#24 Edição/poesia

poema besta

I

olho um pouco acima do ombro
e tento localizar o exato do
teu ritmo, a tua ininterrupta
geografia – como se num dia
de agosto a praia compensasse
os temores, amenizasse os
anseios.

II

às vezes penso:
um erro e tudo
se acaba. um
café um chocolate
quente uma
palavra que não
sai como esperada.

III

a dúvida que surge não
é tanto se o amor vem
de repente ou bate
à nossa porta devagar.
a dúvida que surge não
é tanto se as premissas
estavam corretas, se
precisamos disso ou
daquilo, se queremos
cantar algumas canções.
fitamos brevemente a
lagoa o jardim botânico
a mesa posta para o jantar
e o silêncio que se
sobrepõe poderia ser
tudo um assobio um
rosnar um nariz
entupido.

IV

nós sabemos que
a felicidade é
inevitável e nesse
ponto eu poderia
citar alguma coisa
um pouco daquilo
que conversamos
falar por exemplo
dos beatles happiness
is a warm gun ou
então martinho da vila
o que você acha
felicidade passei no
vestibular
mas a faculdade é
particular

V

é preciso tomar cuidado
com seus dentes por
causa do tabaco é preciso
tomar cuidado com os meus
todos tortos amarelados
é preciso tomar cuidado com
seu pescoço não queremos
deixar marca é preciso deslizar
o dedo do teu peito até
o quadril da tua coxa até
o teu pé é preciso tomar
cuidado com as tristezas
que de repente vestem
ternos e oferecem perfumes
baratos chaves de fenda
fones de ouvido

VI

quando eu era pequeno
acordava e fazia o café
duas ou três colheres de
pó minha irmã dizia
coloca a água pra ferver
e todos bebiam
gabriel, tá muito ralo
esse café café ralo
não é café
deixa sua irmã fazer

VII

um dois três
respiro minha
boca aberta
minha língua
solta suas
mãos na parede
sua cabeça na
parede as flores
do lado de fora
na janela
me lembraram
um pouco a
primavera

VIII

um dois três
respiro é preciso
um pouco de calma
pra fazer café
pra andar no ritmo
pra sonhar às vezes

IX

até ontem não
lembrava o cheiro
do teu cobertor
o gosto do
teu gozo até
ontem imaginava
dormia fechava
os olhos

X

de vez em quando
me aparece uma
imagem: eu numa
ladeira, a floresta
ao fundo. não
se sabe se é noite
ou se é dia. as
minhas pernas
arqueadas hesitam
entre desviar
dos parelelepípedos
(e é tão estranho
pronunciar paralelepípedos)
ou correr até o
final. a ladeira parece
imbatível.

de vez em quando
me sobrevém
um alento, qualquer
coisa de esperança
que podíamos ter.

de vez em quando
me assusto, e começo
a pensar em como
é difícil terminar
um poema.

XI

(o amor comeu meu
nome minha identidade
meu retrato o amor
veio e comeu todos
os papéis onde eu
escrevera meu nome)

Gabriel Gorini, novembro 2015

 

…………………….

Um pensamento sobre “poema besta

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