#28 Edição/entrevista/poesia

Poesia de Esquina – Entrevista com Viviane de Salles

Viviane de Salles Silva, a Vivi, está prestes a completar 26 anos de idade. Em 2011, aos 21, funda o Poesia de Esquina, evento mensal de poesia realizado ainda hoje na Cidade de Deus, onde nasceu e se criou. Em 2012 é publicada na coletânea FLUPPensa, braço editorial da FLUPP: Festival Literário das Periferias. Em 2014, forma-se Cientista Social pela PUC-Rio. Viviane é poeta.


“Tá muito evidente que tem uma onda nova rolando, e que passa pelo sarau e pela multiplicação de eventos de literatura em muitas partes da cidade, com muita gente fazendo. E cada um faz do seu jeito. Poesia de Esquina não inventa nada. Na verdade, primeiro bebemos de algumas referências, e o sarau surge por percebermos que na Cidade de Deus tinham muitos artistas que não conseguiam se ver com regularidade.

“Em 2010 rolou um sarau com uma galera de fora da Cidade de Deus que nunca mais aconteceu. No ano seguinte, o escritor Wellington Guarani lançou seu primeiro livro, e ele organizou sozinho o lançamento do livro dele, no espaço de uma igreja, e também teve sarau. Ele chamou os artistas da Cidade de Deus, e eu fui falar poesia na ocasião. Desde então, ficou um pouco na minha cabeça que a gente tinha que ter um ponto de encontro regular. A ideia do sarau tem esse objetivo, de promover o encontro.

“Ter uma vida culturalmente ativa é muito caro. Então, o que é o acesso à cultura? A gente não tá fazendo sarau porque a gente quer ter acesso à cultura, a gente é a própria cultura. A gente tá invertendo uma parada. A gente quer ter acesso a tudo, tudo que é produzido. E aí passa por um monte de coisa, por exemplo, pensar mecanismos que tornem a produção cultural mais acessível, e não só o dinheiro dizendo o que você pode consumir de cultura.

“É uma ideia de entender que a nossa esquina também pode ser um point cultural. A gente vê isso porque uma galera de várias partes da cidade curte a nossa onda, que é a onda de se ouvir e de se ver. É muito interessante porque não tem muito um padrão, é o esquema do microfone aberto, então você vai se manifestar. Óbvio que tem uma coisa do limite de tempo pra todo mundo poder participar. Mas você pode falar um poema, fazer uma declaração de amor, fazer uma esquete.

“O nome “Poesia de Esquina” é auto-explicativo de uma poesia que tá na rua, que tá na esquina e que você pode acessar e se manifestar. Acho que a grande ideia do nome tem a ver com a deselitização da poesia, da literatura, e dizer que é da rua, da Cidade de Deus. Durante muito tempo o evento literário foi pra poucos, brancos, ricos, de uma determinada parte da cidade. E agora a gente faz um sarau na Cidade de Deus que a Zona Sul vai para a assistir e respeita, entende que é tão importante quanto.

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“Ninguém quer ser o evento inusitado, no lugar do exótico. Por isso que é tão importante que tenham cada vez mais saraus na favela. E aí o grande desafio é: como é que isso se dá? Com dinheiro público na rua, eu acho que isso é importante.

“Tudo é um processo de educação. Quero que o Poesia de Esquina seja dos contemporâneos, fazer homenagem a um autor não cola mais.

“Agora o que eu acho que tem que fazer é tentar mapear a turma que tá produzindo poesia na Zona Oeste, jovens, e fazer essa galera colar mais no Poesia de Esquina. A gente quer ver um jeito de pagar passagem pra essa galera, pagar cerveja, dar um lanche, pra gente poder promover mais esse rolê.

“De 2013 eu me lembro bem. Me lembro que eu não dormi, tentando entender o que tava acontecendo naquelas manifestações. Na semana seguinte à passeata do dia 20, me lembro de uma reunião no IFCS, 5 mil pessoas, foi uma confusão do caralho. Eu, que tava na PUC esse dia, virei pro Idjahure Kadiwel e perguntei: “Idj, eu não sei o que eu faço: eu não sei se vai ter Poesia de Esquina ou se não vai ter por causa dessa reunião; ao mesmo tempo, o Poesia de Esquina faz parte disso tudo, como não vai ter Poesia de Esquina?”. E aí ele: “Não, você tem que ir pro Poesia de Esquina, tem que ter o Poesia de Esquina”.

“Depois, quando todo mundo parou, um pessoal continuou na rua fazendo sarau. E aí começou a ter mais gente na rua fazendo evento, se vendo. Mas o que eu to dizendo é que as manifestações pararam, cessaram num determinado momento, naquela intensidade de 2013. Logo depois, o Luis Eduardo Soares me chamou pra um debate na UERJ, sobre junho de 2013. Ele fala que tem uma completa relação das jornadas de junho de 2013 com os saraus. E eu acho que tem mesmo, porque nada é de uma hora pra outra: 2011 já era 2013.

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“Eu fiz parte de movimento estudantil, grêmio, AMES – Associação Municipal de Estudantes Secundaristas – me filiei ao Partido Comunista com 16 anos de idade. Tentei me organizar por um caminho mais óbvio, pra mudar alguma coisa ao meu redor. Cada um tem a sua vivência. Eu tive uma série de experiências de coletivos, de luta coletiva, antes do sarau, até mesmo com o que uma galera acha conservador, que é o partido político. Acho que a gente vai inventar o novo e talvez a gente esteja apontando pra uma superação da organização via partido político, mas acho que tem que beber desse tipo de organização.

“Sim, eu acho que o Poesia de Esquina é muito político. Só de falar que a palavra tem que ser democratizada, isso já é muito político.

“Eu não trato de qualidade literária. Se você me perguntar sobre qualidade literária, eu não tenho nada pra te dizer. Acho que falar de qualidade literária é uma perspectiva burguesa da literatura, classificar o que é bom ou ruim. Quando você tá falando de qualidade, você tá querendo classificar. Porque ninguém pergunta sobre a qualidade literária do CEP 20.000, por exemplo? Ninguém tá perguntando sobre a qualidade literária do que acontece no palco do Poesia de Esquina. Então quando vem me perguntar de qualidade literária eu já acho que é complicado.

“Não precisa entrar num partido pra fazer política. Isso é política, política do povo, de esquerda. A poesia também é feita na Cidade de Deus e em muitas favelas. Cada vez mais se criam relações com poetas e artistas de outras favelas. Mas pra gente também é importante ter uma galera da classe média e alta frequentando o sarau, tem esse choque que é muito marcante do Poesia de Esquina, um choque cultural. É a criança com a sambista de oitenta anos com o artista da Zona Norte com o tiozinho da Zona Sul com a aposentada da Barra da Tijuca com o mendigo com o bêbado – sempre tem um bêbado no Poesia de Esquina. E aí é o encontro, o momento do encontro, momento democrático. E tem uma aura própria, eu acho que não tem como pesquisar o Poesia de Esquina se não for lá, e isso é pra você, Santiago [Perlingeiro], pra você Duda [Kuhnert], e pra você, Heloisa Buarque de Holanda.

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“Esses saraus são importantes porque quem ganha um salário mínimo vai consumir o que de cultura? Televisão? Rede Globo? Vai consumir alguma coisa, tem que consumir. Tem que ter um caminho pra fazer das coisas de difícil acesso mais acessíveis. Cinema é foda. Tem que ter cineclube apoiado pelo Estado. Sarau apoiado pelo Estado. Poesia de Esquina não pode ser exceção, não. Tem que ter sarau em toda favela. Alguma coisa que estimule eventos culturais a que as pessoas tenham acesso. Óbvio que as pessoas tem que ter acesso ao Circo Voador, assistir aos últimos lançamentos do cinema, do teatro. Mas ao mesmo tempo, dá pra valorizar o que pode ser uma intervenção local.

“O que me preocupa muito é que tem muito sarau na favela que não vai ter fôlego, porque não vai ter grana, não vai ter estímulo pra continuar. O poder público não pode ser pai ou mãe, ele tem que estar junto. Ao mesmo tempo, a manifestação espontânea é muito bonita, também não dá pra começar a criar sarau por causa de edital.

“A nossa relação com edital ainda tá lidando com isso. É tudo muito novo, mas tem algumas referências: dá pra fazer um diálogo com o Sergio Vaz, mas ele não é do Rio de Janeiro, é outra cena. É um homem, eu sou mulher, na Cidade de Deus. É bem diferente, é outra geração. Então, quais referências eu posso ter quando der merda? “Como foi na tua vez quando você teve que lidar com isso?”, alguém que veio antes pra poder consultar.

“A coisa como um todo tá em disputa de discurso. Quando a Heloisa [Buarque de Holanda] tá pesquisando o sarau, ela tá disputando um discurso. E aí tem uma coisa muito interessante no meu caso, persona da cena, porque eu sou socióloga também. O projeto de mestrado que eu escrevi no semestre passado era pra estudar a cena de saraus. Talvez em algum momento eu vá produzir uma reflexão, uma produção intelectual voltada para o meu próprio objeto, e isso é muito novo. Eu sou um objeto que fala.

“Eu frequentava o Cachaçarau, em Acari, fui no CEP 20.000 pouquíssimo, e não tinha muito sarau na época também [2011]. Depois surgiram algumas coisas: o Apafunk, que cheguei a frequentar, na Cinelândia; no Jardim América tem o sarau do Renan, o Jardins Poéticos, quase na fronteira com Vigário Geral. Tem um sarau da Rocinha, na Biblioteca Parque. Frequento o Sarau do Escritório e quero frequentar outros eventos, o evento do Jessé [Andarilho, autor] lá em Madureira, frequentar mais o CEP 20.000.

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“Outro dia eu tava no Corujão de Poesia, que é outro público, uma galera de classe média que gosta de uma literatura mais comportada, entende? E aí quando eu fui falar de poesia da Cidade de Deus, a galera vibra porque a gente é exótico. É inevitável: achar a gente maneiro e bonito passa de alguma forma, num primeiro contato, por achar que a gente é exótico. E aí você tem que assumir também o seu lugar de fala, o seu lugar de intervenção. Mas eu acho que cada sarau cria um público próprio. O público do Poesia de Esquina é muito variado, muito heterogêneo. O que marca é a diversidade, o choque, o bêbado e o cara da Zona Sul e a criança.

“Porque o desencontro é político. O encontro de diferentes é político. Poucos espaços na cidade produzem o encontro entre os diferentes. Eu acho que o Sarau do Escritório tem muita juventude, por exemplo. Poesia de Esquina não, tem criança, tem idoso, tem meia-idade, que é diferente. Agora, do que eu sinto falta é mais sarau de periferia. Tem gente se organizando no Rio das Pedras… Vários lugares, mas é um rolê fazer sarau. Primeiro tem que arrumar a casa.”

Santiago Perlingeiro e Duda Kuhnert, junho 2016.

 

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