#7 Edição/cinema/entrevista

Entrevista com Petrus Cariry

Petrus Cariry é um dos principais cineastas da nova geração brasileira. Cearense, de Fortaleza, nasceu em 1977 e começou a fazer filmes nos anos 2000. Como diretor, construiu uma sólida carreira de curtas, apresentando uma abordagem e um cuidado estético que são mais desenvolvidos em seus dois longas-metragens, O Grão (2007) e Mãe e Filha (2012), ambos aclamados pela crítica. O primeiro foi exibido em diversos festivais pelo mundo e acumulou vários prêmios. Seus curtas-metragens também foram bem reconhecidos, entre eles A Velha e o Mar (2005), Dos Restos e das Solidões (2006), A Montanha Mágica (2009) e O Som do Tempo (2010), todos disponíveis na internet.

A partir da importância de Petrus para o cinema nacional, realizando filmes de resistência (tendo em vista o contexto atual), a entrevista abaixo traz questões que abordam os problemas de distribuição, o espaço do mundo digital no cinema, as fronteiras entre documentário e ficção, a subjetividade na construção dos filmes e  suas influências, não apenas cinematográficas.


 

USINA – Mesmo com reconhecimento nacional e internacional, com dezenas de prêmios em festivais por todo o mundo, seus filmes não tiveram grande distribuição pelo Brasil. Como filmes tão premiados não conseguem se manter ou sequer entrar no circuito nacional? Como você encara esse problema?

Petrus Cariry – Para um filme alternativo, com um conteúdo mais vertical e alguma experimentação de linguagem, é muito difícil entrar no circuito comercial e se manter por várias semanas em cartaz. Seria necessário uma boa campanha promocional, dirigida a um público específico, seja pelas redes sociais ou pela mídia tradicional, mesmo que em baixa escala. É tido como muito difícil, mesmo as distribuidoras que se interessam por filmes de arte são pequenas… Os meus longas-metragens – O Grão (2007) e Mãe e Filha (2011) – entraram em cartaz, mas não obtiveram público suficiente na primeira semana, tiveram que sair de cartaz antes que o boca-a-boca se consolidasse. É uma pena, pois estes filmes têm muito o que dizer, mesmo para um público mais amplo, que não seja apenas cinéfilos. Tenho certeza que as pessoas que foram ao cinema e se dispuseram a embarcar na experiência sensorial e filosófica do filme, tiveram uma verdadeira experiência de cinema. Não tenho muito interesse em fazer um filme totalmente inócuo, daqueles que comumente são consumidos entre pipocas e Coca-Cola, que se vê e se esquece em cinco minutos. Acho, como Oswald de Andrade, que o povo também merecesse o “biscoito fino” e o brioche. Na verdade, eu penso muito mais na longevidade dos filmes, o que ele representa para cinematografia brasileira, o que ele tem a dizer para as pessoas. Não me interesso muito pelo aspecto econômico, todo este processo complicado e kafikaniano que envolve a distribuição dos filmes e esta coisa assombrosa e desconhecida que chamam de “mercado” e que de uns dez anos para cá, passou a ser a pauta incessante do cinema nacional. É uma pena, pois antes desta ilusão o cinema brasileiro era muito mais ousado e criativo, impondo-se ao mundo pela sua originalidade. A “ilusão” do “mercado” além de força redutora tem levado a uma grande alienação.

USINA – Os canais de televisão e atualmente a Internet são meios alternativos de exibição que ajudam na circulação de filmes. Inclusive, seu último longa, Mãe e Filha, encontra-se disponível no Vimeo on Demand. Você acredita que tais alternativas começam a substituir as salas de cinema, ou ainda pensa nelas apenas como um meio de contornar os problemas de distribuição?

Petrus Cariry – Sendo bem sincero eu não acredito que a experiência de ver filmes na tela do computador substitui a sala de cinema. Eu gosto da tela grande e do processo iniciático da sala escura, que me lembra da caverna de Platão. Quando eu disponibilizei Mãe e Filha no Vimeo on Demand, foi à forma mais rápida que eu achei para que o filme alcançasse um público mais amplo, já que no cinema teve uma distribuição bastante restrita. Sempre que faço um filme penso na tela grande como a primeira janela de exibição, enquadro e ilumino o filme para a tela grande, a mixagem, o desenho de som e a dinâmica sonora são pensados para o cinema. Mas também não posso deixar de concordar que a internet joga um papel importantíssimo na difusão e na troca de experiências estéticas. O que acontece na Coréia é contemporâneo do que acontece aqui no Ceará e o que aqui fazemos pode em tempo real ser visto na Lituânia. Isto é fascinante e mudou muito a nossa relação com o mundo e as culturas. A distribuidora Lume Filmes lançou O Grão em DVD e, na segunda quinzena de agosto, vai lançar o filme Mãe e Filha, também em DVD. Espero que o filme possa chegar a mais pessoas. Tem muitas pessoas que compram para ver e rever.

USINA – Seus filmes têm um primor artístico raro que leva muito a sério a composição dos planos. Como é possível realizar um cinema tão cuidadoso com poucos recursos? As dificuldades de financiamento e limitações do mercado servem de alguma forma como um desafio positivo?

Petrus Cariry – Tenho o cinema como uma motivação profunda na minha vida. As limitações financeiras existem para serem superadas. Tento construir a fotografia da maioria dos meu filmes com muito cuidado, a construção imagética da fotografia nos moldes que o filme exige, daí eu levar um bom tempo no set, estudando, decupando, tentando fazer o melhor. Observo, componho as cenas como se fossem telas, pinturas banhadas por luzes e sombras. Sou apaixonado por pintura e fotografia, sempre revisto os grandes mestres. Todos esses fatores e regras são muito importantes para a dramaturgia dos filmes que fiz. Gosto da ideia de pensar que a luz e os enquadramentos dos filmes se aproximem mais da pintura e das artes plásticas do que das referências meramente cinematográficas, como modelos pré-estabelecidos. Vou começar agora em julho, a filmar o meu novo longa Clarisse ou Alguma Coisa Sobre Nós Dois, com um elenco formidável composto por Sabrina Greve, Everaldo Pontes, Veronica Cavalcanti e David Wendell. Este filme terá muita densidade dramática, além de uma fotografia bastante ousada no que se propõe. “Clarisse” vai encerrar a trilogia da morte iniciada com o filme O Grão. A partir daí, começo outra experiência de um cinema mais místico, mais solar, mais aberto…

USINA – Tanto o seu curta-metragem Dos Restos e das Solidões (2006) como Mãe e Filha foram filmados na cidade fantasma de Cococi, com a qual você tem uma relação especial. Porém, você realizou o longa com um orçamento baixo e filmou em digital, enquanto o curta-metragem foi filmado em 35mm. Pensando nessas duas experiências, qual é para você a diferença de filmar em película e em digital?

Petrus Cariry – A maioria das minhas experiências com cinema foram feitas dentro do sistema digital de captação, apesar de terem sido transferidas para o negativo 35mm. Fiz apenas dois curtas captados em película, o que foi uma experiência marcante. Quando comecei a fazer cinema existia uma disparidade muito grande entre o digital e a película, o vídeo digital há 12 anos era um patinho feio, somente as grandes produções tinham acesso a um equipamento digital de qualidade e era tudo muito caro, eu diria mesmo inacessível. Hoje em dia praticamente todo cineasta tem ao seu dispor uma enorme gama de equipamentos que chegam bem perto da resolução e latitude do filme 35mm. Para mim, não existe diferença de filmar em película ou filmar em digital, o rigor e dedicação são os mesmos. O que me deixa com um pouco de saudades é saber que não existe mais o elemento surpresa, aquele momento em que você recebe o “copião” telecinado do laboratório e vai sorrir como um bobo ou ficar em crise com o material visto, além de ter a cópia “física” do filme, acho que não tem muita poesia você levar o seu filme debaixo do braço para uma exibição dentro de um HD, embora eu faça isto com boa disposição. O engraçado é que toda projeção que assisto exibida no formato 35mm, parece ser a última. No caso, estamos diante de uma morte anunciada, que ainda não aconteceu…

USINA – A maioria dos seus filmes trabalha com a questão da passagem do tempo e suas consequências. Seja concentrando-se mais nos espaços Cococi, O Som do Tempo (2010) – ou nos personagens – A Velha e O Mar (2005), O Grão –, em todos eles a velhice está presente. Por que esse tema chama tanto a sua atenção?

Petrus Cariry – O que eu procuro fazer é conjugar a estética a uma forma de narrar que revele novas dimensões do homem, mesmo quando esta dimensão se abre para a dor, solidão e a velhice.

USINA – Muitos de seus curtas-metragens são classificados como documentários, no entanto essa própria divisão é contestada através da ideia de que “todo cinema é ficcional”, frase que aparece em A Montanha Mágica (2009). Nesse curta você trabalha explicitamente com a fronteira entre documentário e ficção no cinema. O Som do Tempo, por sua vez, chama atenção pela distância da abordagem documental mais comum, estando mais próximo, talvez, dos primórdios do gênero, com Robert Flaherty. Levando em conta tal divisão, como você pensa o documentário enquanto gênero cinematográfico? Em relação aos seus trabalhos, como você escolhe e trabalha a sua abordagem e essas questões?

Petrus Cariry – Não existe a “documentação” do real, pois tudo parte de um recorte particular, de um olhar sensível e de uma escolha, de um enquadramento, da separação do quadro da totalidade, conforme o gosto e a ideologia de cada um. Neste aspecto, por conta da subjetividade, todo recorte da realidade termina sendo arbitrário, uma coisa ficcional e real ao mesmo tempo. O cinema de Robert Flaherty é modernismo neste aspecto, ele sabe que a realidade é também subjetiva e ele ordena esta realidade através da encenação ficcional para melhor representar e reinventar esta mesma realidade. Todos os meus filmes, tidos como documentais, tem muito de ficção, no sentido de reinventar o real para melhor traduzi-lo e todos os meus filmes de ficção têm muito de documental, para que o imaginário tenha também os pés no mundo real. Estas portas estão sempre abertas e é possível trafegar de uma para outra sem dificuldades…

USINA – A Montanha Mágica é também o seu filme mais pessoal, onde você utiliza sua memória para questionar a divisão comentada acima. Outros filmes recentes também tratam de histórias pessoais, como Santiago (2007) de João Moreira Salles e Elena (2012) de Petra Costa. Como você vê essa motivação de fazer um filme a partir de si mesmo e o que você acha importante para que esse filme ultrapasse esta subjetividade?

Petrus Cariry – No fundo, acredito que todo o escritor ou cineasta, mesmo quando fala do coletivo, parte sempre da experiência pessoal para a compreensão mais ampla do mundo. Não sou a favor de um cinema centrado no próprio umbigo, mas compreendo que sem o indivíduo consciente do seu processo existencial e do ser estar no mundo é impossível uma visão mais madura do coletivo e uma participação no processo histórico. Toda objetividade afirmar-se a partir de uma subjetividade, a realidade do mundo, para o homem, não existe independente da interpretação subjetiva desta mesma realidade que pode também ser “maya” – segundo o conceito indiano, ou seja, não existe o real se considerarmos o absoluto. Neste aspecto, a realidade é vista como uma ilusão, embora possa existir em múltiplos aspectos e com diferentes possibilidades de leituras.

USINA – Seu cinema está muito ligado ao Ceará, seus dois longas são ambientados no interior e evidenciam essa conexão. Como é o seu contato com a tradição cinematográfica do seu estado e como você enxerga o momento atual do cinema cearense?

Petrus Cariry – Não existe ninguém que possa viver sem as heranças do passado, nem mesmo o mais revolucionário e criativo de todos os artistas. Sem dúvida o Ceará e a sua cultura tem sobre a minha vida e a minha pequena obra uma importância bem definida. No entanto, não me sinto preso à terra ou à minha própria cultura, estou sempre aberto ao diálogo com o mundo e tenho procurado realizar um cinema em trânsito, mesmo que seja todo ele rodado no Ceará. Quanto às oportunidades de produção, passamos ultimamente por uma fase crítica em relação aos editais, pois estão bem escassos os aportes financeiros para a produção de cinema no nosso estado. Temos um grande potencial criativo, mas faltam-nos os recursos necessários para desenvolver estas potencialidades. É bem diferente de Pernambuco que tem um edital generoso. A moçada no Ceará tem feito filmes como pode, da forma que é possível, muitas vezes com recursos próprios, mas mesmo assim tem surgido um cinema interessante, com marcada presença em festivais. Resistir é preciso.

USINA – Como foi sua relação com o cinema na infância e qual a influência que seu pai, por ser cineasta, teve na sua decisão de seguir a carreira cinematográfica? Como e quando você começou a trabalhar com cinema?

Petrus Cariry – Em verdade, eu demorei muito para aceitar a minha vocação para o cinema, eu tinha medo das comparações com cinema do meu pai, que já tinha uma carreira consolidada. Eu era guitarrista de uma banda de rock, mas no fundo mesmo eu queria fazer cinema. Então, aconteceram várias mudanças em minha vida, acontecimentos de “destino” que foram me empurrando para o cinema. Aos vinte e três anos me casei, fiz meu primeiro curta, tive minha primeira filha e desde então, nunca mais parei de fazer e pensar cinema. Descobri o cinema como uma vocação forte. Hoje estou plenamente dedicado ao cinema e gosto muito do que faço.

USINA – Alguns de seus filmes contam com a colaboração do seu pai, principalmente nos roteiros de seus dois longas. Como é essa parceria?

Petrus Cariry – Às vezes eu proponho o tema e ele faz o argumento, d’outras vezes ele propõe o argumento e eu faço o primeiro tratamento e devolvo para ele reelaborar. Vamos trocando figurinhas, discutindo, fazendo e refazendo. Durante este processo, lemos muitos livros, discutimos muitos assuntos referentes ao tema tratado e, claro, vemos alguns filmes referências. Estes roteiros tem ainda a participação de Firmino Holanda, que é uma espécie de olhar de fora, que contribui através de uma visão marcada pelo distanciamento e pela visão crítica. No final, discutimos os três e chegamos a uma versão definitiva. A minha irmã, Bárbara Cariry, também participa intensamente destas discussões e destes processos criativos.

USINA – Muito se fala de Tarkovsky, Sokurov e Béla Tarr como suas principais referências e realmente, tendo em vista seus dois longas, parecem claras as inspirações. Mas além dos diretores citados, quais outros você considera importante na sua formação como cineasta?

Petrus Cariry – Stanley Kubrick, David Linch, Abbas Kiarostami, Terrence Malick e Glauber Rocha. Estes e mais uma dezenas de outros, inclusive alguns diretores de filmes B que terminam nos marcando também. Nós nunca sabemos bem porque determinada imagem ou cena nos toca de forma a alma e termina marcando nossas vidas e impulsionando-nos para novas descobertas estéticas.

USINA – Por fim, gostaríamos de saber ao menos cinco filmes nacionais que você considera fundamentais.

Petrus CariryTerra em Transe – Glauber Rocha, Limite – Mario Peixoto, São Bernardo – Leon Hirszman, Cabra Marcado para Morrer – Eduardo Coutinho, O Bandido da Luz Vermelha – Rogério Sganzerla, Crônicas de um Industrial – Luiz Rosemberg Filho, Matou a Família e Foi ao Cinema – Julio Bressane, Vidas Secas – Nelson Pereira dos Santos, Macunaíma – Joaquim Pedro de Andrade, e Serras da Desordem – Andréa Tonacci.

USINA, junho 2014

 

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