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Gritos e Sussurros

julho, 2026

Gritos e sussurros por debaixo do assoalho da cozinha. não se sabe o que virá no minuto seguinte não se sabe e ninguém. não se sabe mas bárbara se encarregou de tecer as primeiras conjecturas sobre o episódio especulando que lá havia tal e tal coisa e outras mais tais e tais e falou um tanto de merda dessas que ouvimos por educação e obviamente quando se é adulto não dá pra sair mandando as pessoas enfiarem suas palavras no cu e obviamente não havia necessidade de ser tão estúpido em assunto tão trivial mas a voz de bárbara as vezes incomodava por existir e por tomar de assalto o ambiente em que ecoava como o faz o mar. eu não escutara os barulhos até que bárbara escutou por mim antes de ser lídia eu não escutava pois absorto escutava a voz de sargento o samba agoniza mas não morre e meus ouvidos eram somente para isso mas lídia escutou por mim gesticulando como se comunicavam os serra-peladenses como alguém que. lídia era uma hecatombe. a mesma voz que por vezes incomodava meus ouvidos atiçavam imediatamente todos os sentidos mais impávidos que haviam de existir num homem de meia idade já cansado de muita coisa puta que pariu nunca mais lerei o globo esses filhos da puta até amanhã quando novamente ler o globo e dizer que nunca mais o lerei e cansado de trabalho walmart coca-cola vizinhança essas coisas mas ainda disposto ao sexo cerveja outras drogas belas artes e a lídia. para ela é que meus ouvidos existiam quando não existiam para o samba o jazz o choro o blues além das burocracias diárias já citadas e ver lídia aos berros me sobressaltou e foi então que ela me disse olha pra você ver e eu vi os gritos e sussurros por debaixo do assoalho da cozinha. de início pensei em terroristas ou ladrões ou judeus fugindo de nazistas mas estávamos em uma casa velha no interior do estado do espírito santo santo deus que nome mais impróprio a um lugar em tempos tão sem espírito tampouco santos mas é lá que estávamos e assim é chamada a terra dos capixabas que um dia foi dos botocudos antes dos saques dos incêndios da carnificina e dos estupros portugueses na terra do eldorado. mas as veias abertas eram outras eram as veias de lídia que então era madalena em prantos de sangue e por madalena eu fui até a cozinha para enfrentar o desconhecido inimigo do assoalho que. o pior pesadelo se instala agora. há uma ratazana enorme madalena uma enorme ratazana no nosso underground cantando como se howlin wolf fosse isso pouco importou pois nesse exato momento a ratazana já se apropriava do corpo e alma e membros de madalena e antes que eu pudesse mover os ossos da face minha doce miss regina já era outra figura que não a miss regina que percebera o visitante na cozinha segundos atrás. a essa altura nosso hóspede oriundo dos encanamentos habitante do assoalho da cozinha já era miss regina my little darling era ela como todo homem é o beef que come como um usurpador de corpos e senti por meio momento os olhos de miss regina ecoando uma dor inexplicável e um assombramento indescritível por ser um outro mesmo que de forma tão pouco desejada. o tempo era escasso e rápido como a felicidade mas pensei em miss regina mon amour sentirei sua falta mas por pouco tempo pois ainda estamos eu e você como ratazana um defronte ao outro mas agora uma ratazana com um olhar diferente querendo me amar em algum recanto desse corpo que agora é dois mas com dentes que não conhecem o amor senão a voracidade. você grita e não mais sussurra maria e sinto seu hálito agridoce tão de perto que te conheço por dentro e tenho a plena certeza que seremos três e me excito copiosamente como quando daquela primeira trepada com você nos escombros da igreja em que nos casamos no dia dezesseis de julho de mil novecentos e oitenta e sete quando por um segundo alargado esqueço-me de todo esse descaminho doméstico e percebo a agulha arranhando meu vinil querendo ser lado b puta que pariu que morte desgraçada mas eu poderia ao menos tocar as ataduras da tua boca e gravar na fita amarela seu nome em letras garrafais M A R I A para que no minuto seguinte estejamos prontos para o grande passo a ser dado. no porvir. não se sabe e ninguém.

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