#7 Edição/mídia

Rádio Livre!

Duas pulguinhas saltitam alegremente em uma orelha canina quando uma pulga mais experiente, pulando no sentido oposto, as aborda:

– Olá, pulguinhas, como vai o cachorro hoje?

A pulga mais velha segue seu caminho, deixando as outras perplexas:

– Mas o que é um cachorro?

A rádio Pulga não é a pulga mais sábia e experiente, que explicará o que é o cachorro, seus latidos e sua ferocidade. O ponto da historinha é outro: o que há de mais óbvio e evidente na realidade é, frequentemente, negligenciado.

Quem pensa na ideia de uma rádio livre, em geral, imagina que o objetivo é ser escutada, com uma mensagem inédita alcançando sempre novos ouvintes, com efetiva capacidade de disseminar algo que altere a percepção de mundo daquele que a ouve. Essa meta é justa e nobre, e ser improvável não a torna menos válida. Contudo, não é o primordial da rádio Pulga, e das rádios livres. Há algo anterior e além: dar voz a quem historicamente é mudo. Afinal, aqueles que mais precisam ser ouvidos são os calados de sempre. O objetivo das rádios-livres, portanto, mais do que uma mensagem distinta, é atender uma necessidade evidente de dar voz aos antes impedidos de falar. Provavelmente a partir de novos autores, novas vozes entoarão novos discursos, tal qual o futuro que traz o novo pelos caminhos do agora.

As rádios livres existem porque, mais do que ouvir, as pessoas querem falar.

Se a liberdade de expressão é a maior expressão da liberdade democrática, a censura e as perseguições que sofrem mundo afora as rádios livres demonstram ser fajutas as democracias. Só há rádios livres por existirem o monopólio global das rádios presas a interesses econômicos e políticos, indignos como são, já mais explicitados. Contra a poderosa aliança dos indignos, as rádios livres ousam abrir os seus microfones para os indignados. E a resposta não demora a tardar: sendo caçadas e cassadas as livres pelas presas. Convém nesse momento lembrar Darcy: odiaríamos estar no lugar de quem nos vence, nossas derrotas são nossos orgulhos. Ainda mais imbuídos que somos da certeza de voltar, sempre e mais uma vez, como a mosca na sopa é, e será de novo, a Pulga na orelha.

As rádios livres se multiplicam e resistem, pois explicitam o monopólio criminoso da palavra, pela “grande” imprensa corporativa, que censura, cala, destrói quem ousa romper esse cerco criminoso, covarde e hipócrita.

Ainda que calada, a Pulga simplesmente existir é um grito alto. A Pulga, e todas as outras rádios livres, musicando no ar é o voo da resistência. Assim, fica clara a história das pulguinhas: é o mundo cão, mas seu gosto é maravilhoso, ótimo para ser mordido com força, perfeito para se saltar, ser a base de onde alcançamos o ar, o nosso ar. Pulemos nele!

Texto de Luã Reis

 

USINA, junho 2014

 

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