Ainda havia areia entre as folhas de meus livros. Desgarrava-se das letras e se prendia magneticamente aos meus dedos , sem deixar desapercebida a lembrança do que para mim sempre fora a praia. Talvez ainda o cheiro de mar pudesse se fazer sentir, impregnado, caso meu nariz deixasse-o fazer sentir. A materialidade evanescente da areia ganhava sobre a dos odores a vantagem de não tanto depender de meus sentidos débeis. Fosse meu nariz responsável por meu acesso ao mundo e haveria pouco mundo, apequenar-se-ia até nem mais caber-me. Felizmente pude escapar. A areia forçava-se a mim quase que independente. Reorganizados à estante, os volumes deixavam como que sobressaltos de areia sobre a madeira. Pequenas dunas pessoais. Fiz questão de assim deixá-las, protegendo no que era possível as memórias guardavam.
Por um segundo me veio a realização de ser aquela maquete o mais próximo que tenhamos de uma praia, em Lexington. Talvez uma praia exclusiva, uma praia que meus livros autonomamente para mim importaram e ali se assentou. Não demoraria para que também ela se escandisse até a desaparição. Gostava-lhe ali. Não tardaria sua desaparição. Imaginei que não desaparecesse e fosse antes aos poucos alimentada, calculados os volumes necessários para que aos poucos crescesse, os pequenos livros de bolso encharcados para ali brotar também um mar. Era à toa que minha mente arquitetava uma cabine de livros a fazer mosaico e projetar, para dentro da estante, o pouco de Portugal que em si conseguiam trazer. Cada um com sua nobre função, alguns sacrificando-se mais que outros, deixando-se demorar entre a ventania salgada ou enterrando-se lentamente num mar branco ou pondo-se a receber o pouco que lhes chegasse de mar e lhe borrasse as tintas.
Cheguei mesmo a pensar sacrifício de toda minha biblioteca. Que, assim chamada, faz parecer as pequenas colunas que semestralmente crescem ao lado da cama muito mais do que são. Pensei pô-la toda à deriva, arriscada, e imaginei que aquilo que em seus livros guardava era menos que os poucos grãos de areia que agora deixava cair. Pois entre a areia me vem ainda teus olhos doces, o sorriso de meus amigos que são abraço mais que dentes, alguns calos que não se sentem nem mesmo após relaxarem-se os pés, o sol agora preso à minha pele que crava em mim donde a pele se encontra em casa, donde minha pele é. Que talvez tenha estado por demasiado tempo soterrada sob a neve, a confundir-se com quem não se é. E penso que meu corpo todo talvez seja areia, meu corpo todo talvez seja da cor daqueles grãos queimados, prostrados eternamente sob o sol a mesclar sal de suor e mar. E lembro de ti, dos meus amigos, do meu corpo que é todo grão querendo desaparecer.