Estes dois experimentos fílmicos foram realizados em tempos e contextos diferentes, mas formam um longo e contínuo caminho comunicativo, que se realiza em biosfera criativa: dispersa, móvel e impalpável. Dos acúmulos aos desapegos, das inspirações às expirações, dos silêncios aos ruídos. Os filmes são fluxos dispersos que descontínuamente seguem uma continuidade íntima e misteriosa, redirecionando as informações, estímulos e impulsos que atingem e emergem do ser.
Ambos nascem desse lugar do indizível, das tensões entranhadas no corpo e dos ciclos viciosos de auto-saturação estimulatória, em constante fuga do presente. Assim, talvez busquem atenuar um estado de ansiedades paralisantes, dando fôlego e espaço para a respiração calma, o corpo relaxado, os sentidos restaurados, a comunicação fluida e as criações vivas.
Experimento respiratório nº 1
O experimento respiratório nº 1 é o processo de tomada de consciência no estar imerso em ambiente aéreo info-saturado, fortemente mediado pelo corpo. Visualizar essa imersão é um primeiro passo consciente na infinita queda criativa nos fluxos caóticos do ar. Ao mesmo tempo, esse corpo que contrasta com nuvens e bits, tateia uma opacidade do ambiente e da própria imagem, revelando uma constante mediação com o mundo e refundando um campo de experiências em novas bases, um horizonte do possível.
A respiração também se coloca como forte mediadora com o ambiente aéreo e criativo, mediando a própria sensibilidade do ser e do estar. Explorando a imagem e o som desse corpo que respira, o experimento busca elaborar essa receptividade ativa, que inspira no mundo, processa e elabora as informações, para então expirar algo, em ciclo contínuo e transformador.

O filme também inaugura a relação com os bits, informação visual mínima, e com a glitch art, exploração estética da falha digital (e analógica), através da introdução de erros nos dados e códigos. Esses processos (e estética) de corrompimento dos arquivos e superfícies digitais são base para toda a proposta dos experimentos fílmicos, que investigam a mediação e buscam revelar as características e lógicas ocultas nas imagens, no ar e na própria função mediadora da criação.
Destacando os bits e os erros na superfície da imagem, é possível evocar também o indizível e as sensações que envolvem a experiência info-saturada, expressando o excesso e suspendendo ou retardando a significação, como forma de estimular um posicionamento ativo e dialógico com as imagens e com o mundo.
Experimento respiratório nº 2
O experimento respiratório nº 2 anuncia, celebra e materializa a experiência de receptividade ativa no meio aéreo que vivemos, esperançoso de uma sensibilidade recuperada e suave nos fluxos desordenados do ambiente. Realizado na Oficina Tomada Única Brasil do Festival Super Off, o filme foi feito em câmera Super 8.
Essa foi minha primeira experiência com esse formato e com a proposta de gravar um filme em tomada única, ou seja, realizando a montagem final diretamente no ato de gravação, sem edição posterior. Aberto à essa experiência e mentalizando o aspecto plácido e espontâneo do ar, a filmagem foi realizada em uma única tarde, com um roteiro simples que foi sendo recriado durante o momento.

Destaco a reincidência do processo respiratório e das mãos como sentido de transformação e criação, que se interessa pela experiência tátil e corpórea no ar. Porém, o filme se atenta de forma mais concentrada na visualização do ar a partir de seu caráter indicial, ao interagir com os objetos e seres do mundo: as folhas, os sinos, os pássaros e as nuvens. Essa característica é importante para pensar a relação dialógica que o ambiente aéreo possibilita, em constantes processos de mediação e em contínuo movimento.

Além disso, o filme sustenta diversas imagens que contrariam a expectativa do momento de gravação, ao ficarem fora de foco e comporem uma sequência que não necessariamente agrada a intenção imaginada inicialmente, mas que abrigam (e obrigam?) uma sensação de suficiência, de que o possível foi feito, mas que ainda está aberto à modificações.
