#9 Edição/poesia

enlouquecer então nascer

10
pela linha

há um muro descascado no caminho para a praia
nele uma linha
simples
uma linha só
liga um tijolo ao outro
sem interrupções
sem internamentos
uma linha
e tenho que
nenhum daqueles tijolos seria
não fosse a linha
riscada
muito provavelmente
por um menino ou
sabe deus
por mim
por ti
pela mão esquerda de Amâncio Jesuino Satim

 

 

5
pela telha

não nasça tão depressa
meu amor
a casa há de ser auscultada sob os teus pezinhos hígidos
e quem de nós
quem nascer primeiro terá a louca ultravida em modos de vertigem para gozar ou se arrepender

 

 

7
pelos bumbuns

os sons que fazemos
com as bochechas
ainda que tantos
são o mesmo
som libertador
um bater palmas na igreja
bestial gesto a contradizer a nevasca lá fora

 

 

11
pela língua

chorar faz bem
é um comunicado alcantilado
arrotar faz bem
porque um gigante tão gentil passa pela minha garganta
poderia dizer que sei que arrotar faz bem
mas é minha língua que não deixa
e choro
que chorar é fôlego para enlouquecer
e então e só então nascer para arrotar e descrer

 

 

12
pelo corredor

por desuso
que a minha sede caminhe pelo corredor
buscando o pássaro
que o pássaro jamais se deixe tocar
ai ai ai
que minha saúde passe por mim
por desuso
metida a besta
que um par de olhos negros deixe-me passar
mas não sem o bárbaro estupro verbal
que meu estado seja loucura constitucional
que o corredor faça-me palavreado sem janelas
que Luciana possa estar comigo
que o corredor nos sorva
que o pássaro bique nossas tetas
que a migalha seja pastoreada pelo bico
que o livro encharcado seja
que o entrelaçamento quântico faça-nos bico
e que a sede possa o corredor

eu não quero rir
mas rindo e arrotando estamos nós

 

 

6
pelos pelos

poucos centímetros após a vulva
ou nela
nasceria a loucura
a loucura confirmaria os dias
tocaria piano
um tanto de flauta doce
costuraria
faria compotas
a loucura seria serena como é a louca dádiva nas folhas de chá
e a loucura diria que não é
preciso ter pressa ou qualquer tipo de ilusão
é pelo sangue que se fazem arrepios
é pelos pelos que enforcamos a realidade
é pelo sangria que soltamos o cão

 

 

9
pela poça na rua

a água deixada aqui
espelho de cadelas e de ideias
num sobressalto
uma perereca azul da noite
dita a água deixada aqui
não caberia em lugar algum
Luciana vê o neon chegando-se pertinho
está sentada no passeio
pensa que assim nascem os vitrais
quero nascer de novo apenas para pensar
perene é ser pocilga de pensamentos
loucura é a rede de canos pela cidade
a rede que nunca deixa essa pocinha
a perereca
a menina
todas as calcinhas que pela poça ondulam nas alegrias dos anjos musicistas

 

 

3
pelos choques

no dia em que me trancaram aqui
extraíram da minha boca
um par de dentes
um dedal e um ouriço ainda vivo
PARECE UMA SANTA
cochichou uma das enfermeiras
dos dentes eu não sei o que fizeram
o ouriço alguém comeu
o dedal alguém comeu
era hora de fazer as malas
não fosse a hora de não fazer as malas
NÃO HÁ TEMPO
DEVOLVAM-LHE JÁ O DEDAL
cochichou uma das santas
sinto a loucura procurando um vagão
era hora de fundar uma estação de ferro
para tanto eu preciso do meu dedal
MIL OURIÇOS MORRERÃO POR ISSO
MIL AGULHAS HÃO DE DESCONCHAVÁ-LA
CARNE MOÍDA E PARAFUSOS
cochichavam

 

 

1
pelas rochas

tudo dói um pouquinho
uns dedos mais que outros
tudo dói
devo ter nascido como morri
como numa linha de costumes da família
indiscreto nascer a chorar
empoeirada
não há nada de mim
por hora
e por hora
eu preciso andar
arrotar
nasci e morri para amar
arrotar
tudo dói um pouquinho
uns dedos mais que outros e preciso andar
vem comigo Luciana
já é hora de pisar palavras e caixinhas de música

 

 

8
pela nudez

visto-me feito uma puta
visto-me feito uma dama feito puta
enlouquecer e nascer
ou noutra ordem
carne-moída e parafusos enferrujados
visse?

 

 

4
pela combustão

o vento enche a minha cara dos fios dos meus cabelos
tento outra posição
porém o vento
me agacho
junto ao tronco da palmeira
carco fogo nas velas
o céu da boca não orna com a boca que não souber o que é uma boa fogueira
eu por exemplo ou falsidade envernizada
sou essa capela em chamas
à beira-mar
desejo redes e só sei queimar

 

 

2
pelos panos

não sei
rasgo esse pedaço de pano e
estou morta
enlouqueço se não o rasgo
rasgo esse pedaço de lençol
e já não é o pano branco
estou viva
tenho placas de placenta em tudo que digo ou faço
não sei bem por onde segurar a tesoura
o alicate
a pinça
por isso rasgo
e sinto a câimbra nos dentes me comendo
de dentro para mais dentro via profundo
então rasgo
mas não sei
estou para nascer
tenho essa angústia e um dedal

Carla Diacov, agosto 2014

 

…………………….

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