#11 Edição/poesia

Poemas à moda contemporânea

 Nº1

andam dizendo
por aí que alguns
de nós têm as
mãos menos sujas
de sangue.

a verdade, meu
amigo, é que todos
nós merecemos
morrer.

 

N°3
p/Arturo

em três semanas
perdi uma vó um
amor e um estô-
mago mas ainda
falta um país pro
pacote ficar com-
pleto.

 

N° 4

eu ainda lembro
do gosto amargo do
tabaco na sua boca e
seu cabelo curto cheirando
à fumaça nós dois
passando pelos cinemas
de botafogo sem saber
quem era o velho sempre
sentado à mesa você me
disse que ele certamente
era um intelectual um
artista um cara importante
eu duvidei (eu sempre
duvido) e entramos
na rua são clemente
à espera do 409
o ponto de ônibus
vazio eu te ofereci
uma bala de menta pra
tirar o gosto amargo
de tabaco da sua boca
podia ser terça à noite
quinta à tarde nós
sempre deixamos
os ônibus passarem.

eu não sei se você
sabe mas hoje eu
descobri quem era
aquele velho e queria
te avisar que você
estava certa.

 

N°7

em quatro semanas
meu estômago sofreu diversos
ataques de tropas divergentes
os reforços não chegaram a
tempo e os rebeldes marcaram
para hoje às três e meia da
tarde horário de brasília o ataque
final. mais informações na rua dois
de dezembro 32 falar com seu
raimundo ou elias, no horário
noturno.

 

Nº10

quando eu era
criança conheci
uma velha que não
tinha as duas pernas
ela me olhou estava
deitada na cama em
silêncio e com o rosto
pálido minha madrinha
não queria que eu
perguntasse nada mas
mesmo assim a velha
me chamou pra perto eu
sussurrei no seu
ouvido: moça, você é
uma sereia?

 

Nº 11

imagine um homem
de bem, por exemplo,
as patas traseiras
oxidadas e o queixo
um pouco torto para
a direita: a moeda
que ele carrega no
bolso o celular que
ele carrega no outro.
agora não abdique da
imagem: o homem de
bem, com as patas
oxidadas, com o queixo
torto para a direita, com
a moeda e o celular,
espera um ônibus na
praia do flamengo. ele
olha para um lado e
depois para o outro. o
ônibus chega. o homem
de bem balança, salta
em copacabana, dá
um mergulho no mar e
de repente é comido
por um tubarão. agora
imagine o homem de
bem morto, com suas
partes mais saborosas
dentro do estômago do
animal, o celular e a
moeda indigestos.

primeiro e último
comentário do ouvinte:
mas em copacabana
não existe tubarão.

 

Gabriel Gorini, outubro 2014

 

…………………….

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