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CAMINHOS PARA OUTRO CINEMA nº 3

“Tem um momento no Serras que tem uma matança dos índios, no início. A gente não vê a matança exatamente, mas vemos tiros acontecendo. Tem aquela sequência inicial deles na mata, como se fosse há muito tempo atrás, aquilo ali é ficção, levou um mês pra chegarmos naquela situação, pra conseguir que os índios ficassem totalmente nus, à vontade. E se vocês soubessem a felicidade que eles viveram naquele dia, de estarem naquela situação, que era uma situação que eles não viviam mais há 50 anos, porque eram nômades e agora são ilhados, estão em um apartheid, porque a gente não fala de apartheid nesse país mas tem uma apartheid indígena sim!

Então voltando um pouco à questão da imagem, naquela matança eu não queria mostrar nenhum índio levando tiro, não tinha sangue, não tem nada disso. Como fazer isso? Primeiro, eu filmei no mesmo lugar duas vezes, uma vez só com os índios, sem tiro, sem os representantes dos fazendeiros que iam matar os índios, e uma outra vez só com os outros, os índios não estavam lá. E na fusão, na montagem, na maneira de ser filmada, dá a impressão de que os índios estavam lá, vem o pessoal, dá tiro neles, eles morrem, etc. Então essas coisas são filmadas separadas. Primeiro, eu não queria colocar os índios em uma situação que representasse um conflito e eles tivessem que viver uma imagem de morte. Então eles riam, quando eu falava que no dia seguinte ia fazer a cena, eles falavam: “amanhã o Andrea vai matar a gente”, e davam risadas, era uma brincadeira. E na hora dos tiros, os tiros não foram dados na presença deles, eles estavam todos na aldeia e fomos só nós lá fazer os efeitos e filmar.

Mas tem um momento inicial nessa sequência que os capangas que vão matar os índios aparecem. Enquanto eles estão andando na mata, faço um paralelismo, um ângulo, outro ângulo, uma aproximação, até aí tudo bem. Mas como é o encontro, como fazer essa relação entre eles chegando? Os índios estão aqui, os caras atiram, eles morrem. Mas como fazer essa primeira entrada? A cena estava escrita, os caras se aproximam, dão tiros, etc. Isso é uma descrição física, não detalhada no sentido de dizer como eu ia filmar, porque eu nem sabia qual seria a locação, ela foi achada durante o processo de filmagem, eu fui parar no Maranhão e não sabia exatamente as locações, existia a aldeia, mas e na mata, onde? Porque a mata é uma diversidade muito maior do que a diversidade urbana. Pra você achar um cenário não existe uma linha reta, não existe uma superfície plana, é uma mistura, a cada movimento que você faz tem uma composição diferente. Então você achar um lugar específico pra isso não é tão simples assim. Parece tudo igual, então se for tudo igual eu posso filmar aqui, filmar ali, mas não é. Então teve um pouco essa preocupação.

Era fim de semana, dia de folga, eu ia filmar isso na segunda, ainda não sabia exatamente como, então eu falei: “sabe de uma coisa, eu vou passar o dia lá na mata por minha conta”, na locação onde íamos filmar, ficava meia hora perto da aldeia, fui por minha conta pra lá e passei o dia lá. Bom, imagina você passar um dia sozinho, lá dentro da floresta. Apesar que eu já tinha uma experiência anterior de alguns anos de ficar por minha conta dentro da mata, então não me preocupava, a mata em si não era nenhuma ameaça, vamos dizer assim. Mas, interiormente, era uma densidade que buscava uma solução, eu tinha um prazo, o dia seguinte, o dia seguinte, eu tenho que fazer. E tudo bem, então passam-se as horas, tomo um banho no rio, sento numa sombra, fico lá e vai esvaziando, aquela coisa que a gente estava falando antes, fui deixando sair fora todas as intenções e as intencionalidades que eu tinha, todas as maneiras que eu pudesse racionalizar pra filmar aquilo. Agora fica quieto, esquece, relaxa.

E aí eu estou sentado num tronco, diante dessa mata bem densa, com esse olhar que não é um olhar específico, que olha pra uma ou outra coisa, é um olhar meio geral. E como isso surge eu não sei dizer, mas me vem uma memória, de pelo menos 20 anos antes, em que eu estou andando numa mata e vejo no chão uma trilhazinha, não no sentido de ter andado, mas um pedaço do capim mais verde que era como uma linha. Eu olho pra dentro da mata, depois de um tempo que a vista se acostuma você começa a perceber todas as diferenças de tom, e esse verde mais luminoso ia embora e eu vou atrás, ninguém me disse pra ir atrás daquilo, o que era, pra onde me levaria. Quando eu digo que sou levado, sou puxado um pouco pela circunstância, é isso, me leva, eu vou parar num barranco e começo a escutar barulho de água. Água! Coloco o ouvido no chão, pra ouvir de baixo da terra, encosto no barranco, ouso um ruído e espontaneamente eu raspo com as mãos no barranco, que tinha um pouco de terra, e raspando dava em uma parede de pedra.

Eu limpo aquilo e ao fazer isso, é úmido, é molhado, da pedra, das trincas, da trama dos poros da pedra, surge a água, como o suor, como o suor na pele, centenas, milhares de pequenas bolhas, a água que a pressão da terra segurava e não deixava escorrer. Fazendo isso, surge essa água e começa a escorrer pela pedra. Naquela oportunidade eu caio no maior pranto, surpreso, “o que é isso?”, me arrepia e eu choro.

E eu estou na mata, 20 anos depois, nessa situação que eu estava contando, olhando a floresta de frente e essa imagem lá de trás, da água surgindo da pedra, eu enxergo os matadores dos índios saindo como se fosse um pedaço da floresta se manifestando. Que que eu faço? Pego os caras na manhã seguinte, enfio um monte de folhas fazendo eles em pé parecerem uma árvore e coloco eles juntos da floresta, parados, ninguém se mexe. Aí começo a rodar, agora vem, aí aparece uma parte da floresta que vem e eles vem pra cima da câmera ficando em primeiro plano.

E isso não está escrito em lugar nenhum, isso nunca foi roteiro, isso nunca foi pensado antes, nunca teria eu racionalmente, digamos assim, possibilidade de inventar uma coisa dessas. Então quando eu digo que o filme é o inventor de si próprio, eu sou só o meio dessa invenção, se eu permitir e não disser pro filme o que eu quero, mas deixar o filme dizer o que ele quer de mim. Essa é a relação, e atenção a uma coisa anterior, porque eu podia ter negado ou não ter dado atenção, mas o estado de calma, de relaxamento, de aceitação do meu não saber, me dá a resposta.”

serras

Andrea Tonacci,
fala durante debate na 17ª Mostra de Cinema de Tiradentes.


Baixar:

Andrea Tonacci – Conversas no Maranhão (1983)
Andrea Tonacci – Os Arara (1983)
Andrea Tonacci – Serras da Desordem (2006)
Andrea Tonacci – Benzedeiras (2008)


 

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