N.E: Francesco Petrarca (1304-1374) e Giovanni Boccaccio (1313-1375) são considerados precursores dos movimentos humanistas que seriam a base do chamado Renascimento, processo que começou nas cidades ricas da península itálica em meados do século XIV e se espalhou pela Europa.
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A carta faz parte do epistolário de Francesco Petrarca. Uma das que enviou a Giovanni Boccaccio, ela discute imitação (a imitatio dos romanos, a mimesis dos gregos) e processo de leitura. É um nexo entre escritores que revolucionaram a poesia e a prosa ocidentais (Petrarca com a lírica e Boccaccio com os contos). Sobre a imagem, a fonte é: detalhe da pintura Seis poetas toscanos, de Giorgio Vasari, 1544. À esquerda, Petrarca; à direita, Boccaccio.
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Logo após sua partida e apesar da minha angústia, porque ainda não sei como permanecer no ócio (embora, para dizer a verdade, tudo o que faço seja nada ou quase nada), pedi um favor pessoal ao nosso amigo para que ele me ajudasse no trabalho que eu havia começado contigo: revisar as transcrições do Bucolicum carmen, cuja cópia você levou. Ao conversar com aquele bom homem de maneiras antiquadas, que não é um amigo de pouco raciocínio, mas um leitor lento, notei várias palavras curtas repetidas com mais frequência do que eu gostaria, bem como algumas outras coisas que precisavam ser mais polidas. Assim, eu lhe pedi para não apressar sua transcrição nem dar uma cópia a Francesco, sabendo do seu interesse por tudo o que possuo, especialmente meus escritos; na verdade, se o seu amor não interferisse no seu julgamento, eles seriam indignos dos seus dedos ou dos seus olhos. Pensei que poderia facilmente fazer as correções em poucas horas após retornar à minha casa no campo, para onde me preparava para partir apressadamente no dia primeiro de julho, mas estava enganado. As revoltas frequentes, e quase anuais, na Ligúria me mantiveram na cidade, apesar do meu grande amor pelo campo e ódio pelo seu contrário; muito recentemente, como meu medo começava a parecer maior do que o perigo real, por volta do início de outubro, o que foi bastante tarde, a confiança conseguiu superar o incômodo atraso e cheguei às margens do Adda, que por enquanto é o local do meu retiro solitário. Estou aqui há oito dias, onde a chuva constante e um outono inclemente, ou melhor, um inverno precoce, prometem uma pausa muito curta. No entanto, durante esse breve intervalo, que o céu e o tempo ameaçam encurtar, me concentrei em revisar aquele poema e, no processo, percebi que a lentidão do leitor ajuda no trabalho do revisor. Sem dúvida, se um leitor polido, rápido e inteligente torna o material lido um deleite, então um leitor lento, hesitante e obtuso ajuda a descobrir e detectar erros. Por Júpiter, isso não difere de qualquer outra coisa. Dê um cavalo defeituoso a um cavaleiro habilidoso, experiente em equitação, e os defeitos permanecerão ocultos; com um cavaleiro inexperiente, todos eles ficarão evidentes. Confie uma causa injusta a um advogado ilustre e ele habilmente ocultará a injustiça; leve um advogado inexperiente ao tribunal e a injustiça do caso será revelada, juntamente com a ineptidão do defensor. Talvez você tenha esquecido a decisão de Catão, o Censor, de substituir imediatamente o acadêmico Carnéades, líder de uma delegação filosófica enviada a Roma pelos atenienses, alegando como motivo que não era fácil compreender o quanto de verdade ou falsidade havia em tudo o que ele dizia. É realmente assim: a habilidade de um especialista esconde todos os defeitos. Enquanto o nosso amigo lia, vi o que não tinha visto enquanto você lia, e agora aprendi realmente que, quando se busca prazer em uma obra, é preciso ter um leitor rápido e agradável; quando se busca correções, o leitor deve ser lento e sem tanto tato. De qualquer forma, para não encher a carta com detalhes enfadonhos, quaisquer alterações que eu deseje fazer no poema estão indicadas separadamente.
Há uma coisa que achei que não deveria ser omitida ou excluída dessa carta, algo que era desconhecido para mim até hoje e ainda é inacreditável e surpreendente. Sempre que escrevemos algo novo, muitas vezes erramos no que nos é mais familiar, pois isso nos engana no próprio ato de escrever. Aquilo que aprendemos lentamente conhecemos melhor. Você perguntará: “o que você está dizendo? Isso não é uma contradição? É impossível que os opostos sejam ambos verdadeiros; como você pode escrever que o que conhecemos melhor conhecemos menos e o que absorvemos mais lentamente conhecemos com mais firmeza? Que Esfinge ou enigma é esse?”. Vou explicar. Coisa semelhante acontece em outras áreas, como, por exemplo, quando algo escondido com mais cuidado pelo chefe da família está menos facilmente disponível, ou quando algo enterrado mais profundamente é descoberto com maior dificuldade. Isso se aplica a coisas materiais com as quais não estou lidando. Para não mantê-lo em suspense com circunlóquios, aqui está um exemplo. Apenas uma vez li Ênio, Plauto, Marciano Capela e Apuleio e tudo foi feito de forma apressada e rápida, sem tolerar atrasos, como se faria em território desconhecido. Procedendo dessa maneira, vi muitas coisas, selecionei algumas, guardei ainda menos, e essas eu deixei de lado como propriedade comum em um lugar aberto, no próprio átrio, por assim dizer, da minha memória. Consequentemente, sempre que as ouço ou uso reconheço rápido que não são minhas e me lembro de quem são; elas realmente pertencem a outros e eu as tenho em minha posse com a consciência de que não são meus frutos. Eu li Virgílio, Horácio, Boécio, Cícero não uma, mas inúmeras vezes, e minha leitura não foi apressada, mas vagarosa, ponderando à medida que avançava com todos os poderes do meu intelecto; eu comia pela manhã o que digeria à noite, engolia quando menino o que ruminaria quando homem mais velho. Absorvi completamente esses escritos, implantando eles não apenas em minha memória, mas em minha medula, e todos se tornaram tão parte da minha mente que, mesmo que eu nunca mais os lesse pelo resto da minha vida, permaneceriam comigo, tendo se enraizado nos recônditos mais profundos da inteligência. Mas às vezes devo esquecer o autor, pois, devido ao uso prolongado e à posse contínua, posso adotá-los e, por algum tempo, considerá-los meus; e, cercado por uma grande quantidade desses escritos, sou capaz de esquecer de quem são e se são meus ou de outros. Isso é o que eu quis dizer sobre as coisas mais familiares nos enganarem mais do que outras. Se às vezes, por hábito, elas voltam à memória, muitas vezes acontece que, para uma mente preocupada, profundamente concentrada em outra coisa, elas parecem não apenas ser suas, mas ser, para sua surpresa, novas e originais. Por que digo que você ficaria surpreso? É certo que você também admitirá prontamente ter experimentado algo semelhante. É real que passei muito tempo tentando identificar minhas fontes; chamo como testemunha nosso Apolo, o único filho do celestial Júpiter e verdadeiro Deus da sabedoria, Cristo, de que não tenho sido ávido por saquear, de que me abstive de roubos intelectuais, bem como materiais. Se algo contrário a isso for encontrado em minhas obras, resulta de uma afinidade intelectual no caso de autores que não li (como escrevi em minha carta anterior) ou, no caso de outros, do tipo de erro que estamos discutindo agora. Admito que gosto de embelezar minha vida com ditos e prescrições de outros, mas não meus escritos, a menos que reconheça o autor ou faça alguma mudança significativa para chegar ao meu próprio conceito a partir de muitas e variadas fontes, imitando as abelhas. Caso contrário, prefiro muito mais que o estilo seja meu, incultivado e rude, mas feito para se ajustar, como uma roupa, à medida da minha ideia, em vez da de outra pessoa, que pode ser mais elegante, ambiciosa e adornada, mas derivada de um engenho maior, que continuamente escorrega, inadequado às humildes proporções do meu intelecto. Cada peça de roupa combina com o ator, mas nem todo estilo combina com o escritor; cada um deve desenvolver e manter o seu próprio estilo, de modo que não acabemos vestindo roupas grotescas de outras pessoas ou tendo nossas penas arrancadas por pássaros que se reúnem para recuperar as suas e sejamos ridicularizados como um corvo. Certamente, cada um de nós possui de maneira natural algo individual e pessoal em sua voz e fala, bem como em sua aparência e gesto, que é mais fácil, mais útil e mais gratificante cultivar e corrigir do que mudar. Alguém pode comentar: “e o que você pensa de si mesmo?”. Não você, meu caro amigo, que me conhece bem, mas um daqueles que observa os outros, totalmente seguro em seu silêncio e a salvo de críticas, que aprendeu a dirigir comentários sarcásticos contra nossas palavras. Que ele ouça com atenção, pois só se gaba com base no que ouve. Eu não me pareço com a descrição de Juvenal: “um profeta ilustre, não de veia pública, que geralmente não repete nada do que foi dito nem compõe um poema com moedas comuns e ordinárias”, que o próprio escritor não desejava identificar, mas simplesmente imaginar. Também não sou como Horácio: “fui o primeiro a plantar passos livres ao longo de um caminho intocado”, “fui o primeiro a revelar os iâmbicos parianos ao Lácio”; nem sou como Lucrécio: “sozinho vagueio pelos caminhos remotos das Musas, anteriormente não trilhados por nenhum homem”; nem como Virgílio: “adoro subir encostas suaves às alturas onde nunca antes passaram passos até a fonte de Castália”. A realidade? Sou alguém que pretende seguir o caminho dos antepassados, mas nem sempre os passos dos outros. Sou alguém que deseja, ocasionalmente, fazer uso dos escritos dos outros, não secretamente, mas com a permissão deles e, sempre que possível, prefiro os meus próprios. Sou alguém que se deleita na imitação e não na semelhança, num símile que não é servil, onde o gênio do imitador brilha mais do que sua cegueira ou sua inaptidão. Sou alguém que prefere muito mais não ter um guia do que ser obrigado a seguir um em submissão. Quero um guia que me conduza, não um que me prenda a ele, um que me deixe livre para usar minha própria paisagem, julgamento e liberdade; não quero que ele me proíba de pisar onde desejo, de ir além dele em algumas coisas, de tentar o inacessível, de seguir um caminho mais curto ou, se assim o desejar, mais fácil, e de acelerar ou parar ou mesmo de me separar e retornar.
Mas, em minha excessiva divagação, te tenho distraído indevidamente. A questão hoje é a décima égloga do meu poema pastoral, onde escrevi em uma determinada seção: “solio sublimis acerno”. Ao reler o verso, percebi sua grande semelhança com as palavras de Virgílio no sétimo livro do seu grande poema: “solioque invitat acerno”. Por consequência, você deve alterá-las e substituí-las pelo seguinte: “e sede verendus acerna”. Pois eu desejava que o trono imperial romano fosse de bordo, porque em Virgílio o cavalo de Troia é assim; como na teologia a madeira foi a causa primeira da miséria humana e, mais tarde, da redenção, também na poesia não apenas essa mesma madeira em geral, mas a mesma árvore em particular causou a ruína do império e sua posterior refundação romana. Aí está o essencial do meu pensamento, sem necessidade de mais explicações.
Na mesma égloga havia uma passagem que foi estranhamente ignorada devido à minha familiaridade com ela e assim cometi um erro que não teria acontecido se eu estivesse menos familiarizado; nem era uma passagem apenas semelhante com a outra, mas idêntica. O mesmo aconteceu comigo como com a pessoa que não consegue ver um amigo bem diante dos seus olhos. A passagem dizia assim: “quid enim non carmina possum?”. Recuperando o juízo, percebi que o final do verso não era meu, mas por um tempo não reconheci de quem era pela simples razão de que, como disse, já o havia feito meu; o descobri nas Metamorfoses de Ovídio. Portanto, você deve alterar isso também, substituindo pelo seguinte: “quid enim vim carmines equet?”: um verso que não é inferior nem em expressão nem em conteúdo. Que seja então meu, mesmo que deva ser meu como corrigido; que o outro retorne ao seu dono e seja de Ovídio, pois eu não poderia roubá-lo dele se quisesse nem gostaria de fazê-lo se pudesse.
Embora eu saiba que alguns escritores antigos, Virgílio em particular (quando se vangloria de ter tirado o bastão de Hércules), não apenas traduziram inúmeros versos do grego para o latim, mas também os transferiram de obras estrangeiras para as suas próprias, não por ignorância, já que não se pode imaginar que exemplos tão ilustres e evidentes tenham sido roubados desta ou daquela fonte, nem, se deduz, com o objetivo de roubar, mas sim com o objetivo de competir. De qualquer forma, eles tinham maior liberdade ou uma mentalidade diferente. Quanto a mim, se forçado pela necessidade, permitiria a mim mesmo usar as palavras de outra pessoa conscientemente, mas com o objetivo de parecer melhor. Se, por ignorância, eu alguma vez pecar contra esse princípio, se certifique de que eu saiba disso: reconhecerei de prontidão sua boa-fé e devolverei o que roubei. Os dois versos que temos discutido se enquadram nessa categoria; e se você encontrar mais, sinta-se à vontade para corrigi-los ou me corrigir de maneira amigável. Pois você ou qualquer um dos meus amigos não pode fazer nada mais agradável para mim do que mostrar uma mente verdadeiramente amigável, livre e intrépida ao corrigir meus erros. Nenhuma crítica é mais bem-vinda do que aquela que censura meus modos: estou pronto para retificar de boa vontade meu estilo e minha vida, não apenas seguindo os conselhos dos amigos, mas também as críticas dos rivais, desde que, em meio às sombras da inveja, brilhe um lampejo de verdade. Sê feliz, se lembre de mim e até.