
Erguido
o último suspiro
aos anjos da colheita
que por aqui passam
quando querem catar
acerolas

*** O poema é um exercício de concentração, a concentração que existe em uma espera. A concentração se dá na medida em que o poema se liberta, e talvez essa seja a sua tensão primordial – originária. Áspera é uma condição da espera, ao mesmo tempo uma qualidade. Assim,

às vezes é bom ser gato.
– digo isso enquanto faço
carinho nas costelas do
meu que me mostra gentilmente
seu canino esquerdo.
coisa que eu só sei fazer
com o direito.

chegamos ao pomar
Já não há laranjas
digo eu sei e ele, que a culpa é do jaguar

eram ferozes, feras ferozes, que vinham sentiam o piscar dos olhos, as pálpebras dobrando, arrefecendo. nisso que saíram, aos poucos, casais de muitos tipos, os dentes sobrando pra fora, a boca mordida pra dentro, lábios carnudos. vultos ou sombras, aquilo que se espiava, o mudo o mudo barulho que se ouvia.

Canta a Deusa às Musas invertidas
A cólera de Lethes, a moderna filha:
Museográfica flama, ars do passado,
Da ruína da história, um esquecimento
Da Memória.

o silêncio é uma estrada e a distância cavada pelo vazio é intransponível
cada passo dado é um desvio entre frases suspensas,
traçado de fuga aberto em picadas na longa vertigem erguida pelo nada dito

“Esse dilema do processo de criação é uma outra maneira de ressaltarmos a tensão ‘enraizerrante’, que confere à experiência poética a possibilidade de dizer-nos que aquilo que nos fixa no tempo e no espaço, na vida pessoal e coletiva só o faz porque se move e se transfigura continuamente.”

eu apago a luz do jardim
e fecho as persianas
a lagoa lá longe
com suas colunas de luz
e a moldura das árvores
que sucessivas gerações
…