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Urbanismo e Crowdsourcing: A Provocação de uma Multidão

“Para construir, modificar e transformar a cidade, a multidão anônima é frequentemente um protagonista tão importante quanto os grandes autores”.(SECCHI, Primeira Lição de Urbanismo, 2006)

1. “Vinheta quebrante”1

Um financiamento coletivo para construção de uma piscina flutuante em um rio, um rodízio de moradores para trocas de baterias de sirenes de alerta de tsunamis, uma sinalização colaborativa de paradas de ônibus… Construção de pontes para pedestres, abertura de muros em parques, buracos de ruas transformados em buracos de golfe, uma estátua do Robocop…

O que estas histórias têm em comum? São todas intervenções urbanas, feitas por cidadãos comuns, que se organizaram pela internet e hackearam suas cidades.

Estes são alguns exemplos do uso do crowdsourcing para o Urbanismo – ou de crowdurbanismo.2

Crowdsourcing (crowd, multidão; e source, fonte ou origem) é uma forma de mobilização de recursos humanos – conhecimento, dinheiro ou mão de obra, por exemplo – facilitado por plataformas digitais – como sites ou apps.

Quando eu, arquiteta e pós-graduanda, comecei a estudar o crowdurbanismo, em 2012, a ideia pareceu estranha. O crowdfunding – financiamento coletivo – e o crowdmapping – mapeamento participativo – haviam surgido há pouco mais de cinco anos. Naquele momento, já se falava muito disto nas ruas e nas redes. Ao contrário, falava-se muito pouco disto no meio acadêmico (ou, ao menos, era esta a minha percepção). Perdi as contas das vezes em que ouvi algo como: “Interessante, mas como isto pode virar uma investigação acadêmica?”

Hoje escrevo sobre o tema de um campus ensolarado de uma universidade na Holanda. Aparentemente, a estranha ideia hoje interessa a algumas pessoas, de Norte a Sul do planeta. Conseguiu virar uma pesquisa de Mestrado, e depois um Doutorado e, de certa forma, volta agora revirada para as ruas e as redes, através da revista USINA.

Esse é um pequeno relato sobre a minha visão do crowdurbanismo como ideia e como ação. Você pode ler as próximas linhas como uma provocação. Como ideia, o crowdurbanismo é uma provocação à pesquisa erudita amarrada, que teme não ser levada a sério na mistura com o muito novo ou o muito popular. Como ação, o crowdurbanismo é uma provocação ao planejamento e ao projeto urbano dos burocratas sisudos e de todos aqueles que vivem preocupados com os grandes problemas, os grandes autores, as grandes narrativas, as grandes verbas – e desatentos “ao dobrar uma esquina”. (“Uma alegria! Atenção menina!”3)

Minha provocação começa com uma “vinheta quebrante”. Vinheta é um filme ou som curto que você escuta nos intervalos, nos respiros da programação diária. É também uma tática usada em pesquisa para estimular as pessoas a expressarem sua opinião, a partir de exemplos concretos de determinados acontecimentos (Hazel, 1995). Uso uma vinheta aqui para que você, caso queira, expresse o que pensa sobre o que eu digo. Já quebrante, na minha terra (Piauí), é um mau olhado terrível, mas aqui uso no sentido de um quebra de protocolo, uma fuga dançante das convenções e das restrições de tempo, espaço – e imaginação – às vezes presentes na visão produtivista da pesquisa acadêmica. Em uma publicação como esta, ao contrário, é permitido brincar, então: “Atenção para o refrão!”

2. Crowd…o que?

Em 2012, enquanto eu tentava entender o que era crowdsourcing, a primeira constituição crowdsourced da história era elaborada na Islândia. Impulsionada por uma crise econômica, islandeses articularam a “Revolução das Panelas”, ponto de partida para uma mudança substancial na Constituição. O sociólogo Manuel Castells, um dos pioneiros no estudo da sociedade em rede conta que, apoiada em discussões e divulgações no Facebook, no Twitter, no Youtube e no Flickr, nasceu a primeira wikiconstituição. (CASTELLS, 2013)

Além desse grande projeto, pequenas ações com fins cívicos baseadas no crowdsourcing começaram a se espalhar por todo o mundo na década de 2010. Ao fim de 2014, eu havia identificado pelo menos quatro tendências: (1) denúncia de problemas urbanos, (2) proposição de soluções; (3) mobilização virtual ou física; e (4) intervenção urbana efêmera ou permanente. (MAIA, 2013)

Também notei que dois tipos do crowdsourcing, em particular, concentravam a maioria das inciativas – o crowdmapping e o crowdfunding.

Um exemplo emblemático do crowdmapping ficou conhecido após uma tragédia em 2010 no Haiti, quando voluntários mobilizaram-se para mapear Porto Príncipe, capital do país, no OpenStreetMap (OSM). Eles ofereceram, em cerca de doze horas, informações precisas quanto a pontos de água e campos de refugiados aos que prestavam assistência médica e distribuíam alimentos. Estas informações não estavam disponíveis nos mapas oficiais e dificilmente poderiam ser atualizadas por meios tradicionais a tempo e com os recursos disponíveis.4

Desde então, iniciativas de crowdmapping começam a se difundir por todo o mundo, inclusive em assentamentos de baixa renda – favelas no Quênia, no Brasil e na Índia, por exemplo. O Map Kibera, iniciativa de mapeamento da maior favela de Nairóbi, teve início em 2009 com uma meta ambiciosa: “alterar as dinâmicas de informação local ajudando os residentes a amplificar suas visões usando as novas tecnologias” (HAGEN, 2011). Segundo os ativistas Erica Hagen e Mikel Maron, representantes do OSM e idealizadores do projeto, a informação espacial gerada a partir destas práticas pode ser usada para influenciar políticas e o desenvolvimento urbano, alterando dinâmicas de poder que costumam restringir a participação de moradores. No mesmo ano, surge na cidade do Rio de Janeiro o projeto Wikimapa, da ONG Rede Jovem, cujo objetivo declarado foi tirar territórios marginalizados da “invisibilidade social” e dar “oportunidade de a favela ser conhecida e reconhecida como território legítimo” (CAVALCANTE, 2014). Em 2016, a pesquisa que hoje desenvolvo mostra que só na cidade do Rio de Janeiro há mais de uma dezena de iniciativas de mapeamento participativo digital de favelas; propostas por ONGs, pelo poder público ou por grandes empresas de tecnologia como Google e Microsoft. Com frequência, estas iniciativas associam o mapeamento participativo digital com ideais de inclusão, reconhecimento, cidadania, integração, visibilidade e participação.5

Quanto ao crowdfunding, uma das maiores campanhas para intervenções urbanas ativa hoje é é a iniciativa norte-americana da piscina flutuante de água filtrada +Pool do East River em Brooklyn, Nova York. Em 2009, dois escritórios de arquitetura (Family e Play Lab) lançaram no Kickstarter 6uma proposta de financiamento deste equipamento urbano. Desde então, foram arrecadados US$362,440 através de milhares de doadores que, em troca, terão seus nomes gravados nas cerâmicas de suas futuras paredes.7

Ainda nos Estados Unidos, diante de um visível aumento na criminalidade urbana, os moradores de Detroit financiaram uma estátua do Robocop, personagem justiceiro de filmes de ação dos anos 80 gravados na cidade. Foram levantados UU$ 67.000,00 via Kickstarter. Logo após a conclusão do financiamento, o prefeito se pronunciou no Twitter: “Não há planos de erigir uma estátua do Robocop. Obrigada pela sugestão.” Isso, pelo visto, nao foi suficiente para conter os financiadores. Mesmo sem a permissão legal, a estátua foi erigida e instalada em um lote de terra doado por uma organização sem fins lucrativos. (Boyer, Hill, 2013.)

No Brasil, dentre as iniciativas de crowdfunding, uma proposta interessante é a das estudantes de arquitetura Andrea Helou e Julieta Fialho, da Escola da Cidade, abrigada no Catarse8. Elas se uniram para intervenção em um muro de um parque degradado no subúrbio de São Paulo. Um projeto-crítica aos muros que segregam a metrópole, o Tiquatira em Construção reuniu R$ 16.851,00 de 164 apoiadores em um mês. Com o dinheiro arrecadado, as estudantes mobilizaram voluntários para um mutirão de execução da obra, que durou uma semana e culminou em um evento com música, cinema, feijoada e oficinas de arte, reunindo acadêmicos e moradores.9

Exemplos de crowdsourcing de mão de obra, por sua vez, podem ser encontrados na iniciativa norte-americana Code for America. Uma das primeiras criações dos seus programadores foi o Adopt an Hidrant, app que serve para mobilizar moradores a escavar a neve ao redor de um hidrante específico – que é adotado e recebe um nome. Este aplicativo foi, em seguida, adaptado para fins diversos em outras cidades: em Chicago, para remover neve das calçadas; em Seattle, para limpar bueiros entupidos depois de tempestades e, em Honolulu, para checar baterias de sirenes de alerta de tsnunamis.10

Já no Brasil, um exemplo de crowdsourcing de mão de obra é a iniciativa Que Ônibus Passa Aqui? do coletivo de publicitários Shoot the Shit11. A campanha propôs em 2012 sinalizar paradas de ônibus da capital gaúcha. Naquele momento, Porto Alegre possuía pouco mais de vinte paradas sinalizadas – das quase seis mil existentes. Os publicitários do coletivo sugeriram às pessoas que baixassem, na página da campanha no Facebook, adesivos com espaços em branco que seriam colados nas paradas e preenchidos pelos próprios usuários do transporte público. Inicialmente acusados de vandalismo pelos órgãos responsáveis pela mobilidade urbana, a ideia do coletivo foi em seguida incorporada à agenda do governo de Porto Alegre. Após ter se tornado oficial, o ritmo da atividade foi reduzido por questões burocráticas. No entanto, a campanha se expandiu para mais de 30 cidades brasileiras. Pessoas de todo o país, de forma independente, reproduziram a experiência dos gaúchos nos anos que se seguiram.

3. Urbanismo, tecnologias digitais e direito à cidade

O crowdurbanismo é, essencialmente, um mecanismo de mobilização e participação cidadã em intervenções urbanas baseado na web 2.0. Este fenômeno emergiu junto com a popularização das plataformas digitais que dão suporte a redes sociais digitais e permitem a produção e compartilhamento de conteúdo pelos usuários – como Facebook, Twitter, Open Street Map e outras.

Porém, o crowdurbanismo não é um fenômeno isolado. Ele faz parte de um movimento mais amplo de renovação da discussão sobre a participação cidadã em assuntos cívicos, uma nova “onda de participação” que se levanta no início do século XXI – e que dá sinais, por exemplo, em movimentos como a Primavera Árabe, o Occupy e o #contraoaumento. Esta discussão é estimulada, em parte, pelas novas possibilidades oferecidas pelas tecnologias de informação e comunicação – interação humana em tempo real, em escala massiva, de forma relativamente autônoma. As redes sociais formadas hoje são de tamanho e complexidade sem precedentes. (CASTELLS, 2007, 2009) Os debates sobre a urbanização contemporânea reconhecem que estas redes se tornaram as forças-motrizes do desenvolvimento urbano. (TIMMEREN et al., 2015)

No urbanismo, esta tendência fica clara em uma série de termos que tentam explicar e, ao mesmo tempo, estimular estas práticas, como cidade copyleft, cidade remixada e Urbanismo P2P.

Gutiérrez é quem apresenta a noção de cidade copyleft. Ele propõe uma relação entre a noção de direito à cidade de Lefebvre e a de licença copyleft de Stallman. O autor explica que Lefebvre, (1968), filósofo francês, acredita que o urbano deve ser construído pelos cidadãos, não imposto por um sistema. Para Lefebvre, as cidades se encontram continuamente em construção, ou seja, são antes práticas que artefatos. Stallman, por sua vez, criou a licença que libera a cópia e a livre reprodução de conteúdos (desde que sob a mesma licença), a licença copyleft (em contraposição ao copyright). Gutiérrez faz uma relação entre estas propostas:

Relacionar a Lefebvre e a Stallman não é um capricho. É uma intuição infalível. Algo totalmente lógico. Stallman tem claro que o software livre não é um produto: é um movimento social. Lefebvre sofria vendo a cidade “convertida em um objeto de consumo”. Stallman afirma que “um bom cidadão é aquele que colabora, não aquele que alcança sucesso quando rouba os outros” (proprietário de mercado). Lefebvre exalta o “valor de uso” (o gozo, a beleza) versus o valor de troca (o mercado e suas exigências). E o mais revelador, ambos vislumbram um mundo governado por corporações escuras e objetos privatizados. “A coisa mais importante é resistir à tendência de dar mais poder para as empresas em detrimento do público”, disse Stallman. […] Software livre para uma sociedade livre. Software livre para uma cidade livre. (GUTIÉRREZ, 2013)

O autor, a partir daí, propõe aplicar a definição de software livre (licença copyleft) ao urbano, simplesmente substituindo a palavra programa por cidade. Portanto, uma cidade copyleft seria aquela que pode ser executada livremente, seja qual for o propósito; que pode ter seu funcionamento estudado e adaptado às necessidades do usuário (sendo a liberação do código-fonte, os dados relativos à operação da cidade, um pré-requisito para isso); que pode ter suas cópias redistribuídas em um espírito de cooperação e que pode ser melhorada e divulgada para o bem da comunidade em geral.

O copyleft urbano seria, então, a licença geral que garantiria o valor de uso urbano apontado por Lefebvre, que converteria os consumidores de produtos e espaços em consumidores-produtores de cidade. A cidade deixaria de ser um produto cuja fórmula fechada foi imposta por um sistema (político ou de mercado) e passaria a ser um processo coletivo, melhorado progressivamente em redes sociais.

Uma cidade copyleft é uma praça aberta, participativa, cujo código fonte está escrito coletivamente (projeto Wikiplaza). A cidade copyleft é um espaço urbano gerido e melhorado em rede (projeto Esto es una plaza). A cidade copyleft é um conjunto compartilhado de dados abertos sobre os orçamentos de cada bairro (projeto Mon Quartier). Ou uma visualização de qual caminho leva o lixo desde que sai de casa (projeto Trash Track) (GUTIÉRREZ, 2013)

Outra proposta curiosa é a formulada pelo pensador e ativista Matthew Fuller juntamente com o urbanista e designer Usman Haque: o Urban Versioning System 1.0.

Em uma paródia de uma licença de uso, Fuller e Haque listam sugestões para projeto e construção de cidades abertas. A Urban Versioning System 1.0 se baseia no conceito de que é na liberação do código, ou seja, das informações a respeito das cidades, que está a chave de seu desenvolvimento. Nas cidades sob esta licença:

(1) a construção é preferível ao planejamento;
(2) os materiais devem vir “pré-quebrados”, ou seja, exigir a constante reposição;
(3) as articulações sociais devem ser feitas continuamente;
(4) os problemas devem ser resolvidos de maneira incremental;
(5) as pessoas devem colaborar em níveis diferentes (segundo seu nível de capacidade, do iniciante ao avançado);
(6) esta colaboração deve se dar mesmo entre adversários (econômicos, políticos, e outros);
(7) copiar ou não copiar é irrelevante – o que importa é gerar novos conteúdos, ainda que parcialmente copiados;
(8) planos não precisam ser estritamente observados. Como exemplo de um protótipo de ferramenta para a cidade de licença aberta, citam a plataforma How to Occupy, que, ao longo do Occupy nos Estados Unidos, “liberou” o código, a metodologia, as práticas urbanas e os dados sobre o movimento. (FULLER; HAQUE, 2008)

Mais um conceito interessante é o de cidade remixada, de Charles Leadbetter. Para construir sua ideia, este autor busca referência no conceito de remix, cuja origem está na música, na mistura e alteração de ritmos e melodias com total liberdade, gerando novos sons. Para ele, a cidade remixada deve permitir que as pessoas mesclassem conhecimentos e habilidades de forma livre e inédita, gerando inovações sociais. (LEADBETTER, s.d.)

Esta mescla deve se basear em mecanismos organizacionais abertos (open source) baseados na web 2.0 – como o crowdsourcing. Estes mecanismos representariam peças-chaves para a transição de um modelo centralizado de solução de problemas em direção a um aumento da influência dos cidadãos no planejamento, na intervenção e na gestão urbanas. Assim, deveriam ser estimulados pelo poder público se encontraria em inércia porque teve suas instituições pensadas para uma era mais estável e previsível. Independentemente deste estímulo, porém, o remix das cidades já acontece e o poder público pode até “orquestrá-lo”, mas está fora do seu alcance controlá-lo. (LEADBETTER, s.d.)

Também nesta linha, Salingaros propõe o urbanismo Peer to Peer (P2P) 12. Ele parte da crença de que o planejamento e o urbanismo centralizados pelo Estado não permitem o entendimento satisfatório de detalhes locais. Para fazer face a este problema, o modelo de urbanismo que seu grupo propõe se fundamenta na agregação de pequenos conhecimentos específicos de cada cidadão e na disseminação desses conhecimentos para gerar um quadro detalhado das cidades. Este quadro, construído e analisado pelos cidadãos, permitiria soluções mais coerentes aos problemas locais do que um panorama geral, construído e analisado exclusivamente por especialistas. O urbanismo P2P se basearia em princípios como acesso integral às informações da cidade pelos cidadãos por meio das TICs (open data), a participação dos usuários em todos os níveis de planejamento e o compromisso em gerar soluções (conhecimento, tecnologias, práticas) sob licença aberta. (SALINGAROS; MENA-QUINTERO, 2010)

4. Participação e Insurgência

Tanto as práticas quanto as ideias de crowdurbanismo nos fazem pensar sobre o conceito de participação no planejamento e no projeto urbano. São práticas que desafiam o entendimento convencional de participação no Urbanismo. Elas nem sempre parecem caber nas nossas classificações usuais como top-down e bottom-up, ou na tradicional “escada de Arnstein”13 proposta nos anos 1960 para analisar ações públicas, onde cada degrau corresponde a um grau de poder da população nas decisões, indo da manipulação (não-participação) ao controle (nível máximo de participação).

Então, como definir, desvendar, interpretar estas práticas? O que fazer quando os “rótulos teóricos” não dão mais conta de definir precisamente o conteúdo das experiências? A teoria está errada? Ou há algo que estamos deixando de fora?

Nas ciências sociais, as categorias de análise devem se renovar em compasso com as práticas sociais14. Para tentar entender práticas como o crowdurbanismo de uma perspectiva teórica foi preciso buscar referências para além das teorias convencionais sobre participação e arriscar uma leitura pouco usual delas.

Um primeiro passo foi reconhecer a dinâmica da participação no contexto em que estamos inseridos. Villaça, arquiteto urbanista paulista, professor da FAU USP, oferece uma visão clara do tema no Brasil quando alerta sobre “a ilusão da participação”. Para o urbanista, a principal razão da “ilusão da participação” em uma realidade política, social e economicamente profundamente desigual como a nossa seria a imensa assimetria entre poderes de diferentes grupos sociais, o que implica em diferentes métodos de atuação, diferentes canais de acesso ao poder e, “principalmente – algo que se procura sempre esconder – diferentes interesses.” A seu ver, muitos processos ditos participativos serviriam apenas para “dar aparência de democrática a decisões tomadas sob um jogo totalmente desequilibrado de pressões.” (VILLAÇA, 2005).

Indo um passo adiante, trouxemos para a conversa autores como Peter Marcuse (2008) e Rainer Randolph (2007, 2008), que acreditam que é preciso haver uma radicalização na proposta da participação popular. Para Marcuse, a sociedade não conseguirá que suas demandas sejam atendidas apenas pela persuasão racional por meio de canais oficiais, mas também pela mobilização “por fora” dos espaços políticos formais – para além das assembleias ou fóruns populares, por exemplo. 15Randolph, por sua vez, inspirado em Boaventura Sousa Santos, defende um planejamento baseado nas experiências sociais. Hoje, estas experiências estariam sendo desperdiçadas pela concepção abstrata e formal da participação que desconsidera possibilidades concretas de participação. Para ele, “são os espaços cotidianos das práticas sociais e espaciais que podem dar origem a formas substantivas de exercício de cidadania, do aproveitamento de outras fontes de informação e de uma orientação nova para práticas de planejamento.” (RANDOLPH, 2008) Esta orientação deveria envolver a transição de um planejamento colaborativo a um planejamento subversivo. (RANDOLPH, 2007; 2008)

Trazendo esta discussão explicitamente para o campo do urbanismo, James Holston propõe o termo urbanismo insurgente. (HOLSTON, 1998, 2013) Urbanismo insurgente seria não apenas aquele que se opõem aos espaços modernistas construídos – como as favelas em oposição aos bairros formais, por exemplo – mas, também, as práticas urbanas que se opõem ao projeto político modernista que absorve a cidadania num plano de construção do Estado. Neste projeto, o Estado é a única fonte legítima de direitos, sentido e práticas da cidadania. Em oposição a esta noção, formas insurgentes de cidadania (que expressam as condições sociais existentes de facto) também deveriam ser consideradas legítimas. Práticas de cidadania insurgente seriam aquelas exercidas tanto por meio de manifestações organizadas (movimentos sociais) quanto por práticas cotidianas. Seriam, enfim, todas as práticas sociais que “de diferentes maneiras, legitimam, parodiam, desordenam, ou subvertem as agendas do Estado.” (HOLSTON, 1995, tradução nossa).

A proposta de Holston é que os estudos urbanos se concentrem justamente nestas práticas que envolvem a natureza problemática de pertencer à sociedade e à cidade. O não-intencional ou não-esperado – a contradição, o conflito, a ambiguidade e a indeterminação – característicos da vida social deveriam ser elementos constitutivos do planejamento e do projeto urbano contemporâneos.

Finalmente, e de certa maneira coroando esta corrente, o sociólogo David Harvey tem disseminado o antigo clamor do direito à cidade de Lefebvre. O direito à cidade é o direito à vida urbana e à sua transformação e renovação, o direito de mudar e reinventar as cidades conforme os nossos desejos. Para Harvey, o direito à cidade é um direito mais coletivo que individual, pois depende do exercício de um poder coletivo sobre o processo de urbanização. É, também, um dos direitos humanos mais importantes e um dos mais negligenciados na contemporaneidade. Em suas palavras: “Clamar pelo direito à cidade […] é clamar por algum tipo de poder transformador sobre o processo de urbanização, sobre as formas como as nossas cidades são feitas e refeitas, e fazer isso de forma fundamental e radical” (HARVEY, 2013, tradução nossa)

5. Por um urbanismo “crowdsourced”?

Sugeri que o uso do crowdsourcing para intervenções urbanas surge como uma provocação às práticas e às teorias mais convencionais do Urbanismo. Mas esta prática seria a chave da mudança fundamental e radical que procuramos já há algum tempo? É preciso realçar que o crowdurbanismo não resolve (e nem pretende resolver!) grandes e importantes problemas urbanos – como a mobilidade, a segregação socioespacial ou a função social do solo. Além disso, não substitui o trabalho dos planejadores, arquitetos, urbanistas e gestores, tampouco o planejamento e o projeto para médio e longo prazo. O que o crowdurbanismo faz é chamar a atenção, em forma de paródia, irreverência ou subversão, para determinados problemas urbanos.

Por sua vez, o que as pessoas que se mobilizam em torno deste mecanismo tem feito é exercer o seu direito à cidade no sentido original de Lefebvre: cidade como lugar da festa, do encontro, da conversa, da criação. São pequenos truques, brincadeiras, gadgets, que nos lembram de que as cidades são para pessoas16 (GEHL, 2010) e as ruas são para dançar17. Afinal, um dos maiores valores do urbano é – ou deveria ser – justamente o seu valor de uso. (LEFEBVRE, 1999, 2000). O crowdurbanismo pode ser lido como uma ação de cidadania insurgente, que tem como horizonte18 cidades copylefts, remixadas e – por que não? – um planejamento subversivo e um urbanismo insurgente, no sentido dos termos que os autores citados adotam. (HOLSTON, 2013; GUTIÉRREZ, 2012; LEADBEATER, [s.d.]; RANDOLPH, 2008).

Para construir esta visão muito particular do crowdurbanismo, busquei na prática e na teoria alguns ingredientes que podem ser usados para renovar o olhar e pensamento sobre a participação cidadã na transformação das nossas cidades. Muitas referências vieram de uma literatura que os acadêmicos costumam chamar de “cinza” – “não convencional, fugidia e às vezes, efêmera”.19 Outras referências são clássicas nas ciências sociais – Manuel Castells, David Harvey e Henri Lefebvre. Essa mistura entre o popular e o erudito é intencional: uma tentativa de chamar a atenção para os usos errantes, controversos, imprevistos e fugidios da cidade, inclusive – mas não apenas! – quando envolvem tecnologias digitais e espaços públicos.

Chamar a atenção para estas transformações, no entanto, não é suficiente para entendê-las. É preciso, acima de tudo, evitar a falsa relação de causa e efeito em que as tecnologias digitais são tratadas como inerentemente participativas, libertadoras, autônomas. O uso de tecnologias digitais para fins cívicos não leva, necessariamente, a uma maior participação dos cidadãos. As tecnologias são socialmente construídas e, por isso, seus usos não podem ser compreendidos sem a observação de sua inserção em contextos sociais, culturais, econômicos, políticos e históricos específicos. Dito de outra forma, nenhuma tecnologia, por mais sofisticada que seja, é capaz de determinar as nossas ações.

Volto, então, ao primeiro verso, à Primeira Lição de Urbanismo do célebre arquiteto italiano Bernardo Secchi, e em um remix, concluo: “para construir, modificar e transformar a cidade, a multidão anônima é frequentemente um protagonista tão importante quanto suas tecnologias.” (SECHI, 2006, adaptado)

PS: Como sou nordestina, esta vinheta quebrante soa como um repente. Quer cantar em resposta? Escuto por aqui: [email protected]

Flavia Maia, julho de 2016,
setembro 2019.


Notas:

1. “Vinheta quebrante” é uma música da cantora brasileira Céu.
2. A primeira vez que vi a palavra crowdurbanismo ser usada no Brasil foi no post de George Yurievitch no blog do Catarse. Disponível em: blog.catarse.me/financiamento-coletivo-e-questoes-urbanas/
3. “Divino Maravilhoso” é uma música da cantora brasileira Gal Costa.
4. Uma animação com o registro do mapeamento do Haiti em 12 horas no Open Street Map pode ser vista aqui: https://vimeo.com/9182869. Já a plataforma do OSM pode ser acessada em: www.openstreetmap.org
5. Nem sempre há um equilíbrio de forças entre os atores envolvidos neste tipo de mapeamento – moradores de favelas e empresas, por exemplo. Em alguns casos, o poder de decisão quanto ao conteúdo mapeado pode ser daqueles que detém a tecnologia digital, mais do que daqueles que a manipulam no cotidiano. Nos casos em que a iniciativa não parte de moradores, principalmente, é preciso ter olhos críticos sobre os riscos e possibilidades da mobilização de pessoas para mapeamento digital.
6. Disponível em: www.kickstarter.com
7. Disponível em: www.pluspool.org
8. Catarse é hoje a maior plataforma de financiamento coletivo do Brasil. Disponível em: www.catarse.me
9. O caderno de projeto do Tiquatira em Construção está disponível em: https://issuu.com/tiquatiraemconstrucao/docs/cadernoprojetos
10. Jennifer Pahlka, fundadora do Code for America, explica a iniciativa nesta conferência TED: http://www.ted.com/talks/jennifer_pahlka_coding_a_better_government
11. Disponível em: http://www.shoottheshit.cc/
12.P2P é a sigla para peer-to-peer (do inglês par-a-par ou simplesmente ponto-a-ponto), um tipo de arquitetura de redes de computadores onde cada um dos pontos ou nós da rede funciona tanto como cliente quanto como servidor, permitindo compartilhamentos de serviços e dados sem a necessidade de um servidor central. Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Peer-to-peer
13. Os degraus de escada de Arnstein são, de cima para baixo: (8) Controle Cidadão; (7) Delegação de Poder; (6) Parceria; (5) Pacificação; (4) Consulta; (3) Informação; (2) Terapia; (1) Manipulação. (ARNSTEIN, 1969)
14. “Sabemos que no campo das ciências humanas a crítica às categorias de análise, bem como suas redefinições, é algo que se faz em compasso com a interpretação das mudanças operantes no mundo social e ao modo como se formula as novas exigências interpretativas em diálogo com as questões políticas colocadas, com suas promessas, desencantos ou hesitações.” (TELLES, 2005)
15. Mais sobre o tema pode ser visto no painel final da conferência Radical Urbanism (2008), realizado na City University of New York Grad Center, por Peter Marcuse, Margit Mayer, Susan Fainstein e David Harvey, com moderação de Neil Smith. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=4Q_auw4AeZI
16. Além de dar título ao livro do arquiteto Gehl, “Cidades para Pessoas” é o nome de um projeto da jornalista Natália Garcia financiado via crowdfunding pelo Catarse. Natália viajou por várias cidades do mundo divulgando soluções urbanas. Disponível em: catarse.me/pt/flexible_projects/36-cidades-para-pessoas
17. “As ruas são para dançar” é o lema do coletivo paulistano de intervenções urbanas Baixo Centro. Disponível em: baixocentro.org.
18. “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar” Eduardo Galeano, sobre o direito de sonhar, em: https://www.youtube.com/watch?v=9iqi1oaKvzs
19. Disponível em: http://www.greylit.org/about


Referências:

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