Nota introdutória
Há muito gostaria de escrever sobre o cinema de Kleber Mendonça Filho e, na falta de tempo para desenvolver as ideias, escrevo aqui alguns comentários – lampejos de opinião. Não escrevo como um especialista e nem como um crítico, escrevo principalmente como admirador do seu trabalho e também como alguém interessado em fazer cinema. Por isso, quero pensar artisticamente seus filmes – seja lá o que isso signifique. Aqui, vou focar mais nos longas de ficção – embora seus curtas e documentários, por eles mesmos, estejam muito próximos do que eu chamaria de um filmografia perfeita, se existisse tal coisa. Não quero entrar também em searas teóricas sobre o que é ficção, e que o documentário também é uma ficção etc. Não vou ficar explicando muito nada, são só comentários sem rigor sobre o cinema.
Primeiro elogio: a duração
A questão da duração é um problema que atravessa o cinema (e a música). De maneira bem simples: o filme possui uma duração determinada: ele começa em um lugar e acaba em outro e, a menos que outra versão seja lançada, ela vai sempre ter o mesmo tempo, que é o tempo do filme. Contudo, o diretor, em sua faceta (digamos) de músico, consegue moldar essa duração para dramatizar o tempo – mas não o tempo natural, como no teatro, em que a duração não para de acontecer, mas numa duração montada, editada – em que o olhar sugere o movimento no vácuo entre dois ventos, como disse Guilherme Vaz. Nessa relação, que digo musical mas não vou elaborar muito, o diretor à serviço do drama constrói o tempo do filme – sensibilizando e (no melhor sentido da palavra?) manipulando o público, ou libertando suas emoções (talvez isso seja coisa dos antigos). Nesse emaranhado sensível em que a imagem, a música, os atores etc trazem à tona (uma complexidade que se adensa em uma unidade múltipla, que é o próprio filme) o diretor suspende o público na instalação de mundos – e é justamente esse aspecto que quero ressaltar: o suspense. As expectativas são construídas de um modo bem próprio.
“O Som ao Redor” (2013) é seminal nesse sentido. Um filme histórico, lançado em um ano histórico, de ruptura. O suspense é construído na casualidade, um incômodo sempre presente, que a gente não consegue entender muito bem o que é, como algo à espreita que, aos poucos, vai fechando o cerco – até que se torna inevitável. Esse é um exemplo da construção do suspense em um sentido geral do filme, um dos sustentáculos do seu drama do início ao fim. Contudo, há (muitos) exemplos de cenas menores, pequenos gestos às vezes, que carregam essa mesma força do suspense – ou que de alguma maneira também sustentam esse suspense geral do filme. Em “Aquarius” (2016), por exemplo, a personagem Clara, interpretada por Sônia Braga, está andando na rua chegando no seu edifício, que está sob a mira da especulação imobiliária. Dois homens aparecem na rua, e andam em direção a Clara. O que parece ser um gesto simples, um momento curto no filme, é carregado de tensão, de expectativa sobre o futuro de Clara – e no final, não era nada, não acontece nada. É só mais uma casualidade, a vida acontecendo. Em “Bacurau” (2019), há uma das grandes cenas de suspense, e feita com muita maestria: a cena das crianças jogando bola no campinho, à noite. Tudo indica que vai acontecer o que vai acontecer, e mesmo assim, nessa manipulação do tempo, nesse jogo de expectativas, o público ainda assim se assusta, ou se surpreende. Então nós temos uma expectativa confirmada que, mesmo assim, surpreende – ou como no caso da cena de Aquarius, uma expectativa frustrada que também surpreende. Como na cena de abertura de “O Agente Secreto” (2025), em que o personagem de Wagner Moura para em um posto de gasolina, em pleno carnaval. Não quero ficar entregando a história, mas esse jogo é bem interessante e espero um dia aprofundar e ser mais preciso nas palavras para descrevê-lo.
Segundo elogio: a espacialização
A espacialização é outro elemento que considero ser importante. Não apenas a espacialização geográfica de Pernambuco e seus lugares – que também são determinantes para a sua linguagem – mas também uma espacialização conceitual, do ponto de vista da narrativa mesmo. Ainda não está tão claro para mim como isso ocorre, é mais como uma intuição. Os roteiros funcionam talvez como um quebra-cabeça? Como disse Thiago Lessa. Não sei, talvez. Mas não como um quebra-cabeça que montamos conscientemente, mas um que se monta sozinho, sem que percebamos. Essa condição é primordial em “O Som ao Redor”. Posso estar errado também.. Mas aqui vale um pouco mais de atenção. “O Som ao Redor” talvez seja o filme mais evidente dessa espacialização – ou do que estou chamando de espacialização – mas sinto que ela aparece em todos os outros filmes, em algum nível. É a forma como ele conta a história. “O Som ao Redor” é um cinema de autor, um filme bem próprio e que não necessariamente pode ser encaixado em um gênero cinematográfico. A minha impressão é que, a partir de “Aquarius”, ele passou a apresentar e a investigar a linguagem de um cinema de gênero, mas mantendo e aprimorando seus traços artísticos – como o surrealismo e a casualidade. “Aquarius” é um filme de personagem, uma investigação sobre a construção de personagem. “Bacurau” já possui um gênero muito bem delimitado: um filme de ação/aventura – linguagem que o aproxima mais de Hollywood e dos filmes “farofa”, embora com conteúdo politizado – outra constante dos seus filmes.
Uma crítica: as explanações
Na verdade, são mais perguntas que uma crítica, já que claramente são escolhas artísticas e conscientes: por que tantos diálogos de explicações, de descrições, mastigando para o público o que está na tela? Por que tantos diálogos de apresentações de personagens, por exemplo, em “O Agente Secreto”? Por que as histórias têm que ter uma lição de moral tão evidenciada e tão falada? A cena de Humberto Carrão e Sônia Braga em “Aquarius”, por exemplo, quando o corretor dá um sermão nela, no estacionamento do prédio, se não me engano. Aquilo era necessário? A linguagem visual e o drama já são suficientemente fortes, não acho que precisem desse nível de didatismo. Talvez seja esse diálogo com o cinema grande, com o filme de gênero e os filmes “farofa”. Talvez seja também para chegar em mais pessoas, não ser um filme hermético. Não sei. Outra questão que sempre me encucou, por que não desenvolver esse personagem tão interessante que é o Lunga, de “Bacurau”. Nunca entendi isso. Ele é só uma aparição? Esse é o sentido?
Nota final
Kleber Mendonça Filho faz um cinema autoral, escrevendo e dirigindo seus próprios filmes, entre o cinema de arte e narrativo – dialogando cada vez mais com a linguagem de gênero, e com os filmes “pipoca”, mas mantendo o rigor cinematográfico e os traços autorais. Sua regularidade artística é digna de nota, considerando o risco que ele sempre toma em seus filmes e o quão caro é fazer cinema – ele arrisca novos gêneros, formatos etc. mas mantendo o apelo dramático e visual. Esse princípio, do risco, é um dos indícios de sua integridade artística e compromisso com o cinema. Melhor terminar por aqui porque preciso fazer outras coisas.