instantâneos/literatura

Nikolai Gógol – Avenida Niévski

cosacConstruída em cima de pântanos, São Petersburgo surge no começo do séc XVIII com muito sacrifício a partir do nada. Em oposição a Moscou, a nova cidade seria a grande realização da Rússia Imperial, uma janela para o Ocidente. A surreal modernidade de Petersburgo tinha como epicentro a Avenida Niévski, mais grandiosa no século XIX que qualquer um de seus modelos europeus. Mas aqui a contradição do Progresso sequer foi disfarçada como no Velho Continente. Por trás da avenida mais moderna do mundo, havia servos, castas e um regime autocrata. A simbologia da Niévski foi capturada pelos grandes escritores russos da época, como Dostoievski em Memórias do Subsolo ou Gógol no conto a seguir.

Em “Avenida Niévski”, publicado em 1835, Gógol incorpora a modernidade na literatura, acompanha a passagem do dia, fragmenta sua descrição, e termina por seguir dois flâneurs em seus devaneios pela Niévski. Nota-se já nos primeiros parágrafos da obra uma antecipação de inúmeras experiências estéticas do séc XX.

 


Nikolai Gógol. Avenida Niévski, Cosac Naify, 2012. Tradução: Rubens Figueiredo. pp. 1-15 (134).

Não há nada melhor do que a Avenida Niévski, pelo menos em Petersburgo; para essa cidade ela representa tudo. Com o quê não brilha essa rua – beldade de nossa capital? Sei que nenhum dos pálidos funcionários públicos que a habitam, trocaria a avenida Niévski por qualquer vantagem que fosse. Não só quem tem vinte e cinco anos de idade, lindos bigodes e sobrecasaca admiravelmente benfeita, mas até quem tem pelos brancos que repontam no queixo e a cabeça lisa como uma travessa de prata se entusiasma com a avenida Niévski. E as senhoras! Ah, para as senhoras, a avenida Niévski é ainda mais agradável. Mas para quem ela não é agradável? Basta entrar na avenida Niévski para sentir o aroma de um passeio. Mesmo que tenhamos algum assunto urgente e incontornável, ao entrar na avenida certamente esqueceremos tudo. Aqui é o único lugar onde as pessoas aparecem não por necessidade, um lugar para onde são atraídas não por uma obrigação, nem pelo interesse comercial, que arrebata Petersburgo inteira. A pessoa que se encontra na avenida NIévski parece menos egoísta do que nas ruas Morskaia, Gorókhovaia, Litiéinaia, Mechánskaia e em outras ruas onde a ganância, a cobiça e a necessidade se manifestam nos pedestres e nas pessoas que passam em carruagens e em caleches abertas. A Avenida Niévski é a via de comunicação obrigatória de Petersburgo. Aqui, o morador de Petersburgo ou de Víborg, que há alguns anos não revê um amigo de Piéski ou do portão de Moscou, pode estar seguro de que o encontrará sem falta. Nenhum guia de ruas e nenhuma agência de informações fornece notícias tão confiáveis como a avenida Niévski. A todo-poderosa Avenida Niévski! A única alegria do pobre num passeio em Petersburgo! Como são limpas e varridas suas calçadas e, Deus, quantos pés deixaram nelas seus rastros. A bota suja e malfeita do soldado reformado sob cujo peso até o granito parece rachar, e o sapatinho em miniatura, leve como fumaça, da jovem senhorita que vira a cabecinha para as vitrines reluzentes das lojas assim como o girassol se vira para o sol, e o sabre tilintante do sargento-mor cheio de esperança, que o arrasta raspando com força no chão – todos descarregam sobre ela o poder da força ou o poder da fraqueza. Que veloz fantasmagoria se cumpre aqui no decurso de um só dia! Quantas mudanças ela sofre em apenas vinte e quatro horas! Comecemos pelo início da manhã, quando Petersburgo inteira sente o cheiro dos pães quentes, saídos do forno, e está cheia de velhas de vestidos e casacos esfarrapados que cumprem sua ronda pelas igrejas e atrás dos passantes piedosos. Nessa hora, a avenida Niévski está vazia: os gordos proprietários das lojas e seus balconistas ainda dormem em seus camisolões holandeses ou ensaboam sua honrada bocheca e bebem o café; os mendigos reúnem-se nas portas das confeitarias, onde um sonolento Ganímedes, que ontem voava como uma mosca para servir o chocolate, arrasta-se com uma vassoura na mão, sem gravata, e arremesa para eles pasteizinhos ressecados e restos de comida. Pessoas necessitadas arrastam-se pelas ruas: às vezes, passam mujiques russos, afobados para chegar ao trabalho, de botas tão sujas de cal que nem mesmo o canal Ekatierínski, famoso por sua limpeza, seria capaz de lavá-las. Nessa hora, habitualmente, não convém que as senhoras saiam, porque o povo russo gosta de empregar expressões tão brutas como certamente elas não ouvem nem no teatro. Às vezes um funcionário sonolento arrasta-se com uma pasta debaixo do braço, caso a avenida Niévski esteja no caminho de sua repartição. Pode-se afirmar com segurança que nesse horário, ou seja, antes do meio-dia, a avenida Niévski não é a meta de ninguém, serve apenas de meio: aos poucos, enche-se de pessoas que têm seus afazeres, suas preocupações, seus aborrecimentos, mas que não pensam nela em absoluto. Um mujique russo fala de uns tostões, ou de sete moedinhas de cobre, um velho e uma velha agitam as mãos ou falam sozinhos, às vezes com gestos muito imporessionantes, mas ninguém lhes dá ouvidos nem zomba dele, exceto alguns meninos de casaquinhos coloridos, que correm cmo raios pela avenida Niévski, com frascos vazios ou sapatos engraxados nas mãos. Nessa hora, não importa como você esteja vestido, ainda que, em vez de chapéu, traga um quepe na cabeça, ainda que a gola se apresente distante demais da gravata – ninguém repara nisso.

Ao meio-dia, preceptores de todas as nacionalidades fazem incursões na avenida Niévski, com seus pupilos de golas de cambraia. Johnsons ingleses e Kockes franceses caminham de braços dados com os pupilos confiados a seus cuidados paternais e, com uma seriedade decorosa, explicam-lhes que as tabuletas penduradas acima das lojas servem para que, por meio delas, se possa saber o que há dentro de cada loja. As governantas, misses pálidas e eslavas rosadas, caminham imponentes atrás de sujas menininhas irrequietas e ligeirinhas, ordenam que levantem um pouco mais os ombros e mantenham-se eretas; em suma, nessa hora, a avenida Niévski é a avenida pedagógica Niévski. Porém, à medida que se aproximam as duas horas, reduz-se o número de preceptores, pedagogos e crianças: são substituídos por pais carinhosos, que andam de braço dado com suas companheiras coloridas, variegadas e de nervos fracos. Pouco a pouco, vêm lhes fazer companhia todos os que terminaram seus importantíssimos afazeres domésticos, tais como: conversar com o médico sobre o tempo e sobre uma espinhazinha que nasceu no nariz, informar-se da saúde dos cavalos e dos próprios filhos, que de resto demonstram grandes talentos, ler um cartaz e uma importante matéria no jornal sobre quem está de partida e quem está chegando, e por fim tomar uma xícara de café e de chá; a esses somam-se as pessoas a quem uma sorte invejável contemplou com o abençoado título de funcionário para missões especiais. A esses vêm juntar-se também os que trabalham no Ministério do Exterior e se distinguem pela nobreza de suas ocupações e hábitos. Deus, como são belos os cargos e as funções públicas! Como elevam e comprazem a alma! Contudo, ai! não sou um servidor e me é vedado o prazer de ver o fino tratamento que os superiores dedicariam a mim. Tudo o que você encontra na avenida Niévski é repleto de decência: homens de sobrecasacas compridas, com as mãos enfiadas nos bolsos, mães de chapeuzinhos e redingotes de cetim cor-de-rosa, branco e azul-claro. Aqui, você encontra suíças singulares, que, com uma arte extraordinária e admirável, passam por baixo da gravata, suíças aveludadas, acetinadas, negras como a zibelina ou o carvão, mas, ai, elas pertencem a só um departamento do MInistério do Exterior. Aos funcionários de outros departamentos, a Providência recusou as suíças ruivas. Aqui, você encontra bigodes prodigiosos que nenhuma pena, nenhum pincel conseguiu retratar; bigodes aos quais se consagra a melhor metade de uma vida – objeto de zelos demorados, durante o dia e durante a noite, bigodes em que se derramaram os aromas e os perfumes mais maravilhosos e que foram untados com toda a sorte de cremes caríssimos e raríssimos, bigodes que à noite são enrolados num fino pergaminho, bigodes a que seus possuidores insuflam a mais tocante afeição e que os transeuntes invejam. Milhares de tipos de chapéus, de vestidos, de lenços – coloridos, leves, aos quais suas proprietárias se mantêm apegadas por vezes ao longo de dois dias inteiros – deslumbram qualquer pessoa na avenida Niévski. Parece que todo um mar de borboletas de repente se ergue dos caules e ondula como uma nuvem brilhante acima dos besouros negros do sexo masculino. Aqui, você encontra cinturas como jamais sonhou: cinturas fininhas, estreitinhas, em nada mais espessas do que o gargalo de uma garrafa; ao encontrar uma delas com o cotovelo de maneira descuidada e descortês; nosso coração é dominado pela timidez e pelo medo de que, por algum descuido, uma simples respiração possa despedaçar a mais encantadora obra da natureza e da arte. E que mangas de roupas de senhoras encontramos na avenida Niévski! Ah, que encanto! São um pouco parecidas com duas esferas de balão a gás, como se a senhora fosse erguer-se no ar de repente, caso o marido não a segurasse; pois é tão fácil e agradável erguer no ar uma senhora como levar à boca uma taça cheia de champanhe. Em parte alguma, ao se encontrarem, as pessoas cumprimentam-se com tanta nobreza e desembaraço como na avenida Niévski. Aqui, você encontra um sorriso único […]

 


 

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