos. A maioria dos especialistas concorda que eles são algum tipo de contábil, mas ninguém conseguiu decifrá-los. O jornalista Marcello Rolemberg, no site do Jornal da USP, comenta: mas, afinal, o que quer dizer quipos? A palavra significa “nó” na língua dos ancestrais dos peruanos e era justamente assim que as informações mais importantes eram registradas: a partir de nós com grossura e cores diferentes, formando mensagens que era interpretadas pelos quipucamayocs, os especialistas da sociedade incaica nessa espécie de escrita.

2 – Teólogo e líder carismático escocês, antes padre católico que se converteu ao calvinismo. Fundou o presbiterianismo.


Baixar:

Guilherme Vaz – Deuses Desconhecidos (2006)


 

…………………….

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s