#18 Edição/artes visuais

On Kawara is dead.

on kawara twitter

A notícia da morte de On Kawara foi divulgada no Twitter por um representante da David Zwirner Gallery, galeria que representa o artista desde 1999 e que ano passado lançou um catálogo sobre o trabalho dele. A autora Lei Yamabe escreveu no catálogo1 a seguinte reflexão: “A série será completa quando o corpo de Kawara deixar de existir”. Ela se referia a Today Series, uma das diversas séries feitas pelo artista durante sua vida. Esta indagação surge quando, sem qualquer tipo de explicação, a conta do twitter de nome On Kawara posta: “I am still alive”, em 11 de julho de 2014, um dia depois de anunciada a morte do artista. Ele continua vivo?

O artista nasceu no Japão em 1933 e seu trabalho foi exibido pela primeira vez em Tóquio no início dos anos 50. Diferente da imagem que se tem dele como artista conceitual, ele começou seus trabalhos de pintura retratando espaços marcados por figuras de corpos decepados e dor. Pode-se relacionar a experiência do fim da Segunda Guerra como um dos motivos para compreendermos os temas que atravessam os trabalhos do artista. Em suas séries dos anos 60 os trabalhos desenvolvem conceitos que oscilam entre viver e sobreviver.

Os dias se tornam datas em Today Series, os acontecimentos do cotidiano perdem os referenciais subjetivos que são necessários na criação de nossas mitologias pessoais e passam a ser decodificados como data, traçando um vínculo apenas com o espaço em que foi materializada em tela pelo formato escolhido. As datas têm o referencial do jornal, como se a inscrição circunscrita ao calendário pudesse sintetizar ao máximo todas as experiências vividas, esse gesto transforma o dia em único e inesquecível, existindo como monumento. E pelo mesmo motivo de síntese perde o referencial dos acontecimentos sensíveis. Cada pintura torna-se um dia daquele que pinta o tempo que passa.

today series on kawara

Today Series de On Kawara (1973)

Em outra série de trabalhos iniciada nos anos 70, o artista datilografa num telegrama a frase “I am still alive” (eu continuo vivo) e envia a amigos. O telegrama é enviado ao outro, o objeto vai ao encontro do outro que recebe a mensagem cujo assunto é banal pela constância e monumental pela possibilidade de morte. Nessa série, On Kawara trata de maneira singular o espectador, ele quer dizer a um, aquele que segura o telegrama, a quem ele precisa contar que continua vivo, mas a mensagem se ausenta de qualidades ressaltando o acontecimento, a presença desse corpo que está no texto, independe das camadas subjetivas e outros assuntos: a própria urgência do telegrama é a vida. Essa necessidade de chamar a mensagem para si como organismo vivo se confunde com a condição do leitor, espelho do eu que escreve: ser vivo é ler a urgência de alguém que vive. Deixar de estar em relação ao outro seria estar morto? A quem pertence o fato escrito no telegrama?

i am still alive on kawara

Série telegramas I am still alive (1975)

No suporte escolhido inicialmente para essa série é possível reconhecer questões referentes à História da arte nos anos 70, como a desmaterialização do trabalho do artista e a tênue linha entre arte e vida. E hoje, pode-se perceber que a expansão desse trabalho para o meio virtual pela conta do twitter2 permanece traçando outras questões que esbarram no conceito de vida, de presença virtual e arte.

Enquanto no telegrama I am still alive o corpo de quem fala era o motor da mensagem e o diálogo era traçado de um para um, no twitter, assim como em outras redes sociais, a mensagem surge como informação. Para quem se fala? No universo das tecnologias de comunicação o corpo é prolongado por próteses, como diz Henri-Pierre Jeudy: “A visão do autômato, como a de uma cópia mimética, desaparece em benefício de uma fusão entre o corpo e seus dispositivos automáticos de comunicação”3. O autor desenvolve uma ideia de espiritualidade absoluta a partir dessa união com o virtual. Por outro lado, a prótese na rede proporciona intercâmbios de modos de existência sujeitos ao controle de alguém que olha, mesmo que não seja intencional ser visto, como é o caso do blog “On Kawara is not dead”4 do artista Danny Devo, que postou ocasionalmente fotos de páginas de obituários em que estampava “On Kawara is not dead”. Esse trabalho foi executado no período de 2006 a 2012 e rendeu uma caixa com as páginas de obituários. No blog de Danny Devo, uma postagem foi feita no dia 11 de julho de 2014 sem imagem e com o título “On kawara is dead”. Mesmo que o trabalho de Devo tenha se desenvolvido para além dos gestos virtuais do twitter de On Kawara e ainda que ambos se utilizem de plataformas materiais e virtuais, aparece aqui uma preocupação com o espaço virtual que se aprofunda na relação com a ação dos telegramas.

on kawara is not dead - danny devos

On Kawara is not dead , Danny Devo (2006 até 2009)

Diferente do desdobramento virtual proposto pelo artista Devo, a afirmação no twitter de On Kawara propõe uma substituição entre o corpo do artista e o dispositivo de comunicação, alguém escreve “eu estou vivo”, o eu torna-se uma projeção na superfície da tela e a própria informação do corpo passa a ser incluída na informação do twitter. É como se a imagem virtual se tornasse o único corpo a partir do que é compartilhado compartilhada. O divórcio entre o corpo e o trabalho de arte, atualizado todos os dias na rede, nos põe a indagar: o artista continua vivo? As condições de recepção e produção da obra nesse caso independem do artista, cujo trabalho permanece vivo nas ondas da internet; dissolve-se o artista. Existe nesse caso uma experiência de fraude, onde o autêntico ato de vida do artista é substituído por alguma coisa que não morre. Existe também no caso das redes sociais a proposta de uma vida que é constantemente assistida nos seus aspectos banais, nesse caso não se sabe mais se a conta do twitter é um objeto específico da arte. Ao postar em sua pele física-digital On Kawara segue remetendo-nos a sua existência para além do que ainda compreendemos em nossa relação com a rede e com o próprio existir. Resta o enigma: quem ainda está vivo?

 


 

Notas:

1. Lei Yamabe Writing escreve no no catálogo para exibição na David Zwirner Gallery ano passado, referencia do release disponível em: http://www.davidzwirner.com/wp-content/uploads/2011/12/On-Kawara-Press-Release-20121.pdf .
2. Desde 2009 alguem escreve “I STILL ALIVE” no twitter de nome On Kawara. https://twitter.com/On_Kawara/
3. Henri-Pierre Jeudy. “O corpo virtualizado”. In O corpo como objeto de arte. São Paulo: Estação Liberdade, 2002. p. 156
4. http://onkawaraisnotdead.blogspot.be

Aline Besouro, maio 2015

 

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