#13 Edição/poesia

Na seção infantil

– quando eu casar com o joão, nós vamos brincar todos os dias o dia todo!
– casar com o joão?
– é, mãe.
– mas filho… você não prefere casar com uma menina?
– não, eu vou casar com o joão.
– por que você não casa com a paula? vocês se gostam tanto, e ela é linda!
– ah não. quando eu e o joão fazemos coisas de namorado, a paula fica com raiva da gente.
(silêncio e olhos arregalados em toda a seção)
– coisas de namorado, filho? como assim?
– ué, coisas de namorado, mãe.
– mas a mamãe não sabe o que são coisas de namorado. me explica?
– huum.. coisas de namorado é fazer o dever junto, dividir o lanche, brincar junto.
– ah, mas isso são coisas de amigos, filho, não de namorados.
– ué, e namorados não são amigos?

+

(guilherme, 8 anos)
– tia, tem livro de princesa pra menino?
– tem um montão de livro de princesas aqui e qualquer criança pode ler: meninos e meninas.
– eu sei, mas meu pai não sabe. você pode escrever isso pra mim e assinar “a moça dos livros” pra ver se dessa vez ele acredita?

+

a mãe de marco (10 anos) estava tentado explicar pro filho o por quê das cotas sociais nas faculdade públicas:
– … daí, na faculdade pública acaba entrando quem sempre estudou em colégio particular, e quem sempre estudou em colégio público tem que se virar pra pagar uma faculdade particular.
– mãe, se na escola particular tem cota pra quem não pode pagar, por que na faculdade pública a cota não é só pra quem pode pagar?

+

isabela (6 anos) e sua avó estavam lendo alguns livros enquanto esperavam a mãe da menina chegar
– vovó, eu sou uma menina espacial.
– não é espacial, isa, é especial.
– não, é espacial!
– isa, crianças como você foram escolhidas por papai do céu para serem um pouco diferente das outras crianças e alegrarem o mundo de um jeitinho só de vocês, por isso a gente diz que você é ESPECIAL.*
– não vovó, eu sou espacial porque eu gosto de lua e de estrelas e de coisas do céu.
– ah tá… a vovó entendeu errado…
– tudo bem, vovó. eu posso ser especial pra você, tá bom?
*isa tem síndrome down

+

depois de perguntar sobre os livros de poesia e folhear dois ou três que indiquei, antônio (8 anos) se vira pra mim
– tia, ontem eu fiz um poema na aula de literatura, sabia?
– é mesmo? e você sabe ele de cabeça pra recitar pra mim?
– aham, é assim ó:
“eu queria ser poeta
poeta não posso ser
poeta sabe rimar
eu não.”

Julia Flauzino, dezembro 2014.

 

…………………….

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s