entrevista

Conversa nº1: Aline Besouro

no dia dois de maio de dois mil e dezessete, sob signo do chifre e do apetite, realizou-se o presente encontro nas egrégias instalações da escola superior de desenho industrial da universidade do estado do rio de janeiro (uerjresiste). sentamos num canto inexplorado proposto por aline e conversamos. aline gravava algumas de suas telas no colaboratório e interrompeu o trabalho para conceder a presente entrevista. ao som de sopranos e contraltos da escola de música da universidade do brasil, falamos de memória, registro, roupa, civilização, política, arte, identidade… aline é uma presença, e nas diversas vidas que viveu já assumiu diferentes identidades, naquele estilo que drummond cantou: “um jeito só de viver/mas nesse jeito a variedade,/ a multiplicidade toda/ que há dentro de cada um”. artista visual, figurinista, pesquisadora e arte educadora, constrói, junto com cassia lyrio, a Bendita Gambiarra, “projeto de ilustração e construção artesanal”. integra também alguns coletivos, como o Grupo MAd, focado em performances e na “criação de dispositivos relacionais” e o Antessala, grupo editorial que se volta para as situações de memória e ditadura no brasil. há alguns anos promove o laboratório Coser com o intuito de disseminar outras práticas de costura e novos relacionamentos com a vestimenta. aline também é professora de kundalini yoga.

a presente entrevista foi editada ao som de:

  • Chet Baker Sings (1954);
  • Jackson C. Frank (1965);
  • Jethro Tull – Thick is a Brick (1972);
  • The Ngqoko Women’s Ensemble – Afrique Du Sud: Le Chant Des Femmes Xhosa (1996);
  • José Antonio Escobar interpreta Villa-Lobos – 5 Prelúdios, 12 Estudos e Modinha (2008);
  • Baden Powell – Solitude On Guitar (1973);
  • Quinteto Armorial – Do romance ao galope nordestino (1974);
  • Vitor Araújo – A/B (2012);
  • BaianaSystem – Duas Cidades (2015);
  • The Beatles – Revolver (1966);
  • Walter Franco – Revolver (1975);
  • Keith Jarret – Köln Concert (1975).

Gabriel Gorini: A primeira é só uma curiosidade: é Aline Besouro por quê?  É seu sobrenome ou não é seu sobrenome?

Aline Besouro: Não, não é meu sobrenome… Não sei muito bem, tem algumas histórias pelo menos… Eu preciso responder essa pergunta? É meio aleatório, é totalmente aleatório. Eu sempre tive muitas relações com inseto. Gosto muito de insetos. Teve uma fase da minha vida que eu pensei em ser bióloga. Fiz um estágio na Fiocruz. Aí em algum momento eu falei que era besouro e virou Besouro. Eu sempre tive um apelidinho, e fiquei com esse como nome. Até porque não gosto muito de Google e essas informações são muito fáceis de você encontrar. Quando você escreve o nome inteiro da pessoa, vê um monte de coisa que eu nem autorizei a colocar na internet, mas tem acesso. Aí assumi Besouro. Às vezes nem tenho vontade de colocar, mas o Facebook leva muito da pessoa, né? Como se a pessoa fosse a identidade que ela coloca no nome do Facebook. E aí meio que virou a minha grande identidade, mas acho até engraçado… O André se chama André Aranha, e ele falava “ah, mas eu sou inseto e você…?”¹ Ele foi e me perguntou eu falei ah… Não respondi porque também são essas dimensões do nome. Nome é uma coisa tão abstrata, tão abstrata! Mas é isso. Acabei respondendo: “Não vou responder! Que pergunta!”

G: Você tem um site em que coloca milhares de fotos, a maioria autorretratos. Tinha um outro em que você colocava excertos de conversa, de prints… Uma coisa bem disciplinada, meio que tentando esgotar o registro. Daí queria que você falasse um pouco dessa sua relação com lembrar e esquecer…

Aline: Acho que essa pergunta faz muito sentido pra mim. Sou uma pessoa que guarda muita coisa na cabeça, sou meio adicta de guardar coisas e viciada em memória. É uma parada que curto, gosto de lembrar de coisas e, como pessoa, sujeito, constituição psicológica, física, eu consigo lembrar de coisas recentes, mas não muito antigas. A não ser que eu, pessoalmente, crie uma estrutura de lembrança de algo. Às vezes não conseguiria te reconhecer se ficasse um tempo sem te ver. Um ano, dois anos. A probabilidade de lembrar de tudo que a gente já viveu, ou qual o nível de relação que nós temos, é incerta. Tem vezes que encontro pessoas que foram super importantes pra mim e não consigo lembrar em que pé estava nossa relação, por que a gente se afastou, ou eu trato como se “não, óbvio a gente é super amigo e eu nem sabia disso”, ou na verdade não, a gente nunca foi amigo e estou tratando como se a gente fosse muito amigo. Porque às vezes não tenho essas referências de vida.

Desde criança curto muito coisinhas, gosto de guardar papéis e pequenas coisas. Eu me lembro que com treze anos tinha uma agenda rosa maravilhosa, superinteressante, interativa, brilhante, toda linda. Fiz uma capa pra ela, com um tecido muito velho, e escondia pra ninguém achar. Lá escrevia tudo o que acontecia na minha vida. Fui me liberar dessa agenda há pouco tempo. Tenho uma coleção de pequenos livros de memórias.

Atualmente meio que parei porque guardo muita coisa, guardo e descarto, mas tenho pelo menos seis livros de anos separados. Quando fiz dezoito anos, vi um livro que se chamava Em Busca do Tempo Perdido e falei “cara, fiz dezoito anos, esse é um livro que eu tenho que ler”. Não fazia a mínima ideia sobre o que era… Fiquei viciada, li em um ano todos.

É curiosa também essa coisa da memória, você tem mas ao mesmo tempo não tem. Você perde. E eu ao mesmo tempo que gostava muito de lembrar da minha infância e das minhas pequenas histórias e memórias, muitas vezes não me importo muito com isso, não… Não sei, agora entrei numa coisa de que talvez não saiba muito porque faço isso, mas gosto de fazer, gosto bastante. Agora tô passando por uma nova fase da  vida, de descarte. De tentar não lembrar tanto das coisas…

E sobre as coisas específicas que você falou, esse período eu tava bem focada em estudar processos de internet. Nessa época acreditava que ali de fato poderia estabelecer novos tipos de contato, de relação…  Muito também porque é uma situação menos hierárquica de você produzir alguma coisa, de se inserir como processo. Às vezes, né. Não quando você patrocina… Mas tava num período de acúmulo, de várias informações, percebendo como essas informações se davam dentro de mim.

isl4ain – Print do acervo pessoal de Aline Besouro

Tinha que dar vazão um pouco a isso, porque eu tenho, sei lá, uma pasta com 300 prints, e tipo, por que guardei? A maioria deles são absurdos, coisas que as pessoas mandam e reproduzem pra mim, mensagens que escrevem. Tenho inclusive um vídeo que sou eu e o cara conversando no omegle, um site de webcam que eu passava muitas horas, e só tá a tevê dele ligada, a câmera pra tevê, e a gente tá conversando e tal. Aí eu ligo a minha tevê, que não tinha antena, então só ficava chiada. E no lugar do vídeo, ficavam as duas tevês ligadas, e eu guardei isso também. Não sei… Acho que o meu interesse é um pouco de me perder também, sabe. Essa coisa de besouro talvez seja isso, de meio que me difundir. Ao mesmo tempo me caracteriza, também me esconde. Faz meio que me perder, sabe? Não dá pra ter tanta certeza. Mas eu tô falando de mim também, é difícil falar de si mesmo.

O grande lance pra mim da internet foi que parei de fazer quando o domínio gratuito dos meus sites saiu. Não refiz depois. Um dos motivos é porque fiquei puta com isso. Você precisa ter um domínio vinculado a um nome horroroso pra ter um site bacana na internet. Um se chamava Isl4ain.tk. E o nome é muito engraçado porque alguém me mandou essa mensagem: “Aline isl4ain”, e islain parece islã, né? Pensei nisso. Só que não, Lain é um desenho, um anime japonês de uma garota que se relaciona com internet que é tipo muito lóki. E eu não conhecia, fiz o site com esse nome, e só depois eu me toquei dessa história. Teve duração de um ano, um ano e meio. E aí não refiz.

G: Esse era mó viagem…

Aline: Esse era muito bom mesmo. Às vezes eu tenho vontade de voltar porque foi uma parada que muita gente se identificou, e era engraçado também, mas no fundo eu não tenho a mínima vontade de voltar.

G: Por que criar sites diferentes?

Aline: Gosto de me separar também. É difícil se referenciar num único ponto, é difícil.  Principalmente porque essas relações são muito, pelo menos as de internet, são muito baseadas nuns critérios permeados por redes sociais, e acho rede social uma grande idiotice. É uma parada muito manipuladora. Claro que tem suas vantagens. Na Bendita Gambiarra a gente acredita bem nisso e, de fato, nos ajuda muito a divulgar, mas é muito deprimente também. Gosto de criar sites porque sempre tive blogs. Inclusive a Cassia eu conheci por causa de um blog meu, só depois a gente foi se reconhecer. Olha que loucura, sempre fui viciada em site. Sempre, sempre. Arranjava amigos e fazia subdomínios. Era uma coisa muito voltada pra blog mesmo, porque sempre gostei disso, de escrever e ficar escrevendo… Isso é uma parada que sou apaixonada, escrevo diário eternamente. Passei a minha vida inteira fazendo layout pra blog, inclusive pra outras pessoas. Fiz um blog no WordPress que se chama vernáculo, ele ainda existe, só tem uma foto, daquele filme, Sétimo Selo, do Bergman, a foto que eles estão jogando xadrez.

isl4ain – Print do acervo pessoal de Aline Besouro

Esse filme era muito importante pra mim numa época que eu assistia filmes. Atualmente não faço muito isso.  Mas só tinha essa foto e eu escrevia toda sorte de loucuras. Tem uma que foi muito boa! Eu só comentava no blog dos outros, o vernáculo não tem foto minha, não tem meu nome, não tem muita informação. Nessa época encontrei o blog da Cassia. Nisso comentei no blog dela e ela comentou no meu, só que ela não sabia quem eu era. Depois conheci ela fisicamente. Descobri que tenho uma penca de amigos que fiz na internet. Amo me relacionar pela internet: eu sempre gostei de blog, sempre gostei de escrever. Acho que minha relação com memória, pelo menos disso da internet, de fazer uns sites, foi uma parada que sempre fiz, sacou? Tenho pelo menos uns cinco blogs existentes que volta e meia atualizo. Tem um que é só de imagens, mas não são imagens minhas, são imagens que salvo no meu computador e depois de um tempo fuço. Tem um que se chama anabelle, só tem dois textos. Uma coisa de 2005, 2007. Tem um outro que era Sara, mas acho que esse foi apagado pelo blog da globo. Apagou. Tem um que é tu aline. Tem uma penca…

G: Agora você ainda usa o Facebook, escreve seus sonhos…

Aline: É, comecei essa coisa do sonho. Eu anoto meu sonho há muito tempo, porque quando fiz uns quinze anos li um livro do Jodorowsky. Tava no Chile, esse livro apareceu pra mim, tinha toda uma relação porque ele é chileno também e falava muito de sonhos. Esse livro era muito bom mesmo, foi um livro marcante, tenho ele até hoje: El niño del jueves negro. O Jodorowsky tem toda uma pira de sonhos e eu fiquei focada. Não tinha referência disso mesmo, minha família jamais teve essa referência, meus amigos também não tinham. Eu seguia o blog dele, Plano Creativo, que era foda e alguém apagou. Fiquei puta. Hoje eles fizeram um outro plano criativo, mas não é tão forte assim.  Ele tem uma série de instruções pra sonho lúcido. Fiquei parte da minha adolescência totalmente voltada pra ter sonhos lúcidos, aí tinha e anotava. Lembro do meu primeiro, devia ter uns dezesseis: eu era um cara que estava pra me casar com três noivas, só que eu estava esperando em cima de um túmulo e elas vinham me matar com flechas, estavam apontando as flechas e eu falava “preciso sair daqui”, aí voava. Falei “ops, isso não pode acontecer, eu não posso voar, estou dentro de um sonho lúcido”. Curti muito. Essa coisa de agora começar a escrever no Facebook, foi muito porque… Ah, cara, não sei muito bem porque fiz isso não, mas foi engraçadinho no fundo. Meus sonhos são muito loucos. Escrevia nos blogs os sonhos, só que agora o Facebook pra mim é um blog, então escrevo no Facebook. A lógica é meio que essa. Nesse vernáculo, inclusive, tem muitos sonhos meus lá.

G: E o ANTESSALA?

Aline: Foram vários caminhos… Esses processos de ocupação sempre me interessaram por causa da memória. Muito porque, de alguma maneira, é difícil lembrar, né?  Mas o ANTESSALA surgiu como uma proposta. Eu, Jandir (Jr.) e Pollyana (Quintella) queríamos construir alguma coisa juntos. A gente tinha acabado de sair do MAR e queríamos fazer uma publicação. Concomitantemente eu tava fazendo uma pesquisa na faculdade sobre o Ocupa DOPS por causa de uma situação específica: uma vez tava passeando pela Lapa, Rua da Relação, que achava muito bacana por causa do nome. Tinha uma obra gigantesca, e eu “nossa! que obra maluca é essa?”, “o que era aqui antes?” e não me lembrava muito bem. Um tempo depois comecei a ver as modificações daquele espaço por causa da obra, por causa das pessoas, por causa dos pixos que colocaram ali, os desenhos, os tapumes, e comecei a pesquisar sobre isso. O fato de eu estudar história da arte, no caso, me colocava muito nesse lugar, porque gosto de estudar registros. A Pollyana e o Jandir toparam ser aquele o primeiro lugar pra gente fazer a nossa intervenção artística e foi muito bom que eles aceitaram a proposta do espaço e piraram todos nessa ideia. Mas, no fundo, só depois comecei a entender esses lugares da memória. Na verdade, estou ainda tentando entender. Toca muito também no que imagino que seja a minha missão de vida, sabe? É… Sinto muito isso, que toca nesse lugar da missão de vida mesmo.

G: O DOPS é uma coisa de muita violência. Você poderia estar registrando milhares de outras coisas, mas escolhe um lugar que não tem nada a ver com sua história pessoal pra registrar. Eu nem conhecia o prédio antes…

Aline: Cara, vou te falar uma coisa, acho as paradas todas muito violentas, na verdade. A internet é extremamente violenta… A condição do DOPS atravessa toda sociedade. E foi muito importante, porque a relação que eu tinha com a ditadura, com esse período…  Sempre tive relações com umas situações de conflito. Lembro que com treze anos assisti um filme na aula de geografia, do professor Miguel, lá no CAp-Uerj, de crianças palestinas e crianças israelenses. Elas trocavam cartas, e depois (as crianças israelenses) visitavam as crianças palestinas. Aquilo ali me tocou tanto, de uma maneira tão absurda. É muito difícil você digerir essas camadas, é muito difícil você entender a complexidade das relações, mas ao mesmo tempo é muito simples pensar soluções. Essa questão da Palestina atravessou a minha vida. Atravessa inclusive até hoje. É uma pesquisa que tenho. E o DOPS, a ditadura militar no Brasil, a diferença é que isso tá aqui. Aquele lugar é também como se fosse esse território, que tem forças específicas, que tem os seus motivos pra reivindicar uma memória.

G: Não sei se é “consciência” o termo certo, mas vou falar isso, essa tomada de consciência em relação à brutalidade, à violência, se é uma violência constitutiva da vida… Por que essa escolha do outro caminho, da não promoção da violência, do acolhimento, de uma certa generosidade?

Aline: Às vezes nem acho isso uma vantagem, o acolhimento, pensar o diálogo. Tenho isso muito focado, gosto de pensar as coisas não pela violência, mas acho que é uma certa limitação também.  Não acho que isso seja uma opção, acho que faço isso porque meio que sou assim mesmo.

G: Você se sente desperta pra esse tipo de coisa? Essa não-escolha de agir dessa maneira…

Aline: Acho que posso criar várias narrativas possíveis, isso também me interessa muito. Talvez sejam menos as memórias e mais as possibilidades. Pensando agora um novo percurso discursivo, talvez eu me interesse mais pelas narrativas possíveis e as formas de você contar uma história.

Porque a gente às vezes é isso. Sou meio devagar em dissimular as minhas reações, sou devagar nisso, então normalmente exponho imediatamente o que sinto e o que penso. Às vezes também não consigo me conter, né? Nem quero, na maior parte das vezes. Mas essa coisa da violência é porque, cara, sou muito violenta. Pessoalmente, do ponto de vista do sujeito, muita gente me acha muito fofa, não vê violência em mim, o que acho ótimo, mas são pessoas que não me conhecem tanto assim, porque consigo ser bem violenta quando me incomoda.

Isl4in

G: Agora você falou da raiva e da calma e fico pensando nas crianças. Acho que a criança tem essa coisa de possibilidades muito próximas e muito radicalmente mutáveis de uma hora pra outra. Você cria diversos personagens e narrativas sobre eles e, não sei como é normalmente, mas pelo que vejo você simplesmente vai lá e desenha sem muita questão. Falo do Sem Medo, por exemplo, que tá pintado aqui na Esdi.

Aline: Quando eu era criança pegava o jornal todo lá de casa, recortava, escrevia novas matérias com as mesmas imagens, colava num papel, montava uma banca e vendia pros meus pais por um real. Toda semana fazia isso. Mas acho que não, acho que eu não tenha nada a ver com criança.  Meus desenhos normalmente surgem de um processo.  É muito difícil pra mim inventar um desenho novo. É mais fácil eu copiar e reproduzir eternamente o mesmo. Na maior parte das vezes faço isso. É bom trabalhar com a Cassia por causa disso, ela sempre faz um desenho novo e eu normalmente trabalho o mesmo personagem. A maioria dos meus desenhos começou e surgiu numa experiência específica que são as experiências com monotipia. Com essa técnica, você desenha no verso do papel com uma ponta seca, uma agulha, por exemplo. Como você não vê o que está desenhando, tem que fazer rápido, senão a tinta seca. Quando tira é que vê o desenho. Normalmente eu fazia alguma coisa meio boba. Boba não no sentido depreciativo, mas sim de divertida e rápida. Eu desenho exaustivamente esse mesmo desenho. Desenho e desenho e desenho e desenho e desenho, até ele virar o desenho do que é. O primeiro do Sem Medo é uma loucura.  Lembro que fiz por causa de um som que existe, feito por um cara chamado JP Caron, que é um texto, uma narração. Acho que se chama anfíbio. Não tenho certeza. Só que isso foi há tanto tempo atrás, uns dois anos e meio, que ele já se transformou. Já não é mais um anfíbio. Virou isso que é o Sem Medo. E essa última tela, que é  a oficial, vamos dizer assim, devo ter desenhado mais de 100, 120 vezes. E continuo.

Normalmente, quando desenho, estou desenhando algum personagem que já criei. O último personagem que desenhei, anteontem, foi o Situação, e só desenhei porque já tinha desenhado em outro momento. Não tirei do nada. A tela, pra mim, é uma experiência gráfica dos processos da memória. Não vai sair do jeito que você quer. Eu e o Zeni acabamos de gravar uma e não saiu perfeita, quer dizer, igual à imagem que você gostaria de ter. Pra mim tá foda, porque se sai perfeita por que você tá fazendo? E é uma coisa que é um registro, uma parada material. Quando você grava a tela tenta passa pra uma matriz, que vai gerar outros registros, mas essa matriz ou sai perfeita ou não. Fazer o ANTESSALA em serigrafia foi muito por isso. Quando você grava numa tela, é totalmente diferente.

E o Sem Medo é porque tem uma… Teve uma época em que escrevi no meu quarto um texto, do Baba Hari Dass. É um texto em inglês que fala assim, trabalhe honestamente, medite todo dia, conheça pessoas sem medo e brinque: Work honestly, meditate everyday, meet people without fear and play. E isso era o lema da minha vida. Ainda é. E essa coisa de conhecer as pessoas sem medo… Foi daí que surgiu. Conheça as pessoas sem medo. Pra mim é meio difícil, que não curto muito conhecer alguém. Lembro muito bem de quando era do colégio e tinha uma pira de que a gente vai criando cascas quando fica mais velhos. Um belo dia percebi que já tava cheia de cascas mesmo. E essa parada é uma coisinha assim tão pequena, sabe. Conheça as pessoas sem medo. O ter medo é tudo aquilo nos impede. Trava a gente. E medo não é ser negligente ou não acreditar nas coisas, não acreditar que elas de fato possam ser perigosas. Eu tenho medo de vacina, por exemplo, sempre tive, e o sem medo fala muito desse lugar. Você sabe que tem, mas que você pode deixar pra lá um tempo e seguir sem medo.

SEM MEDO (Foto: Felipe Felizardo)

E esse personagem é muito importante pra mim, me ajudou a entender muitas coisas da minha vida. Eu faço Kundalini Yoga com o Zeni. Basicamente começo a prática já com um pouco de medo dela. E é foda, sempre é foda, sempre é maravilhoso, sempre é uma puta transformação. Mas você tem medo porque você tem que estar disposto a transformar uma energia… Ter medo tem muito a ver com imobilização. Sou meio complicada com imobilizações. Meio difícil pra mim. Não gosto que me segurem, não gosto que me agarrem, não gosto muito disso, apesar de ser uma pessoa carinhosa. Acho que o medo faz um pouco isso, e acaba que peguei isso como lema, porque escrever sem medo pras pessoas é menos pras outras pessoas e mais pra mim mesma. Eu sou uma pessoa bem medrosa, no que diz respeito a ser uma ser humana.

G: Como é a história da Bendita Gambiarra?

Aline: Eu trabalhava com a Cassia. A gente se identificava bastante mas não era do mesmo núcleo. Eu ficava muito mais tempo com o Jandir e com a Pollyana do que com ela. Quando vi o caderno que a Cassia fez… Eu nunca tinha pensado nessa possibilidade. Porque não usava caderno. Lembro que na minha adolescência gostava de cadernos, mas não tinha. E aí desde a primeira vez que vi comecei a fazer obstinadamente pra mim. Em 2014 tava viajando pra um filme com um caderno que ela tinha me dado pra eu ter um modelo e saber fazer. Um dia ela me mandou uma mensagem falando, “pô Aline, o que você acha de você fazer uns cadernos junto com a Bendita?”, e eu falei, claro, vamos, com certeza!  A gente começou a produzir juntas e foi muito forte, tanto que agora a Bendita Gambiarra dá conta de muitas outras produções que não são só mais as de caderno.

Foi uma situação muito louca porque sempre trabalhei com arte e sempre fui meio que artista. Essa seria a minha profissão no futuro. Quando era criança, apesar de querer ser bióloga ou física, na minha lógica era meio óbvio que ou eu seria atriz ou artista, fotógrafa. Teve uma parte da minha vida que tirava muitas fotos. E tinha toda uma questão com a pin hole, com a câmera analógica. Era uma coisa muito da minha adolescência. Ganhei uma câmera do meu tio que ele trocou por um microondas, e se chamava Gabriela, por causa de uma amiga da internet. Só que eu nunca consegui entender muito bem como criar uma dimensão financeira pro meu trabalho de arte. Por exemplo, a minha primeira faculdade era em cenografia, que tem toda uma questão técnica, mas tá muito em função de uma peça de teatro. Eu não sou uma pessoa muito fácil de estabelecer disponibilidade, tenho certas defesas de trabalhar em algo com outras produções, em outros projetos, seguir uma companhia. Eu não conseguia me filiar muito a isso porque demandava muito da minha pessoa. 

Gosto de gastar muito tempo com a minha família, então essas questões meio que se afastavam e era muito difícil me inserir nos grupos de teatro. Até hoje tenho uma certa dificuldade. Gosto muito de discutir e não sei como lidar com essas situações profissionais. Mas gostava de fazer teatro, cenografia, figurino, sempre gostei. Gosto de trabalhar com roupa, bastante, mas não conseguia me inserir numa ideia de mercado. E outra parte era que, na época, trabalhava principalmente com performance. Performance, filme, foto… E essas coisas têm um preço, um valor agregado meio esquisito, sabe? Eu também tinha que estar associada a espaços expositivos.

G: Que legitimassem de alguma forma…

Aline: Não, mas a questão não era a legitimação. A questão é que o valor dessas coisas era meio estranho. Até hoje são difíceis de quantificar e, sinceramente, não sei fazer isso tão bem. A Bendita Gambiarra foi uma situação em que, pela primeira vez, consegui lidar com duas personalidades minhas muito reais, a da artista e da artesã. Sempre vendi muita coisa. Fazia bijuteria na escola. Curto esse rolê venda. E não conseguia muito bem vender as minhas artes porque elas estavam nesse patamar artístico. Eu tinha um trabalho mas não sabia quantificar ele dentro de um circuito de artes visuais. Podia trabalhar com cenografia e figurino, mas ao mesmo tempo preciso estar envolvida fisicamente, emocionalmente num nível que, sei lá, você tem que viajar, ou assistir um ensaio até muito tarde.

Um monte de vezes não sei se quero ter essa disponibilidade toda pra ganhar tão pouco, ou fazer um grande trabalho que talvez não esteja tão envolvida. E sou muito chata nisso. Quando a Cassia me chamou pra fazer cadernos, nunca pensei que isso seria uma primeira profissão. Só que aí começou a virar uma coisa que a gente poderia dar vazão a outros projetos, a outras necessidades, inclusive às necessidades financeiras. Atualmente a gente vive da Bendita Gambiarra, de fazer cadernos, pôster, imagens e ilustração. O que era meio que um plano b da vida tomou uma dimensão muito forte. A gente, eu e Cassia, se encontrou profissionalmente. A gente é muito amiga, bate muito em pesquisas espirituais, esotéricas, de realidade, mas nenhuma de nós duas conseguia se inserir dentro de um mercado de artes visuais, que também não nos convidaria dentro de um discurso meio óbvio, né.

SEM MEDO (Foto: Felipe Felizardo)

G: Agora vamos falar da autossuficiência, do caderno, da roupa… Na roupa você também tem isso do registro, de guardar, de autossuficiência. Fazer as próprias coisas com outra que você pega na rua. Tem a performance que se chama Coser, em que você cria essa experiência pras pessoas, de costurar de uma maneira direta…

Aline: Adoro aprender a fazer várias paradas pra mim mesma. Quando fiz 15 anos ganhei uma máquina de costura da vó Elza, a vó que cuida do meu umbigo. Até os dezoito, não sabia o que fazer com ela, não sabia nem ligar. Nem sei muito bem por que a vó Elza me deu. Eu acumulo muita coisa por causa dessa minha pira da memória e na maior parte do tempo fico refletindo sobre como vou descartar. É difícil pra mim pensar nas coisas como lixo. Eu fazia aula de figurino, e, no figurino, você tem uma série de roupas pra uma personagem. Quando era adolescente, por exemplo, só me vestia com dois tipos de roupa, uma camisa branca e uma calça jeans. Quando não usava isso, era o uniforme do colégio. Tinha uma coisa meio personagem, que sempre usa a mesma roupa. Mas quando você começa a frequentar brechó, entende uma outra dimensão material da roupa. Às vezes escolhia roupas que alguém tinha feito a bainha. Nem era a que ficava boa em mim, mas via que não era a roupa da fábrica. Aquilo ali tudo pra mim era meio mágico, me fazia imaginar outros lugares, outros corpos, outras pessoas que tinham passado por aquela peça. A memória dessa roupa… O brechó abriu um mundo pra mim. E ele também diz respeito a esse lugar de consumo em que as coisas não custam tanto quanto antes. Sei lá, foi muito real isso.  Conseguia comprar roupa pra mim sem ser no natal. No brechó eu podia comprar no meio de agosto uma sainha de cinco reais, sabe? Era uma nova dimensão. Então a costura foi se estabelecendo por essa relação de estar com roupas que não necessariamente serviam perfeitamente em mim, que precisavam de ajuste.

Mas o lance da roupa, que é o Coser, efetivamente surgiu porque li um livro chamado Sexta-feira ou os limbos do pacífico, que ganhei de presente quando fiz 22 anos. A história desse livro é a do Robinson Crusoé, que é um cara muito foda. Tenho outro livro sobre isso que ganhei quando tinha 12 anos. Não sei se você conhece… O Robinson Crusoé tá num navio, o navio sofre um acidente, ele cai numa ilha e fica sozinho lá.  Ele cria toda uma situação de civilização na ilha. O livro em si é muito bem feito, na lateral tem todas as informações históricas. E aí não sabia que esse outro livro, que se chama Sexta-feira ou nos limbos do pacífico, era do Robinson Crusoé também. Só que a visão da história nesse é totalmente diferente da do primeiro que li quando tinha doze anos. No Sexta-feira… ele subverte essa ideia de civilização. O livro pega o processo civilizatório do Robinson Crusoé e mostra que, na verdade, essa civilização não dá conta de várias paradas. Essa coisa da roupa mudou totalmente na minha vida, porque sempre gastei um tempo com roupa, essa coisa da adolescência, muito da minha imagem. Agora não é tanto da minha imagem, é de fato perceber isso. O Robinson Crusoé vivia numa ilha sozinho, por que ele usava roupa? Não tinha ninguém lá, não pra se proteger, não era isso. Foi um dos livros que mais me marcaram. Tirando os livros de organização pessoal, tipo A arte do descarte, Organize a sua casa em cinco minutos, A mágica da arrumação, Manual de limpeza do monge budista, coisas assim. E os de arte, né? Mas esses… 

G: Aí o Coser…

Foto Clara Machado, junho 2016

Aline: E aí eu, que sempre valorizei a roupa como uma situação da minha vida, me dedicava e gostava disso, percebi que a condição da vestimenta é uma condição civilizatória. Pode parecer meio estúpido falar uma coisa dessa, mas pra mim foi uma grande epifania assim. Entendia isso como uma coisa externa a mim, e ali tive noção de que não era só usar roupa, era perpetuar todo um processo civilizatório muito específico, de um lugar específico, de uma forma específica de vestimenta, de modelagem. Tive uma grande questão: por que não fico nua o tempo todo?  Por que preciso usar roupa? Nunca tinha feito performance nua, raramente fico nua em situações públicas por causa de uma sexualização da nudez, mas sempre curti muito ficar pelada. Não sabia muito bem o motivo e entendi que é porque não necessariamente, a não ser que eu esteja com frio, preciso usar roupa.  Comecei a ficar muito nessa coisa de usar uma roupa da violência. E tem toda uma questão de você costurar sua própria roupa e ter uma noção do seu corpo. Pra mim isso é interessante, mas não é o meu foco principal.  É muito mais desse lugar da necessidade de você se vestir. Isso atua dentro da sua personalidade, de quem você é.

Também comecei a pesquisar uma ideia de modelagem que você aproveita o tecido inteiro e não produz sobra – numa ideia de costura mínima: o mínimo possível pra estruturar aquela roupa como uma roupa. Essa é a pesquisa que tô empreendendo agora com o tecido. Usar o comprimento inteiro, mas em vez de usar esse comprimento pra produzir várias camadas, foco em produzir o mínimo possível pra ela se estruturar como uma roupa. Por exemplo, pra fazer uma blusa, dobro um tecido, faço um buraco e só costuro ao lado. Isso já é uma blusa.  E isso também possibilita, que é a ideia do Coser, fazer encontros nos quais as pessoas costurem sem a necessidade de uma máquina. Nem todo mundo tem uma máquina, e já que a gente vive numa sociedade vestida e existe essa questão, se todo mundo for ter que ter uma máquina pra produzir uma roupa pra si vai ser uma loucura, porque custa caro, então você consegue produzir uma blusa com uma agulha e linha sem precisar depender de uma indústria extremamente violenta e grotesca.

G: Fico pensando muito nesse problema política e arte. A gente tá numa época em que tudo se diz político – política entendida como a experiência, o exercício, as relações de poder. E aí fico nessa de como lidar com a política como se ela fosse só mais uma dimensão da vida, e não como se ela fosse uma única dimensão. Porque às vezes essa questão escamoteia muito da força poética, da força criativa da própria obra mas ao mesmo tempo tá atravessada por isso. E agora você ficou falando muito de política, mas também é um atravessamento da vida mesmo, de lidar com as situações que a vida te impõe, e como todas as dimensões estão presentes em uma criação artística…Não sei, às vezes a política se torna um valor e não uma relação, às vezes se esquecem do vigor criativo…

Aline: Essa questão política sempre atravessou quem eu sou, sempre. Era muito louco. Por exemplo, a minha mãe é branca e meu pai é negro. Várias vezes, quando era criança e saía com a minha mãe, tinha medo de pensarem que era adotada. Quando entrei no CAp, da minha entrada até o meu terceiro ano, a quantidade de alunos negros presentes na turma diminuiu drasticamente. Não tava falando de arte, não tava nem me importando, nem tinha relações com a arte tão grande assim, mas era uma questão pra mim assistir a isso. Na minha vida, as questões políticas são mais reais até do que as questões artísticas. Eu me sentir confortável em trabalhar com a Bendita Gambiarra, trabalhar numa situação alternativa de distribuição de objetos artísticos, talvez seja um movimento mais político do que de fato ser por conta de uma questão artística.

A minha vida inteira são os territórios híbridos. Sei lá, se não fosse arte e política, fosse arte e vida sua pergunta, acho que… É tipo Israel ou Palestina, DOPS ou Museu da Polícia Civil. Sei lá… É difícil, você sabe onde quer estar de alguma maneira, qual nome você usa pro lugar, mas você precisa escolher, pra mim é política e é arte também. Em algum momento talvez prefira que seja política, em outro prefira que seja arte. Às vezes, por exemplo, quando tô conversando com um círculo social que de alguma maneira me infantiliza, ou cria algum tipo de relação de poder sobre mim, eu sou uma empresária, tenho uma marca, vivo de um trabalho. Num outro perfil, sou uma costureira, costuro em casa pra fora, sacou? É isso que faço também. Sou uma artesã, faço artesanato.

Consigo entender a sua indagação muito mais no meu corpo, como sujeito. Você não precisa responder isso, a sua mente não dá conta de uma resposta, você não é um computador… E nem um computador dá conta dessa resposta. Não sei, é muita informação, muita categorização. Por exemplo, você perguntou isso dos blogs, a maior parte dos blogs… Tenho um blog proust4ever, só de fotos, isl4ain, vernáculo, anabelle, tualine, besouro, rumine, bendita gambiarra… Tem pessoas que vão optar por pensar determinados trabalhos como trabalhos políticos, outros como estéticos. Na verdade não é uma questão de interesse. A ANTESSALA é um trabalho político. Talvez as pessoas não vejam a Bendita Gambiarra como um trabalho político, mas pra mim é totalmente político, eu tá produzindo arte e tá conseguindo viver disso sem ser inserida numa situação de galeria, a gente faz parte de um circuito já que a gente sequer almejou fazer parte, a gente nem sabia que a gente podia fazer parte de um circuito, assim, tamanhas as barreiras de acesso, né? Que esses ambientes podem promover pra gente…

ANTESSALA

Acho que é mais difícil as pessoas verem isso no Bendita Gambiarra do que no ANTESSALA , por exemplo. É muito mais fácil você pegar o ANTESSALA e falar, ah, isso é um trabalho artístico-político do que a Bendita Gambiarra, tô falando de mim né? Tô aproveitando de falar de mim porque eu amo, me amo, inclusive. Mas posso falar tudo pra você, é só discurso também. Essa sua inquietação pra mim é uma coisa meio nonsense até, porque na minha cabeça não consigo imaginar isso. Ah, nem tenho muito tempo…  Aquilo do DOPS foi muito importante pra mim. Tanto que ainda não sei lidar com essa situação. É porque diz respeito de quem eu sou, né? De alguma maneira. Você falou ah, eu não tenho uma relação propriamente com esse lugar, mas tenho uma relação histórica, né, cara? Sou uma pessoa, nascida nesse território, nesse lugar, não estive nascida nessa situação, mas os meus pais estiveram, os meus pais não foram torturados mas eles viveram sob esse sistema, meus avós, meus tios… É tudo no mesmo lugar, e todas essas são dimensões políticas.

Às vezes gasto muito tempo pensando sobre isso, e tem a ver com a memória, esse não-lugar, não-não-lugar, mas… O que é, né? Ah, sou fruto de uma sociedade que passou por essa situação de ditadura, isso faz parte de quem sou também.  Querer modificar isso é uma coisa da vida inteira. Essa coisa de se vestir mesmo. Roupas. Talvez eu não esteja lidando com a minha herança nua, com meus ancestrais nus especificamente, mas tô lidando com uma parte do que eu sou. Porque sou um sujeito humano. Não sei, eu piro todas. Direitos, né? A gente precisa lidar o tempo todo com eles. 

¹ N.E: Aranha é um aracnídeo, não um inseto. Porém, tanto insetos quanto aracnídeos fazem parte dos artrópodes.

Maio de 2019

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